Homologia formal entre Anstoß e o objet a lacaniano, segundo a qual o Anstoß funciona como foco vazio em torno do qual circula a atividade de pôr do Eu.
Funcionamento do Anstoß como campo magnético: ele concentra e orienta a atividade do Eu, determinando o ponto em torno do qual o movimento de autoposição se organiza.
Insubstancialidade do Anstoß, já que ele não precede a atividade que o encontra, mas é gerado pela própria operação que reage a ele e lida com ele.
Produção do objeto pela própria busca, figurada pela anedota do recruta cuja compulsão por examinar papéis e declarar não é isto só encontra seu objeto quando recebe o documento de dispensa e reconhece isso é isto.
Estrutura circular em que a própria dinâmica de procura fabrica aquilo que aparece como termo final da procura.
Objeto produzido como solução precisamente porque a busca institui o espaço em que algo pode contar como aquilo que se procurava.
Paradoxo último do Anstoß: ele não está simplesmente fora do movimento circular da reflexão, mas é posto por esse mesmo movimento autorreferencial.
Transcendência do Anstoß definida como impenetrabilidade absoluta e impossibilidade de reduzi-lo a objeto representado ordinário.
Coincidência dessa transcendência com imanência absoluta, pois o Anstoß é interno ao circuito que o produz.
Indecidibilidade entre imanência e transcendência do Anstoß, e necessidade de uma solução que não recaia nem na limitação externa dogmática nem na lógica perversa do obstáculo autoposto.
Pergunta sobre se o Anstoß suscita o Eu desde fora ou se é posto pelo próprio Eu, formulada como alternativa entre perturbação externa e autoposição interna.
Risco do polo transcendente: sujeito finito limitado por um Anstoß concebido como Coisa-em-si kantiana, ou como alteridade intersubjetiva concebida como única Coisa verdadeira, na forma de um Anstoß ético.
Risco do polo imanente: lógica perversa e entediante em que o Eu põe obstáculo apenas para superá-lo, convertendo a resistência em teatro autocentrado.
Solução exigida como simultaneidade absoluta e sobreposição entre autoposição e obstáculo, de modo que o obstáculo não seja simplesmente posto, mas ejetado.
Obstáculo concebido como rejeito excremental do processo de autoposição, como avesso secretado da própria atividade que se põe.
Obstáculo como não tanto posicionado quanto excretado, secretado como subproduto inevitável do ato de autoposição.
Anstoß como a priori transcendental do pôr e como único elemento não posto, isto é, aquilo que incita o Eu ao pôr interminável sem ele próprio ser resultado de um pôr.
Anstoß como condição que estimula a repetição incessante da atividade de pôr, funcionando como motor formal da autoposição.
Anstoß como único não posto, precisamente porque sua função é instaurar o regime no qual algo pode ser posto.
Formulação em termos lacanianos da lógica do não-Todo: o Eu finito e o não-Eu limitam-se reciprocamente, enquanto no nível absoluto nada existe que não seja Eu.
Ilimitação do Eu no nível absoluto como razão de seu caráter não-Todo, já que a totalidade do Eu implica o ponto que impede sua totalização plena.
Anstoß como aquilo que faz o Eu não-Todo, isto é, como marca formal de uma totalidade que não se fecha.
Proibição de representar o limite de modo objetivado, sob pena de perder o ponto decisivo da argumentação fichteana.
Advertência de que, ao tentar dar conta do limite, não se deve representá-lo como objeto, nem como algo reificado dentro do campo representacional.
Crítica da versão padrão segundo a qual Kant preservaria um X externo que afeta o sujeito, enquanto Fichte fecharia o círculo do solipsismo transcendental.
Falha dessa versão em perceber que a dispensa da Coisa-em-si não se deve à inflação do sujeito a um Absoluto infinito, mas à finitude do sujeito transcendental.
Sentido da comparação wittgensteiniana entre a inexistência de fim na vida e a inexistência de limites no campo visual.
Impossibilidade de sair da finitude para perceber a finitude como limitada, já que a percepção do limite exigiria um ponto exterior ao próprio campo finito.
Recusa de conceber o Eu transcendental como espaço fechado cercado por outro espaço externo de entidades noumenais, porque tal figura já objetiviza indevidamente o limite.
Explicitação lacaniana pela distinção entre sujeito do enunciado e sujeito da enunciação, mostrando que afirmar diretamente a própria finitude já implica assumir uma posição infinita e objetivadora.
Autodefinição como ser finito no mundo entre outros seres exigindo, no nível da enunciação, um ponto de vista a partir do qual se observa a totalidade e se localiza a si mesmo nela.
Objetivação do limite entre Eu e mundo ocorrendo quando se fala como se o limite pudesse ser visto e situado de fora.
Única via para afirmar a finitude como tal consistindo em aceitar a infinitude do próprio mundo, pois o limite não pode ser localizado dentro do campo em que se está.
Dificuldade da noção de Anstoß derivando do fato de que ele não é objeto na realidade representada, mas substituto dentro da realidade daquilo que está fora dela.
Presença do fora na realidade sob a forma de um representante interno que não se deixa reduzir à série dos objetos dados.
Paralelo entre o problema do limite e o problema da morte, entendido como limite da vida que não pode ser localizado no interior da vida.
Morte como limite que, precisamente por ser limite, não aparece como objeto interno à vida, de modo que localizá-la dentro da vida já distorce sua estrutura.
Afirmação de que a aceitação plena desse fato exige um ateísmo verdadeiro, ilustrado pela reflexão de Ingmar Bergman.
Experiência anestésica de desaparecimento da realidade como compreensão imediata do passar do ser ao não-ser.
Libertação da ansiedade ligada a conceitos religiosos de pós-vida, acompanhada de uma tristeza residual pela perda imaginária de experiências futuras.
Satisfação profunda diante da tese de que não existe nada além deste mundo e de que tudo existe e acontece dentro do entrelaçamento interno dos seres.
Afirmação de que ser e não ser se sucedem sem transição metafísica, e de que isso é aceitável e suficiente.
Verdade no argumento epicurista contra o medo da morte, na medida em que a fonte do medo reside na imaginação que transforma o não-evento em evento.
Medo da morte enraizado no poder imaginativo de figurar a passagem ao não-ser como se fosse experiência positiva.
Morte como evento descrita como anamorfose última, pois o temor faz experimentar um não-ser como se fosse coisa ou acontecimento.
Coincidência entre diferença externa e diferença interna na relação antagonística, conduzindo à identidade dialética dos opostos em que a condição de possibilidade é simultaneamente condição de impossibilidade.
Antagonismo no qual a diferença que separa e garante identidade também fere internamente essa identidade, tornando-a instável e truncada.
Condição de possibilidade de identidade coincidindo com condição de impossibilidade, pois a identidade se afirma apenas sobre o fundo de um resto irreduzível que a impede de fechar-se.
Base da autoidentidade assentada em seu oposto, de modo que toda identidade carrega a marca do que a desmente e a limita por dentro.
Primazia do modelo I = I como arquétipo de toda identidade, com a identidade formal-lógica derivada da autoidentidade transcendental do Eu.
Autoidentidade do Eu afirmada como fundamento primeiro, enquanto a noção formal de identidade surge como derivação e estabilização secundária.
Ênfase na tese de que o Eu absoluto não é fato, mas feito, isto é, Tat-Handlung, e que sua identidade é pura processualidade.
Identidade como inteiramente processual significando que o sujeito não possui substrato anterior ao processo, mas emerge como efeito do próprio movimento.
Sujeito como resultado do fracasso de tornar-se plenamente sujeito, de modo que a falha é o que constitui a subjetividade.
Coincidência plena entre fracasso e sucesso apenas no caso do sujeito, pois sua identidade se funda no próprio vazio e na própria falta.
Aparência de identidade substancial nos demais casos como algo que parece preceder a processualidade, ao passo que no sujeito a processualidade é originária.
Prioridade transcendental-ontológica da processualidade pura do Eu sobre qualquer entidade substancial, exigindo que toda substancialidade aparente seja explicada como resultado reificado da gênese transcendental.
Crítica ao dogmatismo realista como incapacidade de reconhecer que a substância é efeito do processo, e não seu fundamento.
Contabilização de toda aparência de identidade substancial como produto reificado da atividade processual do Eu, e não como dado originário.
Necessidade de reconduzir a estabilidade aparente ao movimento gênico que a produz e a fixa.
Passagem de I = I à delimitação entre Eu e não-Eu como passagem do antagonismo imanente à limitação externa que garante identidades opostas.
Autoposição pura do Eu não se dividindo simplesmente em Eu finito e não-Eu, mas pondo ambos como opostos que se limitam mutuamente.
Produção de limitação externa como tentativa de resolver tensão imanente da processualidade do Eu, deslocando contradição interna para oposição estabilizada.
Garantia de identidade dos polos opostos obtida por delimitação externa, que funciona como solução para a instabilidade interna da autoposição.
Tese fichteana segundo a qual o limite externo é sempre resultado de autolimitação interna, desenvolvida como núcleo do idealismo transcendental absoluto, e contraste com Kant, para quem a Coisa-em-si é limite externo direto do campo fenomenal.
Para Kant, limite entre noumenal e fenomenal entendido como fronteira externa que não se origina na autolimitação do sujeito.
Para Fichte, limite externo reinterpretado como efeito de autolimitação interna, de modo que a exterioridade do limite é sempre correlata a um ato interno.
Suspensão da leitura padrão que vê nessa tese a absorção completa de todo limite externo pela mediação infinita do sujeito.
Possibilidade de pensar a autolimitação como sobreposição de limitação interna e externa, preservando a tensão entre truncamento interno e referência ao fora.
Deslocamento do acento do genitivo subjetivo ao genitivo objetivo na expressão limitação do Eu, impedindo que a autolimitação seja lida como domínio soberano do sujeito sobre seus limites.
Limitação do Eu como não significando que o Eu seja mestre e agente pleno de sua limitação, integrando-a pacificamente na aut mediação.
Limitação do Eu como significando que a limitação externa do Eu o trunca desde dentro, atingindo a própria identidade do sujeito.
Limite como ferida interna que impede fechamento identitário, ainda que se apresente como exterioridade.
Não-Eu como nada absoluto fora do campo transcendental do Eu, recusando qualquer representação do não-Eu como outro nível ontológico e afirmando-o como vazio e não-nível.
Fora do campo do pôr do Eu não existindo um espaço alternativo, mas apenas ausência de espaço, isto é, vazio próprio do não-Eu.
Não-Eu como não-ser, como nada para o Eu, de modo que sua figura não designa uma positividade exterior, mas um vazio correlativo.
Emergência do não-Eu apenas como correlato da não-posição do Eu, implicando que o não-Eu é a própria não-posição do Eu e que sua atividade só aparece como resultado da passividade do Eu.
Atividade de toda posição atribuída ao Eu, de modo que a atividade do não-Eu só pode aparecer onde o Eu se torna passivo.
Resistência objetiva do mundo como efeito de uma auto-passivação do Eu, permitindo que algo atue de volta sobre ele.
Consequência ética segundo a qual a determinação por causas externas ocorre apenas na medida em que se consente em ser determinado, sendo toda determinação externa mediada pela aquiescência.
Falha fatal da Coisa-em-si kantiana por supor atividade no não-Eu sem passividade correspondente no Eu, instaurando uma assimetria que permanece impensável e dogmática.
Finitude do Eu ponente como síntese a priori do finito e do infinito, na qual o Eu deve pôr um absoluto fora de si e, simultaneamente, reconhecer que ele só existe para si.
Necessidade reflexiva de postular um absoluto inacessível como padrão em relação ao qual a condição mediada do sujeito se mede.
Existência desse absoluto apenas relativamente à finitude e ao modo de intuição do Eu, isto é, apenas para o Eu.
Leitura imanente que impede tomar o absoluto como entidade independente, sem negar sua função como pressuposição prática do agir.
Primeira consequência: o absoluto infinito surge apenas no horizonte de um sujeito finito que experimenta sua finitude.
Segunda consequência: experiência do hiato em relação ao absoluto é inerentemente prática e impele a atividade incessante.
Abertura, junto a essa orientação prática, de um espaço para um desespero radical, onde não apenas a realização do ideal falha, mas o próprio ideal pode aparecer como inválido e não digno de ser buscado.