A ironia adicional, perdida por Scottie, é que a vulgar Judy realmente
é* a Madeleine pela qual ele busca desesperadamente
* O momento do delírio como aparição do Absoluto
* O breve momento em que Scottie é iludido a pensar que vê Madeleine é o momento em que o Absoluto aparece
* Ele aparece “como tal” no próprio domínio das aparências, nos momentos sublimes em que uma dimensão supra-sensível “transparece” em nossa realidade ordinária
* A perda platônica: a Ideia só emerge na distância entre realidade e cópia
* Quando Platão descarta a arte como “cópia de uma cópia”, introduzindo três níveis ontológicos, perde-se algo crucial
* A Ideia só pode emergir na distância que separa nossa realidade material ordinária (segundo nível) de sua cópia
* Quando copiamos um objeto material, o que efetivamente copiamos, a que nossa cópia se refere, nunca é este objeto particular em si, mas sua Ideia
* A máscara que engendra uma terceira realidade
* É semelhante com uma máscara que engendra uma terceira realidade, um fantasma na máscara que não é o rosto escondido sob ela
* Neste sentido preciso, a Ideia é a aparência como aparência (como Hegel e Lacan colocam)
* A Ideia é algo que aparece quando a realidade (a cópia/imitação de primeiro nível da Ideia) é ela mesma copiada
* É aquilo que na cópia é mais do que o original mesmo
* A afirmação kafkiana de Hegel: o retrato pode ser mais como o indivíduo do que o próprio indivíduo
* Isto implica que a pessoa mesma nunca é plenamente “si mesma”, não coincide com sua Ideia
* Não é de admirar que Platão tenha reagido de maneira tão pânica contra a ameaça da arte
* Como Lacan apontou, a arte (como cópia de uma cópia) não compete com objetos materiais como cópias “diretas” da Ideia
* Ela compete com a Ideia supra-sensível mesma
* A resposta de Poirot à descoberta da beleza enganadora
* Na história de Agatha Christie, Poirot descobre que uma enfermeira feia é a mesma pessoa que uma beleza que conheceu
* Hastings pergunta se isto não anuncia o fim do amor, dada a confiabilidade da beleza feminina
* Poirot responde: “Não, meu amigo, anuncia o começo da sabedoria”
* O erro do ceticismo: a beleza feminina como Absoluto que aparece
* Tal ceticismo perde o ponto: a beleza feminina é, no entanto, absoluta, um absoluto que aparece
* Não importa quão frágil e enganadora esta beleza seja no nível da realidade substancial, o que transparece no momento da Beleza é um Absoluto
* Há mais verdade na aparência do que no que está escondido sob ela
* O insight profundo de Platão: as Ideias como forma de aparecer
* As Ideias não são a realidade escondida sob as aparências (Platão sabia que esta realidade escondida é a da matéria sempre mutável)
* As Ideias nada mais são do que a própria forma da aparência, esta forma como tal
* Como Lacan sintetizou o ponto de Platão: o Suprassensível é a aparência como aparência
* Por esta razão, nem Platão nem o cristianismo são formas de Sabedoria — são ambos anti-Sabedoria encarnada
* O retorno sem vergonha a Platão na concepção da arte
* A reputação de Platão sofre por sua afirmação de que os poetas deveriam ser expulsos da cidade
* Este é um conselho bastante sensível, a julgar pela experiência pós-iugoslava, onde a limpeza étnica foi preparada pelos sonhos perigosos dos poetas
* Se o Ocidente tem o complexo industrial-militar, nós no ex-Iugoslávia tivemos um complexo poético-militar
* A tarefa da poesia: fornecer a “descrição sem lugar” da Ideia
* De um ponto de vista platônico, o que faz um poema sobre o holocausto? Ele fornece sua “descrição sem lugar”: renderiza a Ideia do holocausto
* A poesia lida com a Ideia, não com a realidade empírica, e é precisamente por isso que pode ser tão perigosa
* A estratégia católica contra a tentação da carne como fuga do Real
* Ao ver um corpo feminino voluptuoso, imagine como ele parecerá em algumas décadas — pele seca, seios caídos
* Este procedimento equivale à fuga do Real, o Real que se anuncia na aparência sedutora do corpo nu
* Na oposição entre a aparência espectral do corpo sexualizado e o corpo repulsivo em decomposição, é a aparência espectral que é o Real
* Recorremos ao corpo em decomposição para evitar a fascinação mortal do Real que ameaça nos arrastar para seu vórtice de gozo
* O insight shakespeariano em *All’s Well That Ends Well: o redobramento da aparência