User Tools

Site Tools


brague:1999:start

Sabedoria do mundo

BRAGUE, Rémi. La sagesse du monde: Histoire de l'expérience humaine du cosmos. Paris: Fayard, 1999.

  • Prefácio
  • Introdução
    • Cosmografia e cosmogonia
    • Cosmologia

I. O CENÁRIO

  • Capítulo I - Pré-história: uma sabedoria pré-cósmica
    • Uma palavra ausente
    • Uma ordem cósmica?
  • Capítulo II - O nascimento grego do cosmos
    • Trajetória geral
    • O nome próprio
    • A decisão de Heráclito
    • Os socráticos: do mundo ao céu
    • O mundo como escolha

II. QUATRO MODELOS

  • Capítulo III - Revolução socrática, restauração platônica
    • A revolução socrática
    • O retorno do sonho: o “Timeu”
  • Capítulo IV - A outra Grécia: os atomistas
    • Demócrito
    • O epicurismo
    • Lucrécio
  • Capítulo V - O outro da Grécia: as Escrituras
    • Antigo Testamento
    • Novo Testamento
    • O Alcorão
  • Capítulo VI - O outro do outro: a gnose
    • O último modelo
    • Anticosmismo
    • Um mundo desvalorizado
    • O terror cósmico
    • A alma no mundo

III. O MODELO MEDIEVAL

  • Capítulo VII - Os modelos marginais
    • Impertinência
    • Um socratismo abraâmico
    • Os dois modelos vencidos e seus retornos
  • Capítulo VIII - A visão padrão do mundo
    • Um terreno comum
    • Um mundo estratificado
    • O homem
    • Prefiguração física da antropologia
    • Cosmologia e dignidade humana
  • Capítulo IX - Um cosmos ético
    • Um mundo feliz
    • O mal como exceção
    • O baixo
    • O chamado
    • A ética no cosmológico
  • Capítulo X - Uma ética cosmológica
    • O mundo como objeto de contemplação
    • Um texto de Sêneca
    • Primado do céu
    • A imitação do mundo
    • Os movimentos celestes como objeto central
    • O animal desobediente
  • Capítulo XI - O excesso abraâmico
    • Nova proximidade
    • Elevação teológica
    • Historicização da cosmologia
    • A contemplação como exercício teológico
    • Consequências cosmológicas da teologia

IV. O NOVO MUNDO

  • Capítulo XII - O fim de um mundo
    • A nova cosmografia
    • Morte do cosmos
    • Morte do Céu?
    • Indiferença
    • O mal sem apelação
    • Uma moral extramoral
  • Capítulo XIII - A imitação impossível
    • Imoralidade
    • A violência natural
    • A técnica como moral
    • A metaforização das referências cosmológicas
    • O retorno dos pensamentos alternativos
  • Capítulo XIV - O mundo perdido
    • Exigências cosmológicas da ética
    • O mundo humanizado
    • O mundo inteligível
    • O conceito fenomenológico de mundo
    • O mundo subjetivo

Introdução

1. A indiferença de Sherlock Holmes quanto a saber se a Terra gira em torno do Sol, por julgar esse conhecimento inútil ao seu trabalho, levanta a questão de se importa realmente saber como o mundo é feito ou se não valeria mais saber o que fazemos na terra.

2. A pergunta metafísica do homem comum sobre o que fazemos na terra, tomada a sério e ao pé da letra, implica que a vida humana se define desde o início a partir de um fato físico, como presença localizada num ponto preciso de um todo cósmico.

3. A cosmologia da Antiguidade tardia e de seus prolongamentos medievais nas três tradições de pensamento circum-mediterrâneas merece estudo porque nela o conhecimento do mundo físico era decisivo para responder à pergunta sobre o que fazemos na terra, questão que remete em última instância à natureza do homem, inseparável de uma ética da excelência.

4. Durante um longo período do pensamento antigo e medieval, uma tradição dominante concebeu a atitude que permite ao homem alcançar a plenitude de sua humanidade como ligada à cosmologia, constituindo uma sabedoria do mundo que forma uma totalidade fechada, com começo e fim, diante da qual se situa a pós-história em que vivemos.

Cosmografia e cosmogonia

1. O mundo deve ser tomado no sentido de objeto de uma cosmologia, e não nos sentidos correntes de terra habitada ou de pessoas, embora essa mesma precisão acabe por reintroduzir a preocupação com o homem no centro da questão do mundo, o que exige distinguir o conceito de cosmologia de outros com os quais costuma ser confundido.

2. Cosmografia, cosmogonia e cosmologia devem ser distinguidas, sendo os dois primeiros termos atestados no grego antigo e conservados no latim medieval, enquanto o terceiro é uma criação tardia da língua erudita que os gregos antigos jamais forjaram.

3. A cosmografia consiste no desenho ou na descrição do mundo em sua estrutura atual, abrangendo as relações estáticas e dinâmicas entre seus elementos e as leis que as regem, à maneira de uma geografia generalizada estendida a todo o universo visível.

4. A cosmogonia consiste no relato da gênese das coisas até formarem o mundo tal como o conhecemos, podendo assumir formas variadas, desde o mito carregado de pensamento, como em Hesíodo, a reelaboração crítica de mitos antigos, como no Gênesis, ou o mito forjado para ilustrar uma filosofia, como no Timeu, até a reconstrução científica, de Galileu e Descartes à astrofísica atual.

5. Os conteúdos de cosmografia e cosmogonia aproximaram-se a ponto de quase coincidir, pois as teorias contemporâneas concebem o mundo em evolução e pretendem narrar uma história realmente ocorrida, ao passo que outrora se opunham a descrição de um estado fixo e a reconstituição apenas hipotética e heurística de sua gênese, como a fabricação demiúrgica do Timeu, entendida pela tradição como explicitação de estados eternos.

Cosmologia

1. A cosmologia, em sentido próprio e conforme o que implica o termo logos, não é a mistura de cosmografia e cosmogonia, mas um modo de dar razão do mundo no qual aquilo que faz do mundo um mundo, a mundanidade, deixa de ser pressuposto e se torna problema, o que exige que o mundo seja explicitamente posto e nomeado.

2. Toda cosmologia contém necessariamente um elemento reflexivo que deve dar conta da presença de um sujeito capaz de experimentar o mundo como tal, o homem, e por isso implica uma antropologia que inclui uma ética da realização plena do humano, de modo que importa menos a sucessão das teorias físicas do universo do que a cosmologia vivida do homem pré-moderno.

3. A abertura da cosmologia para uma antropologia suscita a suspeita de violentar a língua ou de reduzir a cosmologia a uma simples visão de mundo necessariamente subjetiva, seja ela de um indivíduo ou de uma sociedade.

4. O sentido da palavra mundo tornou-se predominantemente antropológico, designando a terra como morada humana, a sociedade, sua camada distinta ou um meio particular, enquanto a realidade física passa a ser nomeada por universo ou cosmos e só se chama mundos aquilo que se imagina habitável ou habitado, o que é sintoma de uma revolução nas mentalidades.

5. A própria palavra mundo não está livre de metáfora, pois talvez nenhum termo possa designar o conjunto da realidade física sem implicar uma ótica determinada sobre ela, como ocorre com universo, voltado para a unidade, e esse caráter metafórico só se revela ao retornar às origens históricas do termo.

brague/1999/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki