2 Nascimento grego
BRAGUE, Rémi. La sagesse du monde: Histoire de l'expérience humaine du cosmos. Paris: Fayard, 1999.
NASCIMENTO GREGO DO COSMOS
1. Não se pode falar de uma sabedoria do mundo antes que a ideia de mundo tenha sido tematizada, e os gregos só chegaram a ela progressivamente, por etapas que durante muito tempo correram em paralelo com as percorridas pelas grandes civilizações fluviais do Egito e da Mesopotâmia.
Trajetória de conjunto
1. Em Homero, a totalidade das coisas é expressa por simples justaposição enumerativa de céu, terra, mar e mundo subterrâneo, ou pela fórmula duradoura o céu e a terra, enquanto Hesíodo, procedendo da mesma forma, por vezes indica a completude da enumeração acrescentando o adjetivo neutro plural todas as coisas.
2. O artigo grego, distinto do demonstrativo e capaz de substantivar quase qualquer parte do discurso, permitiu dispensar a enumeração, de modo que a partir de Heráclito se encontra a expressão substantivada todas as coisas e, com Empédocles, o singular o Todo.
3. O Egito antigo e a Mesopotâmia detiveram-se nessa mesma etapa da totalidade sem resto, assim como a Bíblia hebraica, em que o segundo Isaías apresenta YHWH como aquele que faz tudo, de modo ambíguo entre mundo e atos históricos de salvação, e Jeremias, graças ao artigo hebraico, afirma de modo inequívoco que Deus modelou o todo.
4. No grego, todas as expressões que designam o mundo coexistem e subsistem no helenismo bizantino e moderno até os dias de hoje.
O nome próprio
1. Os gregos inovaram ao dar ao mundo um nome próprio, kosmos, palavra que desde a Ilíada significa ordem e adorno, isto é, a beleza que resulta da ordem, sentido que o latim mundus, também ligado ao adorno feminino, reproduziu por imitação e que permaneceu sentido como metáfora de Plínio e Tertuliano a Escoto Erígena, Goethe e Alexander von Humboldt.
2. A aplicação de tal termo ao mundo pressupõe uma decisão implícita sobre sua natureza, tradicionalmente atribuída a Pitágoras com base em testemunhos tardios que provavelmente projetam nele concepções platônicas e talvez reservem o termo ao céu, embora a palavra apareça em vários pré-socráticos e tenha sido sobretudo Platão quem firmou seu uso.
A decisão de Heráclito
1. A decisão conceitual que permite a emergência da ideia de mundo talvez só se encontre formulada em Heráclito, embora os fragmentos 89 e 75 contenham um sentido anacrônico da palavra kosmos e o fragmento 124 nada esclareça sobre seu significado.
2. O célebre fragmento 30, segundo o qual este kosmos, o mesmo para todos, não foi feito por nenhum deus nem por nenhum homem, mas sempre foi, é e será fogo sempre vivo que se acende e se apaga com medida, não apenas contém mas produz o sentido de kosmos, ainda que permaneçam obscuros tanto o significado e o referente do termo quanto a razão de excluir uma fabricação humana, mal explicada pela leitura moderna de uma expressão polar.
3. Afirma-se assim a ideia de uma totalidade ordenada e autossuficiente que dispensa qualquer instância externa, e a exclusão do papel ativo dos homens pode ser compreendida sobre o fundo da concepção arcaica, egípcia e também grega, segundo a qual a ordem do mundo era mantida pela intervenção humana, como no alimento que os deuses recebem da fumaça dos sacrifícios.
Os socráticos: do mundo ao céu
1. Na época da revolução socrática, kosmos passa a ser aceito no sentido de ordem cósmica, como mostra a defesa de Sócrates por Xenofonte, que o isenta de ter estudado a natureza de todas as coisas e lhe atribui duas críticas aos físicos: estudar o divino implica negligenciar as coisas humanas, ainda mal conhecidas, e tal estudo não leva a nada de prático, pois ninguém espera produzir à vontade ventos, chuvas e estações.
2. O uso de kosmos no sentido de mundo, atribuído aos especialistas, ainda soa técnico e pretensioso, enquanto as coisas divinas se confundem com as celestes e meteorológicas, marcadas pela inacessibilidade ao nosso poder, de modo que, ao identificar a natureza de todas as coisas com o kosmos, a natureza inteira herda o estatuto de céu e escapa em seu fundo à ação humana.
3. Com Platão, sobretudo no Timeu, kosmos instala-se definitivamente no sentido de mundo, descrito como um todo ordenado, bom e belo, vivente visível e deus sensível identificado a um céu único, de modo que o que antes era o céu e a terra é absorvido pelo céu, agora não pela inacessibilidade comum, mas pela beleza que torna o mundo digno de ser céu.
4. O mesmo movimento culmina em Aristóteles, que distingue três sentidos de céu, a esfera das fixas, os corpos celestes e tudo o que essa esfera envolve, incluindo a terra, mutação semântica possibilitada pela representação do céu como esfera envolvente, que permite chamar por sinédoque o conteúdo pelo nome do continente.
5. Esse deslizamento semântico não é sem consequência, pois não é evidente que todas as qualidades do continente se transfiram ao conteúdo, e desenha-se assim o programa de interpretar o mundo a partir do céu, ouranizando o kosmos.
O mundo como escolha
1. Mundo jamais designou uma simples descrição da realidade, mas sempre traduziu um juízo de valor fruto de uma espécie de ato de fé, e a ciência grega sabia constituir o kosmos como tal, como revela a distinção transmitida por Simplício a partir de Posidônio, em que a astronomia demonstra a ordem celeste depois de declarar que o céu é verdadeiramente um mundo, pressupondo que o mundo não se constata passivamente, mas é posto pelo sábio.
2. Pôr o mundo como kosmos é obra do sábio que nele vê o espelho da própria sabedoria, como sugere a irônica observação de Platão de que os sábios, ao proclamar o Intelecto rei do céu e da terra, veneram a si mesmos, de modo que a soberania do Intelecto legitima os intelectuais, ideia retomada por Nietzsche ao denunciar a vaidade dos filósofos que fizeram um Deus à sua semelhança.
3. Esses abismos rapidamente entreabertos logo se fecham, e para o pensamento clássico o mundo apresenta-se como o caso por excelência da ordem e da racionalidade, com consequências de longo alcance.
4. O conceito grego de mundo como kosmos abre uma dimensão antropológica, pois exige implicitamente a ideia de sujeito: precisamente porque o homem é excluído de todo papel ativo na constituição do mundo, nada acrescentando nem retirando a ele, pode aparecer como o sujeito ao qual o mundo se manifesta em sua totalidade, aquisição que permanece até os desenvolvimentos mais recentes.
5. O problema da relação entre a humanidade do homem e sua presença no universo físico recebeu diferentes respostas, agrupáveis em quatro tipos ideais designados por rótulos cômodos, Timeu, Epicuro, as Escrituras reveladas e a gnose, que não esgotam as correntes espirituais da Antiguidade.
6. As demais correntes ficam fora do quadro ou porque não enfrentaram a questão, como sofistas, cínicos e céticos, que constituem uma espécie de grau zero, ou porque oferecem apenas variantes intermediárias, como o estoicismo, que se reduz ao modelo timeano por ter se fundido cedo ao platonismo médio, forma pela qual influenciou a Idade Média, abandonando nesse sincretismo a cosmogonia das conflagrações periódicas que o distinguia do Timeu.
