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5 Moral impossível

PARFAIT, Nicole. Cioran ou le défi de l’être. Paris: Desjonquères, 2001.

1. Criar a si mesmo não se limita a atribuir-se valores para a vida prática, pois o pensador da existência, ligado a um dever de verdade, deve justificá-los a partir de seu fundamento ontológico, um dualismo que faz da consciência instrumento de perdição e do apego à vida a essência da existência, e, apesar da influência dos moralistas franceses dos séculos XVII e XVIII, do tom pessimista e do estilo aforístico, Cioran não é antes de tudo um moralista.

UMA ESTÉTICA SOB AS APARÊNCIAS DE UMA MORAL

1. Ao contrário das fórmulas dos moralistas, frutos acabados de um raciocínio com valor didático, os aforismos de Cioran nascem de uma busca puramente estética e intuitiva, exprimem uma generalidade instantânea que não exclui seu contrário, já que tudo é dialético e ambivalente, e valem pela perfeição da expressão, como traço de espírito e verdade parcial, a única acessível num mundo sem transcendência.

2. O tom da obra não seria pessimista, mas tônico, ao contrário do pessimismo dos moralistas, marcado pelo ressentimento das feridas infligidas pela brutalidade do mundo, cuja vingança, como em La Rochefoucauld ou Chamfort, se converte em doutrina do pior, crueldade dos vencidos que não perdoam à vida ter frustrado sua expectativa.

3. A grande fraqueza dos moralistas está em observar o mundo e os homens com tanta atenção que os transformam em objetos, matando a espontaneidade dos sentimentos, que, reificados, parecem fingidos, de modo que seu olhar introduz dualidade em tudo, dissociando-os de suas próprias paixões e tornando os outros estranhos.

4. Reduzindo tudo ao estado de objeto, o moralista acaba por destruir pouco a pouco a vida em si mesmo.

5. Longe de ser desafio ou terapêutica, a escrita do moralista participa de um processo de aniquilação mais nefasto para ele do que para os julgados, convertendo-se em escape para o ressentimento, pois ele não tolera os artifícios que os homens integram naturalmente ao seu ser por serem necessários à vida e tão reais quanto ela, de modo que, crendo numa natureza humana pura, declara guerra à própria vida e só consegue justificar sua derrota diante dela.

UM AMORALISMO DE PRINCÍPIO: A IRREDUTIBILIDADE DO MAL

1. Extraindo sua matéria apenas do próprio mal-estar existencial e sem pretender enunciar verdades incontestáveis, Cioran declara-se estranho a toda empresa moral, indiferente às consequências de seus pensamentos e alheio a qualquer categoria moral, o que veda por princípio também todo juízo dessa ordem sobre seus próprios atos e pensamentos.

2. Negando toda transcendência, Cioran não pode dispensar uma reflexão sobre as condições de uma vida prática adequada à existência, mas, como Heidegger, não chega a uma moral, já que a natureza dupla e dialética do homem impede fixar o bem e o mal, limitando-se a revelar as consequências dessa dualidade num mundo fundamentalmente mau, dualismo ontológico duplicado por um maniqueísmo de tipo cátaro em que a permanência do mal veda toda esperança de salvação ou de melhora.

3. O mal onipresente manifesta-se sob duas formas fundamentais, o mal objetivo pelo qual o homem não é responsável, o sofrimento, e o mal que, segundo as morais cristãs, dependeria dele, a vontade de onipotência, que é no entanto incurável.

4. O sofrimento é tanto mais monstruoso por atingir igualmente os bons, injustiça que basta para rejeitar as religiões que o veem como prova ou expiação, e o cristianismo erra ao fazer dele caminho de salvação pelo amor, pois sua natureza satânica afasta o indivíduo do núcleo unificador da vida e o arrasta ao inferno, de modo que uma religião nascida da comiseração pela dor, e não do amor à vida, constitui uma imensa regressão que afunda a humanidade em lamentos.

A POSITIVIDADE DIALÉTICA DO MAL

1. A realidade do sofrimento impede crer em Deus e anula os valores cristãos, que visam matar a vida condenando o prazer, quando desejos insatisfeitos são prazeres perdidos e os estragos da dor tida como redentora são piores que os dos excessos e orgias, já que tudo afundará no nada, razão pela qual se deve ignorar a moral, cuja única função é reprimir a vida.

2. O mal habita também o homem, maldito desde o início, sob a forma da vontade de superação e de poder nascida da consciência, que lança indivíduos e povos numa história de sofrimentos, massacres e catástrofes, mal irremediável por decorrer da dualidade humana, e crer superá-lo, como Nietzsche, é absurdo, pois o super-homem revelaria defeitos ainda piores.

3. Sendo insuperáveis o sofrimento e a malignidade humana, pensá-los conduz apenas ao fatalismo ou ao pessimismo, e só escapam ao mal os idiotas, os inocentes e os primitivos, que, preservados da consciência, vivem na unidade harmoniosa com o mundo, único bem verdadeiro, talvez sem sequer saber que sofrem, como sugere a estranha aspiração às noites do idiota e a seus sofrimentos minerais, bem inacessível à vontade e à virtude que torna caduca toda moral.

4. A consciência, fonte do mal, tem por sua natureza dialética um papel positivo, pois, exacerbada pelo sofrimento e interiorizada ao extremo, torna o mundo exterior e transcendente, libertando da crença em finalidades sustentadas por ilusões como dogmas e ideologias e permitindo descobrir na natureza e nas formas primitivas da vida a esplendidez dos relâmpagos e a delicadeza das harmonias, enquanto para os indiferentes a vida é uma soma de ocasiões perdidas.

5. A vontade de poder alimentada pela consciência pode também ser positiva, pois, vinda do instinto de conservação, permite agir e viver plenamente no mundo, já que a consciência, resultado de uma deficiência vital, impede uns de aderir ao mundo e intensifica em outros os instintos vitais, ambivalência que veda determinar em absoluto o bem e o mal, o permitido e o proibido, pois todo ganho é perda e toda perda é ganho.

SUPERAR A MORAL PARA VIVER PLENAMENTE

1. A impossibilidade de determinar virtudes e crimes não leva à indiferença, pois existe um bem que cada um possui, a própria vida, relativo por ser também lugar de sofrimento, que cabe preservar ou, se pesar demais, abandonar pelo suicídio, e, como a ausência de decisão vale assentimento, impõe-se o dever de satisfazer sem restrição as exigências da vida, de modo que viver plenamente é a única verdadeira injunção.

2. Para segui-la é preciso libertar-se dos valores cristãos que reprimem a vida terrestre em nome de uma vida celeste inventada e, como pregava Nietzsche, superar a moral para viver além do bem e do mal, onde se abre a existência verdadeira e a alma livre pode ousar tudo, do vulgar ao sublime, sem remorso, cumprindo com espontaneidade absoluta as exigências de sua natureza única, num eco distante de Max Stirner.

CRÍTICA DOS VALORES CRISTÃOS

1. A obrigação de verdade que liga o pensador aos leitores conduz a uma destruição dos valores cristãos, sobretudo dos tidos como mais positivos e por isso mais perigosos, condição necessária para superar a moral.

2. As formas do amor cristão são o primeiro alvo, pois o altruísmo que as sustenta é o meio mais perverso de levar o homem a renunciar a si e à vida, e a compaixão, a piedade e a comiseração, tão ineficazes quanto insultantes, revelam por sua tibieza o desejo de manter distância do infeliz, poupar-se da culpa e fazer dele um devedor de uma bondade depravada, quando o verdadeiro amor levaria ao grito ou à inércia diante das desgraças irremediáveis.

3. O perdão é uma bondade ainda mais desviada, pois o rancor e a vingança pertencem ao fundo primitivo do homem, e reprimi-los instila ódio aos próprios escrúpulos, ao perdão e a si mesmo, de modo que a vingança, apesar de seus inconvenientes, é mais sadia que a magnanimidade, como intuiu a mitologia ao fazer as Fúrias anteriores aos deuses, enquanto o perdão é artifício dos fracos para mascarar a covardia, que fermenta ressentimento e ódio ao mundo e só se resolve tornando-se bom, isto é, sufocando o melhor de si pela anemia do corpo e a amnésia do espírito.

4. A humildade, virtude essencial dos cristãos, é o ponto extremo da decadência humana pelo desprezo de si e pela negligência do mundo em favor de Deus, repugnante por gerar culpa e ressentimento e sublime apenas no esquecimento de si da santidade, sublime suspeito por sua volúpia de aniquilar-se, e o desapego que a acompanha produz apenas a secura do coração, cuja experiência revelou a Cioran a verdadeira natureza do desespero no nada perfeito de todo o seu ser, sentimento do nada que é o contrário da humildade.

5. Sendo o nada a verdade do desapego e da humildade, valorizar a procriação como fim do amor é uma mentira que oculta o prazer e a vida, crime inexpiável e flagelo na origem dos desastres da humanidade, de modo que quem gastou seus apetites e se aproxima do desapego não quer mais perpetuar-se, monstro que já não engendra, embora a abstinência em busca de pureza seja igualmente condenável por reprimir o desejo e conduzir os puros ao fanatismo.

6. A ideia de pecado infestou as consciências ocidentais, até as descrentes, com uma culpa difusa por não terem sido transfiguradas pelo sofrimento, quando a verdadeira falta é a da consciência prometeica que cometeu um crime contra a vida e envenenou a existência, cujo preço é a má consciência, embora a ideia de pecado, como a de suicídio, tenha sua utilidade dialética ao aguçar o instinto vital e o prazer da transgressão, pois sem pecados a vida murcha.

7. Se nada há a salvar na moral cristã, poder-se-ia esperar que os valores humanistas, elaborados pelos homens para a harmonia social sem transcendência, fossem mais positivos, o que não é o caso.

CRÍTICA DOS VALORES HUMANISTAS

1. Toda moral é um perigo para a bondade, e a condenação inclui a moral humanista e laica, porque liberdade, igualdade e fraternidade derivam ao mesmo tempo da herança judaico-cristã e da ideologia do progresso infinito lançada por Descartes e generalizada pelas Luzes, de modo que nenhum valor dela decorrente encontra graça.

2. O trabalho, instrumento do progresso e da libertação para seus defensores, é um dos fatores mais perniciosos de degradação do homem, pois sua valorização transformou a maldição bíblica em volúpia, e é escandaloso tomá-lo como fim em si, encontrar prazer em obras condenadas a desaparecer e pretender realizar-se por ele, quando na verdade desumaniza os seres.

3. A ideia ecoa a análise heideggeriana da preocupação como existência inautêntica, pois o trabalho, que deveria ser transmutação interior, tornou-se ocupação impessoal e exterior para fugir de si, embrutecimento e frenesi que revela uma inclinação ao mal, e chega a antecipar A Questão da Técnica ao afirmar, já em 1932, que o trabalho transformou o sujeito em objeto e o homem em escravo impotente da realidade exterior.

4. O trabalho tem, porém, utilidade dialética quando serve à vontade de ser o que se quer ser, como o estilo é para Cioran trabalho da escrita, pois, não havendo justificação em si, só a paixão e o objetivo determinam o valor do resultado, e o próprio prazer que ele encontra em trabalhar revela que só o trabalho desvia o espírito da morte e da caducidade, condição para qualquer projeto, e possui por seus milagres um caráter quase divino.

5. O espírito de seriedade que preside ao trabalho tem a mesma ambivalência, sendo pecado irremissível quando é seu próprio fim e manifesta adesão aos valores correntes, e, como nem o ceticismo nem a poesia bastam contra suas formas proteiformes, só o culto atento da futilidade pode libertar dele.

6. A tolerância, aparente conquista após séculos de guerras, é sinal certo de decadência, pois instituições fundadas em instintos vigorosos exterminam adversários, e, embora seja o bem supremo da terra por evitar matanças inúteis, é também um mal, resultado e instrumento da deterioração dos instintos vitais, já que as doutrinas só se toleram quando nenhuma tem mais força para se afirmar, prefiguração vaga de um paraíso terrestre num mundo regido pela intolerância.

7. Mais condenável que a tolerância ilusória é a fé em valores absolutos como o Bem, o Verdadeiro e o Belo, ficções perigosas no cerne das ideologias que precipitaram o declínio da história, suscitaram guerras e sistemas que pretendem santificar seu curso aberrante, enquanto na aflição só os instintos brutos e os apetites fundamentais, como a glória ou a vingança, e o apego aos bens deste mundo socorrem realmente o homem, e, se ele só pode viver plenamente no instante, a própria categoria de valor fica abolida.

POR UMA MORAL DE USO PESSOAL

1. Apesar da inclinação natural ao mal, certas disposições humanas podem ser positivas, mas só as distingue quem superou a moral e age espontaneamente segundo sua própria lei, região sem ressentimento onde se encontra uma generosidade inata, contrária à moral mecânica que encobre a nulidade dos que fingem renunciar a um mundo cujos tesouros nunca possuíram, pois só os verdadeiros generosos podem sacrificar-se.

2. Ao contrário da caridade, da piedade e da comiseração, que implicam cálculo e distância, essa generosidade natural supõe a faculdade de esquecer as experiências desagradáveis, condição da espontaneidade e do amor desinteressado, já que memória e conhecimento arruínam o amor ao revelar em nós e, por semelhança, em todos os homens a depravação e o vício.

3. Condenar o vício é mesquinharia da moral, pois ele é o esforço trágico da carne para escapar à sua fatalidade, um triunfo do individual quando não é aprendido nem vivido de modo brutal e vulgar, necessário para atingir certas alturas da vida íntima e unir espiritual e carnal além do bem e do mal, o que explica a condenação do amor carnal voltado à procriação e sua defesa como meio de escapar à consciência e superar a animalidade.

4. A misoginia de Cioran deve ser matizada, pois a mulher só é instrumento do mal enquanto consente na procriação, e, como parceira no amor e no prazer, torna-se objeto de culto, o outro no mesmo, a vida que inibe a consciência, num panegírico do prazer e de Eros como divindade que, no entanto, só a justifica como instrumento de salvação do homem desesperado.

5. A ironia trágica nascida do desespero, distinta da zombaria que afeta superioridade, é outro meio de independência do espírito, que preserva das ideias correntes e desmascara as ilusões de felicidade e as pretensões do saber, mas cujo orgulho desmedido a faz desdenhar os gestos espontâneos, invejar os simples e envenenar as relações, de modo que o desesperado, depois de perder o mundo, perde a si mesmo, excluído para sempre do absoluto da beleza.

6. O orgulho, próximo da ironia na aparência mas diferente em natureza e finalidade, é o único sentimento capaz de conferir dignidade num mundo sem sentido, eco do amor da glória com que La Rochefoucauld recomenda fazer boa figura, pois, ao contrário da vaidade e da ambição, refere-se não ao mundo mas a si mesmo, instrumento do desafio, motor dos atos apesar da consciência da impotência e fundamento da individualidade verdadeira que leva a viver, superar-se e manter a cabeça erguida.

7. A futilidade, jamais criticada, é a melhor salvaguarda contra o espírito de seriedade, não a futilidade superficial do dandismo poético, mas a futilidade essencial que exibe diante do mundo uma exterioridade orgulhosa, ideal talvez inalcançável que obriga o pensador a vigiar-se sem cessar contra a tentação de dar valor às coisas e a desprender-se de tudo para alcançar, como um estoico que trocasse a meditação pela futilidade, o estatuto metafísico de estrangeiro ao século.

ENTRE INGENUIDADE E HEROÍSMO: A VIA ESTREITA DO CETICISMO

1. Para arrancar-se a tudo o que prende, abolir a seriedade e tornar-se metafisicamente estrangeiro, Cioran praticou toda a vida o ceticismo, pouco interessado na Academia e de relação cambiante com o pirronismo, mas sempre fiel a seu ensinamento moral.

2. O ceticismo é nele inato, favorecido por ascendência, compleição, costumes e gostos, e os impulsos ao absoluto são falhas passageiras de lucidez, mas o estudante de filosofia reconhece nele o estágio supremo do pensamento, alternativa, com a mística, ao desespero diante da impossibilidade do conhecimento, cultivado com estilo sobretudo pelos Antigos, doçura do declínio que marca tanto sua concepção da história e da Grécia, mais próxima de Hölderlin que de Winckelmann, quanto seu próprio percurso.

3. Na aurora das civilizações e da existência abre-se o tempo dos desafios em que se recusa ser si mesmo, tempo dos ciclopes e de Micenas, do heroísmo e do sangue, do pathos e do lirismo, primavera da juventude que anseia pelas mutações da maturidade.

4. Nos Cumes do Desespero distingue duas atitudes fundamentais, a ingenuidade e o heroísmo, entre as quais é preciso escolher para não afundar no embotamento mental, e, perdida irremediavelmente a ingenuidade com a inocência da infância, resta apenas o heroísmo, maldição e privilégio dos que o desespero priva para sempre da felicidade.

5. O desespero, vendo a morte como alívio, facilita o heroísmo, pois faz falhar a vida mas não a morte, e o sacrifício transfigura a morte e salva a vida inteira, já que dar a vida por um ideal grandioso confere grandeza a um fim ameaçado pela banalidade, de modo que só o desaparecimento dá profundidade aos atos e o sacrifício, contestação sublime da impureza da vida, é o ato duplamente supremo, o último e o mais alto.

6. Essa teoria do sacrifício inscreve-se numa tradição reacionária, sobretudo de Joseph de Maistre, depois revolucionária, que floresce nos fanatismos europeus do início do século até o nazismo, e faz da vontade de renunciar, não para a ataraxia mas como transbordamento de paixão, o motor de toda criação, pois só a paixão anula a negatividade da consciência, destruir tudo é criar tudo e não se prender a nada permite abraçar o Ser e às vezes crer-se Deus.

7. Viver como se fosse Deus segundo a exortação de Nietzsche, entregar-se ao demoníaco poético e ao espírito profético, viver como um mito e dar-se inteiro à ação que preserva da dúvida exaltam o jovem romeno do início dos anos trinta, para quem a renúncia que não termina em sacrifício mas em amargura e ceticismo é uma experiência falhada, sendo preciso jogar Nietzsche contra Pascal e nutrir-se de ilusões para unir-se a um futuro imediato.

8. As ilusões dissipam-se, assim como o desejo frenético de agir que, alimentando o fanatismo, transforma a história num cortejo de horrores, enquanto a indiferença ataráxica também se revela negação da vida ao banir suas paixões.

9. Entre ambos, o ceticismo é a elegância da ansiedade de quem, dividido entre o desejo de viver e a consciência da impotência, sabe que a sabedoria está na abstenção, que preserva os outros de nossas loucuras e revela as deles, encontrando o heroísmo e a volúpia supremos em vencer-se sem deixar de ser si mesmo, sorriso acima das palavras que mostra que também elas só abrigam o nada, razão pela qual o ceticismo pareceu o melhor meio contra a seriedade.

10. Isso era presumir demais da superioridade dos céticos, pois o ceticismo molda-se ao temperamento, aos gostos e aos delírios de quem o pratica e infiltra-se em tudo como obsessão dentro da obsessão, e, se nos livros romenos Cioran se tornava a fúria que combatia, depois agudiza o olhar interior até desagregar o Ser e secar as palavras, limite em que restam apenas o êxtase aquém da linguagem ou o nada, e, sendo a plenitude extática alheia à vontade e o vazio extático anúncio da loucura, sobra a traição suprema da fuga pelo suicídio.

11. Desiludido, Cioran afirma em A Tentação de Existir que o ceticismo só tem futuro entre os padres, corrompidos pela malignidade humana nos confessionários, e que o pensador obrigado a dizer a verdade deve preservar-se desse ceticismo reificante e reencontrar a vida, sob pena de ver as palavras tornarem-se objetos mortos de chumbo e de enfrentar o silêncio do próprio espírito, morte intelectual da qual só a poesia, cujas ficções dispensam a lógica, pode resgatá-lo, devolvendo às palavras o frêmito da vida e reabrindo, ainda que provisoriamente, o caminho para si e para a salvação.

12. A poesia não basta ao pensador em busca de verdade, pois rompe deliberadamente os laços entre objetos e símbolos e faz do poeta um novo Prometeu que ergue um mundo novo com as palavras do antigo, e o pensador, entre demiurgia e astenia, deve cultivar o ceticismo até duvidar da dúvida, reencontrando a paixão que sustenta a vida e a escrita e chegando à criação pura de si por si, como confirma a confissão tardia do efeito apaziguador da dúvida, praticada com delícia, e a predileção por Pascal, cético que conserva a fé com a força do desespero.

13. Cético e entusiasmado ao mesmo tempo, Cioran reconhece como seu mérito ter dado expressão a uma forma inusitada de ceticismo, o ceticismo violento.

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