Centralidade absoluta da noção de limitação em todo o edifício teórico fichteano, articulada como alternativa simultânea ao realismo dogmático e ao realismo idealista de matriz cartesiano-leibniziana.
Realismo dogmático definido pela posição de um não-Eu substancial como única agência verdadeira e independente, deslocando para fora do Eu a fonte última de atividade.
Realismo idealista caracterizado pela primazia de uma substância espiritual monádica como única realidade verdadeira, reduzindo a atividade do não-Eu a mera ilusão sem consistência própria.
Relação entre Eu e não-Eu compreendida como limitação mútua, recusando tanto a unilateralidade do não-Eu substancial quanto a dissolução ilusória do não-Eu no domínio exclusivo do espiritual.
Posicionamento dessa limitação mútua no interior do Eu absoluto, sem que isso autorize conceber o Eu absoluto como substância espiritual realista que conteria tudo em si.
Eu absoluto determinado como abstrato e puramente transcendental-ideal, isto é, como meio em que Eu e não-Eu se delimitam reciprocamente.
Função do Eu absoluto não como realidade suprema, mas como condição formal do campo em que a delimitação acontece, impedindo que a unidade seja entendida como coisa.
Deslocamento do estatuto de realidade para o engajamento efetivo, de modo que o Eu só se torna real por meio de sua colisão com a força oposta do não-Eu.
Realidade do Eu adquirida somente no engajamento real com a potência opositiva do não-Eu que frustra e limita, de tal modo que não há realidade do Eu fora desse choque.
Impossibilidade de uma realidade do Eu isolada da oposição, já que a existência efetiva do Eu depende do encontro com uma força que o contraria.
Generalidade do poder frustrante do não-Eu, abrangendo desde a inércia natural do próprio corpo até a pressão de constrangimentos sociais e instituições, incluindo a presença traumática de outro Eu.
Privação do Eu de seu não-Eu equivalendo à privação do Eu de sua própria realidade, já que, sem resistência, não há efetividade do Eu.
Não-Eu primariamente não como objeto abstrato de contemplação distanciada, mas como Gegenstand, isto é, aquilo que se põe contra, como obstáculo ao esforço do Eu.
Distinção entre Objekt e Gegenstand como distinção entre objeto contemplado e objeto que resiste, deslocando o problema para a dimensão prática.
Objeto definido como obstáculo ao esforço tético do sujeito, isto é, ao esforço de pôr e efetivar-se no mundo.
Passividade do sujeito diante do objeto frustrante definida como pathic, marcada por uma tonalidade afetiva e sofrida própria do embate com a resistência.
Experiência de obstáculo possível apenas quando o sujeito está orientado para fora, empurrando para fora em seu esforço prático, pois somente um sujeito em investimento ativo pode ser frustrado.
Posição, no interior do Eu absolutamente ponente, de um Eu finito e de um não-Eu como divisíveis, delimitando-se reciprocamente, segundo a fórmula em que se opõe no Eu um não-Eu divisível ao Eu divisível.
Divisibilidade como condição formal do recorte mútuo, em que ambos os polos são postos como repartíveis e limitáveis.
Limitação mútua como estrutura interna ao Eu absoluto, sem que isso elimine o caráter efetivamente frustrante do não-Eu para o Eu finito.
Designação da Wissenschaftslehre como materialismo sem matéria, na medida em que a consciência pura do Eu absoluto cumpre a função de um equivalente idealista da matéria no materialismo abstrato.
Funcionamento do Eu absoluto como espaço abstrato e infinitamente divisível, análogo ao espaço matemático em que se recorta indefinidamente a relação entre Eu e não-Eu.
Substituição da matéria por um meio formal de divisão, no qual a delimitação opera como princípio estruturante do campo.
Proximidade e distância entre Fichte e Hegel discerníveis na diferença entre suas noções de limitação, apesar de partilharem a intuição de que limitação e verdadeira infinitude constituem uma mesma constelação.
Convergência no ponto em que a infinitude verdadeira não exclui a limitação, mas se articula com ela em um mesmo movimento.
Diferença decisiva na maneira como essa sobreposição é pensada, separando uma estrutura vital de auto-relação em Hegel de uma infinitude prática atuante em Fichte.
Em Hegel, sobreposição entre infinitude verdadeira e autolimitação desenvolvida como auto-relação, em que a relação ao outro coincide com relação a si, definindo a estrutura elementar da vida.
Vida definida por auto-relação que inclui o outro como momento interno, de modo que o outro não aparece como mera exterioridade.
Ilustração contemporânea pelo problema biológico da emergência de um organismo distinto, deslocando a questão da interação para a gênese da distinção.
Problema decisivo formulado como surgimento de uma entidade autoidêntica a partir do entorno, e não como simples adaptação ao entorno já dado.
Membrana celular como figura paradigmática da constituição do limite que separa dentro e fora, instaurando o próprio espaço em que a adaptação se torna possível.
Questão principal como gênese do algo que deve adaptar-se, e não como explicação de como algo já dado se adapta.
Em Fichte, vínculo entre infinitude e limitação pensado de modo inteiramente distinto, já que a infinitude é infinitude atuante, isto é, infinitude do engajamento prático do sujeito.
Infinitude definida como esforço incessante do sujeito, e não como estrutura lógico-ontológica de auto-relação vital.
Diferença entre animal e homem na experiência do limite: o animal pode ser frustrado, mas não experimenta seu estado como limitação propriamente dita.
Animal simplesmente constrangido ao limite, com limite externo e, por isso, invisível a partir de seu horizonte.
Ausência de consciência de limitação porque o horizonte do animal não inclui a possibilidade de localizar-se como limitado.
Homem experimentando sua própria situação como frustrantemente limitada, e essa experiência sendo sustentada por um esforço infinito de romper o limite.
Infinitude atuante fundada diretamente na experiência da finitude, de modo que a finitude não é apenas constatação, mas ferida que convoca a ultrapassagem.
Limitação como autolimitação no sentido preciso de que ela corta por dentro a identidade do sujeito, finitando-o e frustrando-o.
Limitação humana como corte interno que mina a identidade desde dentro, fazendo com que o obstáculo não apenas impeça tornar-se mundo, mas impeça tornar-se si mesmo.
Objetos e obstáculos frustrantes descritos como forças que não apenas detêm um movimento externo do Eu, mas corroem a consistência interna de sua autoidentidade.
Consequência traumática segundo a qual o obstáculo faz do sujeito um ser finito não só por restrição externa, mas por truncamento interno.
Dupla implicação do fato de o limite entre Eu e obstáculo situar-se no Eu: unidade englobante e, simultaneamente, conclusão desagradável de que o obstáculo invade a identidade e a torna frustrada.
Leitura triunfante segundo a qual o Eu é unidade que abarca a si e seu outro objetivo, já que a delimitação acontece no interior do Eu absoluto.
Leitura traumática segundo a qual o obstáculo recorta a identidade do sujeito desde dentro, e a unidade englobante não elimina a experiência de ferida interna.
Problema interpretativo relativo à passagem do Eu ao não-Eu como em-si consistente fora do movimento reflexivo do Eu, formulado como suspeita de circularidade que não se funda.
Interrogação sobre se o movimento circular de autoposição permanece suspenso no vazio, incapaz de fornecer seu próprio fundamento.
Ironia condensada pela imagem de Münchhausen salvando-se do pântano puxando a si mesmo pelos cabelos, como figura de uma fundação impossível.
Necessidade de um ponto de referência externo que impeça o colapso do Eu em si mesmo, sem que esse ponto seja exterioridade direta que reintroduza a Coisa-em-si.
Solução proposta por Pierre Livet pela referência a outro Eu como ponto externo relativo a um Eu singular, preservando, porém, a pertença ao mesmo tipo de círculo reflexivo de autoposição.
Outro Eu como referência externa para um Eu singular, experimentada como núcleo opaco e impenetrável.
Não exterioridade absoluta, pois o outro Eu não é estranho ao movimento de autoposição, sendo apenas outro círculo do mesmo tipo.
Fundação da necessidade a priori da intersubjetividade por meio dessa exterioridade relativa, em que o externo não é coisa, mas outra subjetividade.
Reconhecimento da elegância da solução e da afinidade com a noção lacaniano-freudiana do próximo como Coisa traumática, acompanhado da recusa de sua suficiência.
Proximidade conceitual com a figura do vizinho como núcleo impenetrável, onde a alteridade aparece como traumatizante e opaca.
Falha da solução por desconsiderar que a relação do Eu com o objeto precede, no sentido formal estrito da gênese transcendental, a relação do Eu com outro Eu.
Primordialidade do Outro como Coisa não redutível a outro sujeito, de modo que o primeiro Outro não é o Outro da reciprocidade intersubjetiva.
Anstoß como Outro que desperta o que terá sido o sujeito de seu estatuto pré-subjetivo, mas não como Outro da intersubjetividade recíproca.