User Tools

Site Tools


cumont:franz-cumont-lux-perpetua

PRÁTICAS FUNERÁRIAS E CONCEPÇÕES DO ALÉM NO MUNDO ANTIGO

FCLP

  • Mentalidade primitiva e necessidade de sustento dos mortos
    • Crença em que os mortos permanecem submetidos às necessidades dos vivos, como fome e sede, em sua nova habitação.
    • Prática de depositar alimentos e bebidas no túmulo, complementada por sacrifícios periódicos para revitalizar os Mânes.
    • Convicção de que oferendas queimadas ou libações vertidas são consumidas pelo destinatário defunto, utilizando-se por vezes lápides perfuradas e tubos para conduzir líquidos aos restos mortais.
    • Críticas céticas a essas práticas, contrastando com a persistência evidenciada em inscrições que convidam o viajante a libar vinho.
  • Significado e evolução dos sacrifícios de sangue
    • Aversão primordial dos mortos, especialmente por água, para saciar sede inextinguível e revigorar humores perdidos.
    • Cobiça especial das almas pelo sangue quente das vítimas, visto como sede da vida e veículo da alma.
    • Origem em sacrifícios humanos para fornecer companhia (cônjuge, servos) ou montaria ao falecido na existência ultraterrena.
    • Ligações com a vingança (vendetta), onde o sangue do assassino podia apaziguar a vítima.
    • Substituição gradual, com o apuro dos costumes, por ritos menos bárbaros: oferenda de cabelos (como concentrado de força vital), combates de gladiadores (inicialmente lutas mortais para derramar sangue) e, finalmente, sacrifícios de animais de pelagem negra.
    • Persistência teimosa da crença na necessidade de sangue fresco para os mortos, perpetuada em regiões como Síria e Armênia mesmo após a cristianização, e no ritual islâmico de imolar ovelhas sobre sepulturas recentes.
  • Libações e oferendas alimentares sólidas
    • Libações tradicionais de vinho, leite, mel e azeite, com múltiplas camadas de significado.
    • Vinho interpretado como substituto do sangue, mas também dotado de virtude própria como licor de imortalidade nos mistérios dionisíacos.
    • Mellikraton (leite e mel) visto como alimento divino ou próprio de recém-nascidos, simbolizando renascimento para vida eterna; mel associado a propriedades conservantes e apaziguadoras.
    • Azeite, de planta perene, símbolo de sobrevivência da alma.
    • Base fundamental dessas oferendas remonta a época em que constituíam alimentos essenciais das populações; intenção primeira de sustentar os mortos com a mesma dieta dos vivos.
    • Uso mágico desses líquidos em necromancia para excitar e evocar os espíritos de seu torpor.
    • Deposição de alimentos sólidos (ovos, pão, legumes, farinha, sal) sobre o túmulo para garantir sustento, frequentemente pilhados por mendigos.
  • Banquetes funerários e refeições periódicas
    • Instituição que afirma com tenacidade as ideias antigas sobre a vida no além-túmulo, com raízes na religião ariana.
    • Primeira refeição (silicernium romano) reunindo a família após o funeral, com o defunto considerado participante ou anfitrião.
    • Tabus durante o banquete: evitar palavras ofensivas, elogiar o morto, comer em silêncio por precaução, não recolher migalhas caídas (pertencentes aos espíritos).
    • Repetição de banquetes em datas determinadas (ex: cena novemdialis romana, 3º, 7º e 40º dias na Grécia), com origens na pré-história indo-europeia.
    • Explicações físicas materiais: morte como processo gradual ligado aos estágios de decomposição (3º, 9º, 40º dias), exigindo auxílio ao defunto.
    • Explicações posteriores mais espirituais: alma permanecendo três dias junto ao corpo, iniciando então viagem perigosa até o 40º dia.
    • Cristianização e reinterpretação dessas datas, com a crença popular mantendo a ideia da visita da alma à casa familiar.
    • Banquetes em aniversários de nascimento e morte, e em dias festivos fixos (ex: Rosalia, Violaria).
    • Disposições testamentárias e fundações para assegurar perpetuidade desses banquetes, com construção de salas de jantar (triclinia) e cozinhas nos monumentos funerários.
    • Presença de assentos ou leitos reservados aos convivas, incluindo um lugar vazio para o defunto.
    • Visitas e permanência longa no hipogeu como companhia consoladora para o morto, ideia criticada por filósofos como Marco Aurélio.
    • Convicção de participação direta do espírito do morto na alegria e na embriaguez do banquete, confundindo-se com as orgias báquicas onde o vinho conferia imortalidade.
    • Universalidade e persistência teimosa dessas práticas no Império, continuando na era cristã apesar das condenações clericais (ex: Santo Agostinho).
  • Uso de plantas, flores e jardins funerários
    • Associação entre sono e morte, expressa no costume de depositar o corpo sobre uma liteira de folhagem (de oliveira, louro, hera) ou de flores, imitando o leito dos vivos e simbolizando perenidade.
    • Crença em que o espírito do morto não está confinado rigidamente, podendo circular próximo ao túmulo.
    • Desenvolvimento de jardins funerários (cépotafos), de origem helenística/oriental, para recrear as sombras com beleza e perfume.
    • Função utilitária desses jardins: produção de frutos, vinho e flores para as cerimônias, assegurando a manutenção do culto.
    • Cépotafos como figura terrestre do Hades ou dos Campos Elísios, combinando preocupação religiosa e prática.
    • Prática de juncar o túmulo com flores frescas, tecer grinaldas e coroas, visando agradar, honrar e revitalizar o morto.
    • Preferência por flores vermelhas (violetas, rosas), imitando o sangue e revigorando a sombra, ligadas a mitos de ressurreição (Attis, Adônis, Dioniso).
    • Ritos florais perdendo seu caráter de auxílio vital e tornando-se homenagem, sobrevivendo no cristianismo como expressão de piedade e consolo para os vivos.
  • Oferecimento de aromas e perfumes
    • Empréstimo romano ao Oriente helenístico, com uso imoderado de perfumes difundindo-se após Alexandre.
    • Uso de incenso e outras essências aromáticas no culto funerário, inicialmente em funerais fastuosos de personagens ilustres.
    • Profusão de gastos com aromas em cerimônias fúnebres por todo o Império.
    • Fumaça aromática interpretada como alimento sutil para os deuses e espíritos, facilitando sua comunicação com os vivos.
    • Cristianização do incenso como forma de honra puramente profana, depois integrada no ritual fúnebre cristão como procissão triunfal do eleito.
  • Iluminação das sepulturas: lampiões, círios e simbolismo da luz
    • Costume de depositar lâmpadas no túmulo para fornecer luz indispensável aos espíritos na escuridão; existência de pseudolâmpadas simbólicas.
    • Renovação periódica da chama no exterior do túmulo, com concepção material de prover claridade ao morto, persistindo no folclore.
    • Significados místicos e simbólicos emprestados do Oriente, especialmente do Egito: luz como proteção contra demônios e espíritos maléficos.
    • Simbolismo escatológico: luz da aurora como despertador dos mortos; chama assegurando sobrevivência e imortalidade divina do espírito; iluminação como sabedoria salvífica nos mistérios.
    • Persistência da crença popular na relação luz-vida até a época cristã, condenada pelas autoridades eclesiásticas como paganismo, mas depois tolerada e reinterpretada.
    • Lâmpada funerária tornando-se símbolo da luz eterna onde revivem as almas bem-aventuradas; tochas em cortejos simbolizando alegria por um nascimento glorioso.
    • Associação ritual entre iluminação (lychnaspia) e oferenda de flores (anthobolia), ambas com função revigorante.
    • Uso de lâmpadas sepulcrais para queimar incenso, combinando luz, flores e fumigações como formas de homenagem.
    • Crenças populares arcaicas sobre a necessidade de luz para o morto nunca eliminadas, transmitindo-se através dos séculos.
  • Concepção arcaica do morto como ser sensível e social no túmulo
    • Crença persistente, mesmo após difusão de doutrinas filosóficas e teológicas, de que um ser misterioso vive no túmulo, mantendo necessidades e sentimentos humanos.
    • Morto como ser que come, bebe, dorme, circula, aprecia comodidades, guarda benevolência ou hostilidade, e permanece sociável, desejando companhia.
    • Conexão não rompida com os vivos; desaparecidos misturam-se à vida familiar, comunicam-se, são visitados.
    • Contraste com modernidade: túmulos romanos situados junto a estradas movimentadas para que o morto não fosse esquecido e interagisse com passantes, conforme atestam epígrafes dialogais.
    • Inscrições onde o morto fala, consola, agradece, saúda, dialoga com os vivos.
    • Sobrevivência de muitos usos inspirados nessas crenças (oferendas, banquetes, cuidados com o túmulo) como força da tradição, mesmo sem convicção na sensibilidade do cadáver.
    • Gestos rituais tornados expressão de sentimentos íntimos e memória, mas mantendo eco da crença antiga na comunicação constante entre vivos e mortos.
  • Expansão da ideia de sobrevivência para os Infernos subterrâneos
    • Alargamento da crença da vida no túmulo para uma existência comum dos mortos no seio da terra, apesar da incompatibilidade lógica.
    • Sepultura vista como lugar de passagem, antessala da residência definitiva no Hades; oferendas no túmulo magicamente reconfortam as sombras além do Estige.
    • Comunicação do mundo subterrâneo com os vivos através de orifícios naturais (fontes termais, grutas mefíticas, crateras vulcânicas), chamados Ploutôneia ou Charôneia.
    • Condição inicial dos mortos no além como triste e anêmica, conforme Homero e tradições semíticas (Aralou, Sheol).
    • Concepção romana primitiva do Orcus como vasta caverna escura, com Mânes tendo vida gregária e anônima.
    • Influência etrusca e, sobretudo, helênica na transformação da escatologia romana.
    • Etruscos: combinação de crença no túmulo como morada e em Infernos com demônios punitivos; livros Acheruntici; combates de gladiadores como jogos fúnebres revigorantes.
    • Sincretismo etrusco: arte funerária misturando mitos gregos (sacrifício de prisioneiros troianos, Polixena, Circe, evocação por Tirésias) com demônios alados etruscos.
    • Recepção romana de mitos e doutrinas da Magna Grécia (influência pitagórica, órfica), via Cumas e Tarento, enriquecendo a mitologia infernal.
  • Desenvolvimento da crença grega em julgamento e retribuição póstuma
    • Formação gradual de uma concepção tradicional do Hades, com topografia fixa (rios Estige, Aqueronte, Cocito, Piriflegetonte; barqueiro Caronte; cão Cérbero).
    • Inicialmente, nenhuma distinção por mérito, apenas existência crepuscular comum.
    • Exceção homérica: suplícios eternos de Titio, Tântalo e Sísifo por crimes contra os deuses, conservando vitalidade para sofrer.
    • Ampliação para um grupo tradicional de grandes criminosos legendários (Íxion, Danaides, etc.).
    • Transformação fundamental operada pelo Orfismo: introdução de julgamento póstumo e retribuição moral generalizada.
    • Criação de tribunal infernal com juízes (Minos, Éaco, Radamanto) que distinguem inocentes e culpados.
    • Separação no além entre Campos Elísios (para os justos, transferidos para o subterrâneo) e Tártaro (para os ímpios).
    • Crença na reencarnação (metempsicose) para almas passíveis de emenda; pena perpétua apenas para almas perversas e incorrigíveis.
    • Visão da vida no além como prolongamento da terrestre, perpetuando ocupações, hierarquias sociais e objetos familiares.
    • Antropomorfização persistente dos mortos no reino de Plutão, apesar da inconsistência com sua natureza de sombras impalpáveis.
    • Concepção grega popularizada como um Estado administrado com justiça rigorosa, sob soberanos (Plutão, Prosérpina), leis e executores.
  • Recepção e trivialização literária da mitologia infernal em Roma
    • Difusão e banalização das fábulas infernais através da literatura latina (épica, elegíaca, lírica).
    • Papel central da Eneida de Virgílio (livro VI), combinando descrição mitológica do Hades com doutrina filosófico-teológica pitagórica (metempsicose, purificação).
    • Imitação e paródia do modelo virgiliano por poetas posteriores (Estácio, Silio Itálico, Claudiano).
    • Uso convencional de motivos infernais na poesia elegíaca (consolações) e em epigramas fúnebres, como ornamento estilístico esvaziado de crença religiosa.
    • Ausência quase total desses motivos nas inúmeras epígrafes em prosa, comprovando seu caráter de fórmula literária.
    • Raridade de representações de cenas dos Infernos na escultura funerária romana; quando presentes, interpretadas como alegorias.
    • Satirização e descrédito completo nos meios cultos, exemplificado por Luciano de Samósata.
    • Dissociação entre a descrença na mitologia helênica pintoresca e a persistente fé popular em um reino subterrâneo dos mortos governado por deuses ctônicos.
    • Evidências múltiplas da crença arraigada em um além subterrâneo: maldições em inscrições, papiros mágicos, narrativas de aparições oníricas.
    • Sobrevivência, sob verniz helenístico, de concepções arcaicas em amplas camadas do Império, inclusive entre a plebe de Roma e escravos orientais.
    • Corrente subterrânea de crenças ancestrais ligando a pré-história ao folclore moderno, ressurgindo no crepúsculo do paganismo e mantendo-se em doutrinas misteriosas e neoplatônicas.
cumont/franz-cumont-lux-perpetua.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki