O momento dialético fundamental: a reversão-para-si
Para Hegel, se a Ideia não pode representar-se adequadamente, se sua representação é distorcida/deficiente, esta distorção sinaliza simultaneamente uma limitação/deficiência da própria Ideia
Para alcançar o núcleo especulativo da dialética hegeliana, deve-se dar um passo além
Não apenas a Ideia universal sempre aparece de modo distorcido/deslocado; esta Ideia nada mais é do que a distorção/deslocamento, a auto-inadequação, do particular em relação a si mesmo
Há uma homologia estrita com a passagem do sujeito suposto a… para o próprio sujeito como suposição
A reversão como definição formal da subjetividade
Pode-se afirmar que esta reversão como tal, formalmente, define a subjetividade
A substância aparece nos fenômenos, enquanto um sujeito nada mais é do que sua própria aparição
O universal nada mais é do que a inadequação, a não-identidade, do particular consigo mesmo
A essência nada mais é do que a inadequação da aparência consigo mesma
A aparência refletida em si mesma como o sujeito
Isto não significa que o sujeito seja a tautologia estúpida do Real (“as coisas simplesmente são o que parecem ser”)
Significa, mais precisamente, que o sujeito nada mais é do que seu próprio aparecer, o aparecer refletido-em-si-mesmo
É a torção paradoxal na qual uma coisa começa a funcionar como um substituto de si mesma
Exemplo da determinação oposta (gegensätzliche Bestimmung): o homofóbico que estupra um homossexual
A homofobia encontra a si mesma em sua determinação oposta
A tautologia (auto-identidade) aparece como a mais alta contradição
O ato que nega a homossexualidade realiza-a de forma perversa, expondo o desejo recalcado que sustenta a repulsa consciente
Exemplo da interpassividade extrema: gravar um filme para assisti-lo no futuro
Preocupado com o registro, assisto à TV ansiosamente enquanto a fita roda, apenas para ter certeza de que a gravação está correta
O paradoxo: assisto ao filme de perto, mas num estado suspenso, sem realmente segui-lo; meu interesse é que tudo esteja lá no registro
A economia libidinal subjacente é totalmente diferente do ato “normal” feito por prazer como fim em si mesmo
A estrutura da faixa de Möbius e o país como seu próprio mapa
Assistir a um filme aparece aqui como sua própria determinação oposta
A estrutura é a da faixa de Möbius: se progredimos o suficiente em um lado, alcançamos nosso ponto de partida, mas no lado reverso da faixa
Lewis Carroll estava certo: um país pode servir como seu próprio mapa na medida em que o modelo/mapa é a própria coisa em sua determinação oposta
Uma tela invisível garante que a coisa não seja tomada como ela mesma
A diferença “primordial”: entre a coisa e o vazio da tela invisível
A diferença primordial não é entre as coisas em si, nem entre as coisas e seus signos
É entre a coisa e o vazio de uma tela invisível que distorce nossa percepção da coisa, para que não tomemos a coisa por ela mesma
O movimento das coisas para seus signos não é de substituição da coisa por seu signo
É a própria coisa tornando-se o signo de — não de outra coisa, mas — de si mesma, do vazio em seu próprio núcleo
O exemplo de Cavallo e a máscara de si mesmo
O ministro da economia argentino Cavallo escapou de uma multidão vestindo uma máscara de si mesmo (vendida em lojas de fantasias)
Pelo menos Cavallo aprendeu algo com o movimento lacaniano na Argentina: o fato de que uma coisa é sua própria melhor máscara
A coisa é sua própria máscara, a aparência que a torna reconhecível e, ao mesmo tempo, a encobre
A divindade como a suprema cisão entre o Absoluto e sua aparência
Talvez “deus” seja o nome para esta suprema cisão entre o absoluto como Coisa noumenal e o absoluto como aparência de si mesmo
Os dois são o mesmo; a diferença entre eles é puramente formal
Neste sentido preciso, “deus” nomeia a suprema contradição: deus — o Além irrepresentável — tem que aparecer como tal
O engano propriamente lacaniano em Bamboozled: a máscara negra para parecer branco
No filme de Spike Lee, artistas negros escurecem seus rostos ao estilo de Al Johnson
Vestir uma máscara negra é a única estratégia para eles parecerem brancos (gerar a expectativa de que o rosto “verdadeiro” sob a máscara é branco)
Neste engano lacaniano, vestir uma máscara negra destina-se a ocultar o fato de que somos negros
O efeito de descobrir o negro sob o negro, quando enxaguam suas máscaras, é chocante
A cena de Vertigo: a aparição do Absoluto no domínio das aparências
No encontro de Scottie e Judy, ele vê uma mulher vagamente similar a Madeleine, vestida com o mesmo vestido cinza
O momento crucial é quando vemos, do ponto de vista de Scottie, as duas na mesma tomada: Judy à direita, a mulher cinza à esquerda, ao fundo
Ocorre a externalização da cisão em duas pessoas diferentes: Judy aqui e a aparição espectral momentânea de Madeleine
A ironia adicional, perdida por Scottie, é que a vulgar Judy realmente //é* a Madeleine pela qual ele busca desesperadamente
O momento do delírio como aparição do Absoluto
O breve momento em que Scottie é iludido a pensar que vê Madeleine é o momento em que o Absoluto aparece
Ele aparece “como tal” no próprio domínio das aparências, nos momentos sublimes em que uma dimensão supra-sensível “transparece” em nossa realidade ordinária
A perda platônica: a Ideia só emerge na distância entre realidade e cópia
Quando Platão descarta a arte como “cópia de uma cópia”, introduzindo três níveis ontológicos, perde-se algo crucial
A Ideia só pode emergir na distância que separa nossa realidade material ordinária (segundo nível) de sua cópia
Quando copiamos um objeto material, o que efetivamente copiamos, a que nossa cópia se refere, nunca é este objeto particular em si, mas sua Ideia
A máscara que engendra uma terceira realidade
É semelhante com uma máscara que engendra uma terceira realidade, um fantasma na máscara que não é o rosto escondido sob ela
Neste sentido preciso, a Ideia é a aparência como aparência (como Hegel e Lacan colocam)
A Ideia é algo que aparece quando a realidade (a cópia/imitação de primeiro nível da Ideia) é ela mesma copiada
É aquilo que na cópia é mais do que o original mesmo
A afirmação kafkiana de Hegel: o retrato pode ser mais como o indivíduo do que o próprio indivíduo
Isto implica que a pessoa mesma nunca é plenamente “si mesma”, não coincide com sua Ideia
Não é de admirar que Platão tenha reagido de maneira tão pânica contra a ameaça da arte
Como Lacan apontou, a arte (como cópia de uma cópia) não compete com objetos materiais como cópias “diretas” da Ideia
Ela compete com a Ideia supra-sensível mesma
A resposta de Poirot à descoberta da beleza enganadora
Na história de Agatha Christie, Poirot descobre que uma enfermeira feia é a mesma pessoa que uma beleza que conheceu
Hastings pergunta se isto não anuncia o fim do amor, dada a confiabilidade da beleza feminina
Poirot responde: “Não, meu amigo, anuncia o começo da sabedoria”
O erro do ceticismo: a beleza feminina como Absoluto que aparece
Tal ceticismo perde o ponto: a beleza feminina é, no entanto, absoluta, um absoluto que aparece
Não importa quão frágil e enganadora esta beleza seja no nível da realidade substancial, o que transparece no momento da Beleza é um Absoluto
Há mais verdade na aparência do que no que está escondido sob ela
O insight profundo de Platão: as Ideias como forma de aparecer
As Ideias não são a realidade escondida sob as aparências (Platão sabia que esta realidade escondida é a da matéria sempre mutável)
As Ideias nada mais são do que a própria forma da aparência, esta forma como tal
Como Lacan sintetizou o ponto de Platão: o Suprassensível é a aparência como aparência
Por esta razão, nem Platão nem o cristianismo são formas de Sabedoria — são ambos anti-Sabedoria encarnada
O retorno sem vergonha a Platão na concepção da arte
A reputação de Platão sofre por sua afirmação de que os poetas deveriam ser expulsos da cidade
Este é um conselho bastante sensível, a julgar pela experiência pós-iugoslava, onde a limpeza étnica foi preparada pelos sonhos perigosos dos poetas
Se o Ocidente tem o complexo industrial-militar, nós no ex-Iugoslávia tivemos um complexo poético-militar
A tarefa da poesia: fornecer a “descrição sem lugar” da Ideia
De um ponto de vista platônico, o que faz um poema sobre o holocausto? Ele fornece sua “descrição sem lugar”: renderiza a Ideia do holocausto
A poesia lida com a Ideia, não com a realidade empírica, e é precisamente por isso que pode ser tão perigosa
A estratégia católica contra a tentação da carne como fuga do Real
Ao ver um corpo feminino voluptuoso, imagine como ele parecerá em algumas décadas — pele seca, seios caídos
Este procedimento equivale à fuga do Real, o Real que se anuncia na aparência sedutora do corpo nu
Na oposição entre a aparência espectral do corpo sexualizado e o corpo repulsivo em decomposição, é a aparência espectral que é o Real
Recorremos ao corpo em decomposição para evitar a fascinação mortal do Real que ameaça nos arrastar para seu vórtice de gozo
O insight shakespeariano em *All’s Well That Ends Well: o redobramento da aparência
* O ardil do leito: Bertram pensa que faz sexo com Diana, mas é com sua esposa legítima, Helen
* Helen define: “mau significado num ato legal” e “significado legal num ato mau”
* O caso é “não pecado, e ainda assim um fato pecaminoso”: não pecado porque é consumação do casamento; fato pecaminoso porque envolveu engano intencional
* A questão radical: a lei precisa confiar no subterrâneo jogo de enganos
* A verdadeira questão não é se o final feliz cancela os truques pecaminosos
* É mais radical: e se a regra da lei só pode ser afirmada através de significados e atos perversos (pecaminosos)?
* E se, para governar, a lei tem que confiar no jogo subterrâneo de trapaças e decepções?
* Isto também é o que Lacan visa com sua proposição paradoxal //il n’y a pas de rapport sexuel
A variação judaica: Rachel sob a cama durante o ato sexual de Jacob com Leah
A história de Jacob, Rachel e Leah apresenta uma variação onde a dimensão fantasmatica é ainda mais palpável
Rachel, escondida sob a cama, faz os sons apropriados para que Jacob não perceba que está fazendo sexo com a irmã errada
A voz serve como suporte da dimensão fantasmatica, sustentando a ilusão necessária para o ato
Em Shakespeare, poderíamos imaginar Diana escondida sob a cama, sustentando a fantasia de Bertram com sua voz
A aparência em seu nível mais radical: fingir a transgressão para esconder sua ausência
O exemplo do marido que, após confessar um caso, tem que fingir que o caso continua para não dar à esposa o sinal errado
Ele deixa a casa por alguns dias, gerando a impressão errada de que o caso continua, enquanto na realidade fica com um amigo
A aparência em sua forma mais pura: ocorre não quando erguemos uma tela enganadora para ocultar a transgressão
Ocorre quando fingimos que há uma transgressão a ser ocultada
A fantasia como semblante: não a máscara, mas a ideia do que está por trás da máscara
Não é primariamente a máscara que esconde o Real por baixo, mas a fantasia do que está escondido por trás da máscara
A fantasia masculina fundamental da mulher não é sua aparência sedutora, mas a ideia de que esta aparência deslumbrante oculta algum mistério imponderável
O semblante é a construção que sustenta a possibilidade do desejo, não mero véu sobre uma verdade pré-existente