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Mercadoria mental
DESCOMBES, Vincent. La denrée mentale. Paris: les Éd. de Minuit, 1995.
- 1. Os fenômenos do espírito
- 1.1. Qual é o lugar do mental no mundo? O senso comum não decide a questão: no uso ordinário, o adjetivo «mental» não é reservado às atividades imanentes de um sujeito, mas pode qualificar qualquer coisa que envolva uma competência intelectual, como, por exemplo, um livro, produto mental.
- 1.2. A filosofia do espírito torna-se uma filosofia do mental quando o espírito é definido como uma esfera separada do mundo exterior, para a qual é necessário encontrar novamente um lugar no curso das coisas.
- 1.3. Classificação das fenomenologias do espírito: os fenômenos mentais podem ser concebidos como acessíveis a todos (exterioridade) ou apenas ao sujeito (interioridade); podem ser concebidos como manifestações indiretas (sintomas) ou diretas (critérios, expressões) do espírito.
- 1.4. A filosofia da consciência separa o espírito do mundo ao opor nosso conhecimento indireto dos acontecimentos do mundo ao nosso conhecimento direto e infalível dos acontecimentos mentais.
- 1.5. As teorias do inconsciente contestam a identificação do mental com o consciente, mas conservam a dissociação entre o espírito representador e o mundo; as teorias das causas mentais desenvolvem a filosofia do espírito representador em uma psicologia de terceira pessoa.
- 1.6. A filosofia da intenção não define a intencionalidade como uma relação especial do sujeito com o objeto, mas como uma ordem de sentido imposta a um material.
- 2. A controvérsia das duas ciências
- 2.1. O projeto de um estudo científico do espírito humano suscita, no século XIX, uma controvérsia sobre a unidade do método nas ciências.
- 2.2. A dualidade hermenêutica entre a explicação por leis e a compreensão do sentido reaparece atualmente no conflito entre duas filosofias da ação: a teoria causal da ação e a concepção intencionalista.
- 2.3. A oposição clássica entre «explicar» e «compreender» repousa sobre uma filosofia positivista da explicação naturalista, concebida como explicação por leis, isto é, por regularidades observadas.
- 2.4. As leis, concebidas como proposições gerais, não possuem qualquer poder explicativo; para que haja explicação, é necessário que a ligação regularmente constatada entre dois tipos de fenômenos corresponda a uma conexão real.
- 2.5. Nem toda explicação teleológica é uma explicação intencional, pois a explicação funcional de um sistema natural, por exemplo, não invoca nenhuma intenção.
- 3. O estudo antropológico do espírito
- 3.1. A antropologia estrutural constitui o projeto de explicar as instituições humanas, em sua diversidade, por meio de estruturas intelectuais comuns.
- 3.2. Lévi-Strauss considera a explicação estrutural um meio de superar a antítese entre a explicação dos fenômenos sociais pela consciência e sua explicação pelas circunstâncias históricas, pois a totalidade social apresenta um sentido racional na medida em que pode ser dada no espírito antes de suas partes.
- 3.3. Segundo Lévi-Strauss, o holismo do social deveria fundamentar-se em uma teoria do inconsciente estrutural; entretanto, uma psicologia naturalista não consegue explicar os sistemas simbólicos.
- 3.4. Segundo outra versão da explicação estrutural, representada por Louis Dumont, a antítese entre explicação voluntarista e explicação histórica pode ser superada por uma compreensão fundamentada na comparação radical entre nossa cultura e a cultura dos outros.
- 4. A nova filosofia do mental
- 4.1. Segundo o cognitivismo, o modelo do computador permitiria a uma psicologia natural estudar as atividades intelectuais.
- 4.2. Na filosofia contemporânea do mental, o materialismo constitui um dualismo que identifica o sujeito das operações mentais com o cérebro.
- 4.3. A nova filosofia do mental sustenta três teses: a vida mental consiste em uma sucessão de estados internos, esses estados mentais podem ser redescritos como estados cerebrais e o comportamento de um sujeito é o efeito de uma interação entre causas mentais interiores.
- Nota sobre a metafísica
- 5. As doutrinas do materialismo psíquico
- 5.1. As explicações psicológicas ordinárias não aplicam uma teoria aos acontecimentos.
- 5.2. A noção de «teoria psicológica popular» é confusa.
- 5.3. Existe uma teoria da arte de influenciar a conduta das pessoas oferecendo-lhes boas razões para agir: a retórica.
- 5.4. A explicação por causas psíquicas parece mágica, pois se supõe que as representações possam agir; segundo certas teorias causalistas, essa ação seria concebível se as representações fossem materiais, de modo que a constituição de uma psicologia científica exigiria a identificação de uma «matéria psíquica» (Lacan).
- 5.5. Entretanto, quando os signos materiais agem, sua ação decorre de suas propriedades físicas, e não de seu sentido.
- 5.6. A hipótese de uma eficácia simbólica do mito (Lévi-Strauss) antecipa a ideia cognitivista de que existiria, entre o intencional e o orgânico, um nível intermediário de espírito material, no qual os símbolos atuariam como formas físicas.
- 6. A psicologia do computador
- 6.1. O teste de Turing, destinado a estabelecer a existência de capacidades intelectuais na máquina, nada demonstra se não for admitida, como princípio, a realidade das classes de equivalência entre agentes que apresentam as mesmas aptidões, independentemente de suas origens e dos materiais que os constituem.
- 6.2. A comparação entre a inteligência humana e a inteligência artificial toma como modelo um operador humano que segue regras explícitas.
- 6.3. Não é possível fornecer regras a um sujeito que não possua aptidões práticas primitivas, pois a explicação termina onde a ação deve começar (Wittgenstein), assim como o ponto final do raciocínio prático constitui o ponto inicial da ação (Aristóteles).
- 6.4. Certas objeções à classificação funcional dos agentes inteligentes fundamentam-se em uma concepção insuficiente da natureza dos sistemas, pois um simples conjunto desprovido de organização, como o Quarto Chinês de Searle, não possui comportamento próprio, de modo que a questão de sua inteligência nem sequer se coloca.
- 7. O interior e o exterior
- 7.1. Na psicologia, a explicação funcional esclarece a estrutura do comportamento de um sistema animado em um ambiente complexo; entretanto, a teoria psicológica denominada «funcionalismo causal» permanece alheia a qualquer análise estrutural e, portanto, não oferece verdadeiras explicações funcionais.
- 7.2. As «ciências do artificial» (Herbert Simon) são, na realidade, ciências dos sistemas, naturais ou fabricados, considerados segundo suas capacidades de adaptação.
- 7.3. A explicação funcional é de natureza holista, pois, ao estudar a função das partes na totalidade sob a perspectiva da conduta racional dessa totalidade em seu ambiente externo, abstrai a estrutura interna das partes.
- 7.4. Se a psicologia é uma ciência do artificial, isso ocorre porque seu objeto, o comportamento dos sistemas animados, não é estudado como efeito das estruturas de seus ambientes internos, mas como resposta desses sistemas à complexidade de seus ambientes externos.
- A condição do espírito não é a interioridade, nem a subjetividade, nem a capacidade de cálculo, mas a autonomia na determinação dos fins de suas atividades.
- 8. O espírito mecânico
- 8.1. A analogia do computador pretende fornecer uma mediação entre os processos físicos, cuja explicação é causal, e os processos mentais, cuja explicação é intencional, encontrando essa mediação na ideia de que o computador realiza um cálculo entendido como transformação racional de fórmulas físicas.
- 8.2. A ideia de cálculo permitiria resolver as duas grandes dificuldades de uma teoria mecânica do espírito, denominadas «problema de Brentano» — como explicar acontecimentos físicos por conteúdos intencionais? — e «problema de Sherlock Holmes» — como uma sucessão mecânica de estados mentais pode constituir simultaneamente um raciocínio?
- 8.3. Toda teoria mecânica das representações mentais internas deve demonstrar que não necessita de um mecanismo inteligente, ou homúnculo, para manipular essas representações segundo seu conteúdo representativo.
- 8.4. A primeira defesa de uma psicologia mecânica consiste em decompor o trabalho intelectual em operações progressivamente mais simples; entretanto, a necessidade de um homúnculo não decorria da dificuldade das operações cognitivas, mas de sua intencionalidade.
- 8.5. A segunda defesa consiste em redescrever o trabalho intelectual como cálculo mecânico e, portanto, como trabalho físico; contudo, o trabalho físico assim descrito é cerebral, de modo que o cérebro se torna o sujeito das operações mentais, produzindo um dualismo entre cérebro e corpo.
- 8.6. A descrição das atividades de uma pessoa não pode ocorrer fora de um contexto narrativo, princípio de inteligibilidade presente em Wittgenstein e reconhecido pela tradição aristotélica, segundo a qual «as ações são atribuídas a sujeitos concretos», o que permite compreender por que os dualismos entre alma, espiritual ou material, e corpo estão condenados à incoerência.
- 9. Exercícios de cerebroscopia
- Se as crenças e os desejos fossem estados cerebrais da pessoa, deveria ser possível, em princípio, determinar aquilo em que alguém acredita ou aquilo que deseja mediante o exame de seu estado cerebral, mas essa suposição revela-se incoerente.
- 10. A metafísica dos estados mentais
- A filosofia do mental toma emprestado seu conceito de estado da metafísica das ciências naturais, na qual um estado corresponde à condição interna de uma coisa em determinado instante, independentemente do estado do mundo exterior e de seu passado; para se conformarem a essa metafísica, os estados mentais devem ser redefinidos como «estados restritos» de uma psicologia solipsista.
- 11. O desprendimento do espírito
- Segundo seus defensores, a psicologia mentalista seria legitimamente solipsista, pois a explicação psicológica deveria separar o espírito do mundo e considerar o conteúdo mental do sujeito, e não o estado real do mundo; a psicologia do espírito-computador realiza essa separação ao definir o pensamento como cálculo formal, mas essa defesa do solipsismo metodológico negligencia o problema das aparências, uma vez que o sujeito cartesiano continua confrontado com aparências mesmo depois de suspender seu juízo.
- 12. As condições históricas do sentido
- 12.1. A noção de um estado mental separado de qualquer contexto é incompreensível, pois os pensamentos adquirem seu conteúdo no contexto de uma tradição histórica de instituições e costumes.
- 12.2. O holismo antropológico do mental não contradiz o «princípio de superveniência», segundo o qual não pode haver diferença mental sem alguma diferença física, pois a própria noção de superveniência implica reconhecer uma diferença de ordem entre os estados estabelecidos por uma descrição física e o sentido restituído por uma descrição intencional.
- 12.3. Em que condições duas pessoas pensam a mesma coisa e em que condições pensam coisas diferentes? O atomismo do mental propõe identificar os pensamentos por individuação, supondo que possam ser contados um a um como imagens físicas, enquanto o holismo do mental precisa explicar como identificar pensamentos sem individuá-los, oferecendo um critério de identidade para os pensamentos.
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