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gaboriau:1963b:linguagem-dinheiro

3.C.5 Linguagem e lógica do dinheiro

Aristóteles faz uma distinção — que vale a pena reter — entre ktema (a posse, a aquisição, os bens móveis ou imóveis) e khrema (o dinheiro, a riqueza). Consequentemente, ele distingue a crematística (prática e técnica do dinheiro, como moeda convencional) da economia dos bens naturais.

Existe, portanto, para o chefe da família e para o governante da cidade, uma espécie de aquisição de riquezas conforme à natureza. Mas há outro modo de aquisição, precisamente aquele que se costuma chamar, com razão, de crematística, que não impõe nenhum limite ao enriquecimento. Muitos pensam que ele se confunde com o anterior porque esses dois modos são semelhantes. Mas eles são diferentes, sem estarem muito distantes. Um é natural; o outro não; este último decorre de uma prática e de uma técnica específicas (Pol. I, 3, 9).

A crematística tem, portanto, como objeto principal a moeda e como função produzir o máximo de dinheiro possível para as trocas. Ela não é, por si só, produtora de riqueza. O patrimônio é outra coisa senão uma quantidade de dinheiro. O dinheiro é uma riqueza “irreal” fundamentada na “convenção”, não na “natureza” da coisa.

E que sentido dar a essas afirmações? Em primeiro lugar, no sentido de que o dinheiro não é o equipamento (o habitus); nem é o trabalho ou a ação; nem é a existência. No entanto, ele se relaciona com tudo isso. Como? Que relação racional? O dinheiro não teria nenhum significado?

A explicação a seguir ficará mais clara à luz do que nos ensina a análise da ação, da relação e da linguagem. Certas siglas, em particular, que vamos empregar, já se tornaram familiares (cf. p. 123).

O dinheiro é um “sinal”: um sinal de riqueza. Como tal, sem dúvida, não é nada além de um sinal; um sinal, precisamente, cujo valor repousa sobre uma convenção, ela própria fundamentada racionalmente pelo valor-trabalho (ratio-actio).

R (existência) => R S (valor-trabalho) => S (dinheiro) É perfeitamente justificado odiar o empréstimo com juros (obolostático). Com isso, de fato, o dinheiro se torna ele próprio produtivo e é desviado de seu fim, que era facilitar as trocas. Mas os juros multiplicam o dinheiro; daí, precisamente, o nome que recebeu em grego, onde é chamado de “descendente” (tokhos). Assim como os filhos são da mesma natureza que seus pais, da mesma forma o juro é dinheiro, filho do dinheiro; mas, de todos os meios de enriquecimento, é também o mais contrário à natureza (Pol., I, 3, 23). Cf. Ética a Nicómaco, IV, I, 37, 1.

Uma visão mais precisa das coisas não deveria, neste caso, modificar a teoria e gerar outra prática universalmente adotada a partir de agora? Assim como há uma fecundidade da linguagem que se manifesta livremente no silogismo, da mesma forma haveria um processo “lógico” que vimos se desenvolver a partir do empréstimo com juros. Este é admissível precisamente na condição de que se mantenha a medida proporcional ao que o dinheiro pode, com razão, representar e que, de fato, expresse como substituto do trabalho 1).

O valor justo de um asignado é seu valor (SR). Suponhamos que uma quantia seja colocada ali como uma afirmação. A gente a combina com outra, a coloca em prática, a aplica a algum outro valor; daí resulta um movimento inédito, um dinamismo, uma eloquência nova, que nem a primeira nem a segunda proposição carregavam por si sós, mas que sua união determinou. Uma e outra têm participação na ação final, o que é justo reconhecer. O dinheiro imobilizado permanece infértil; mas, ao ser acoplado, por meio do empréstimo, a outro valor (de operação, nesse caso, de trabalho e de engenhosidade), torna-se produtivo. Por si só, como signo isolado, nada se poderia concluir, nada se poderia extrair dele. Mas, quando acoplado, ele gera: isso é correto. Dois valores justapostos são, logicamente, como duas proposições sem ligação. Mas quando uma ou outra, por meio do empréstimo, passa a se unir ao real, elas se prestam ajuda mútua; eis-as enxertadas na existência (em vez de permanecerem passivas); eis-as em ação e, por meio da ação-razão, geradoras, em certa medida, do efeito colhido; o juro insere um sinal no real; ou melhor, ele é o resultado gerado por esse engajamento, enquanto o solipsismo do dinheiro o condenaria a permanecer improdutivo. É o dinheiro solteiro.

O dinheiro, portanto, não é desprovido de um significado racional ao qual convém prestar atenção, para um equilíbrio justo da vida. Os pobres frequentemente nos dão o exemplo dessa sabedoria, quando, sem invejar ninguém, aprenderam a não desprezar nada: nem o dinheiro nem o pão. O que tem valor de símbolo — símbolo de vida — eles não o jogam na rua. O dinheiro, assim como o pão, é para eles a própria existência; e eles têm razão, em uma medida que convém avaliar a cada momento. O dinheiro é, em parte, uma existência já vivida; na medida em que representa esforço, capital e custo real no gasto existencial do qual emana. Por outro lado, é uma existência ainda não vivida: uma existência em espécie, cuja concretização na prática cabe a você escolher. O que você fará com essa linguagem? O dinheiro fala, em uma vida, com menos ambiguidade do que a eloquência, que se adapta a todos os usos. O uso que você faz do dinheiro diz claramente, sem retórica, o sentido da sua vida.

O drama — a ação existencial — é tal, porém, que os autênticos valores da existência não são “realizáveis” a partir dessas moedas. O que não se daria, se fosse possível, para transformar, pelo preço que se quisesse, as notas em “existência” e permanecer vivo! Mas esse valor não se compra: custe o que custar, no fim das contas, ele se perde. O símbolo acumulado permanece ineficaz. O dinheiro, neste caso, não é um resgate suficiente.

Isso significa que, se o homem tiver de viver um dia infinitamente feliz, sua nova vida terá sido paga de outra forma que não com dinheiro. Mas como conceber, sob que forma representar essa redenção infinitamente preciosa? Não temos a menor ideia, pelo menos enquanto não soubermos “o que é” o homem, a profundidade de sua perda e, portanto, o preço de seu resgate.

Vale ressaltar aqui, para concluir, nessa perspectiva do homem, de sua perda, de seu patrimônio e de sua redenção, que um certo “desprezo pelas riquezas” pode parecer o resultado de uma filosofia um tanto limitada, para não dizer de um idealismo ou de uma ingenuidade infantis.

A avaliação correta do dinheiro é sabedoria, na medida que já mencionamos. Pois o dinheiro, mais uma vez, é existência: para viver, precisamos dele, que se traduz em necessidades que seria ultrajante desprezar. A aparência de sabedoria nesse plano, assim como nos outros, chama-se “sofisma”: e a ilusão do heroísmo não redime essa caricatura. O dinheiro e a palavra são os humildes sinais nos quais se encarnam, para serem viáveis, a verdade e a vida. A filosofia não se permite “desconhecer” essas realidades: ela ensina apenas a compreender seu sentido. É certo que, por meio desses sinais, a existência não se confunde com eles. Correndo o risco de um trocadilho na assonância, a fórmula de sabedoria poderia, portanto, ser aqui: nem desprezo nem equívoco. A avaliação correta nos mantém a igual distância de dois extremos. O poder de compra fica aquém da vida que gostaríamos de manter, exatamente como o poder evocativo das palavras se esgota no limiar de nossa mente. Da mesma forma que, às portas de um Novo Reino, o Verbo substituirá nossas palavras, assim também um Redentor vem pagar pelo ser perdido e resgatá-lo a um alto preço. Os “sinais” são, então, de outra Capital, de outra Arca: os Sacramentos do Verbo Crucificado, Fonte Rica e Verdadeira. A Vida, que é Verdade, fala por meio do gesto, unindo, como se costuma dizer, o gesto à palavra: os sacramentos assim constituídos (S) são tão necessários à vida nova quanto o dinheiro ou a palavra às comunicações elementares; e, aliás, igualmente desconhecidos por aqueles a quem um certo idealismo afasta deles. Idealismo de pseudo-pobres, ilusoriamente espirituais, que não sabem apreciar, em sua modesta dimensão, a necessidade elementar do elemento sensível, da qual os humildes fazem experiência.

Deixemos aqui entreaberta para a filosofia (especialmente para a filosofia da religião e do sacrifício como tributo) uma perspectiva a ser explorada sobre a trama existencial dos sinais. Essa rede possui uma lógica tão rigorosa que não há como escapar dela, mesmo que a desconheçamos. O fracasso de uma vida pode depender desse equívoco. Cf. NIP. 2, Carrefour 23.

1)
Observemos, de passagem, a terminologia que manifesta essa relação do dinheiro com algo além de um mero signo: fala-se de “efeito”, de “conta”, de “ação”, etc. Adquirir uma ação é adquirir uma participação.
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