SUJEITO DA ENUNCIAÇÃO
BOUGNOUX, Daniel. Sciences de l’information et de la communication. Textes essentiels. Paris: Larousse, 1993.
O mundo dos signos não é o da força, mas buscamos na comunicação qual é a força dos signos. A abertura pragmática que se desenvolve atualmente promete enriquecer várias disciplinas:
- na linguística pós-saussuriana, o estudo da enunciação (quem fala?), dos atos de linguagem e dos efeitos da “polifonia” no discurso (cujo sujeito ou locutor raramente é pontual ou simples);
- nas “ciências exatas”, a renovação da problemática Ciências-Técnicas-Sociedade com o estudo da verdade como autoridade, do discurso como percurso e da razão como rede (Michel Serres, Bruno Latour);
- na psicanálise, o estudo do imaginário (em nós) e das massas (fora de nós) também complica o sujeito, que não devemos definir precipitadamente (apesar de Lacan) como falante. O slogan lacaniano de um “inconsciente estruturado como uma linguagem” data dos anos 50, sua referência ao estruturalismo saussuriano ignora a abertura pragmática, austiniana (os atos de fala) e sistêmica (a escola de Palo Alto).
Contra o logocentrismo espontâneo dos filósofos, tal como Derrida o descreveu e criticou, sabemos que nem tudo é linguagem. Os estudos da enunciação mostram-se atentos aos diferentes códigos (verbal, icônico, cinésico, indicial, etc.) e aos contextos em que se inserem: as situações de comunicação são geralmente complexas, e todas as camadas do sentido se entrelaçam nelas. Ao inconsciente lacaniano estruturado pela linguística saussuriana, opomos um inconsciente que pode ser considerado, de fato, comunicacional, mas por meio de índices, relações para ou protoverbais e efeitos de contexto. Quanto às clivagens do sujeito (tema caro aos psicanalistas), elas não têm nada que mereça surpresa: há algumas décadas, a cibernética, nomeadamente a do Biological Computer Laboratory de Von Foerster, a sistêmica nascida das ciências da vida, o estudo dos ciclos ecológicos ou o da polifonia enunciativa… evidenciam a diversidade das camadas e dos módulos que compõem a “sociedade do espírito”. É a partir dessa multiplicidade irredutível que pensamos, falamos e agimos.
