GABRIEL, Markus; ŽIŽEK, Slavoj. Mythology, Madness, and Laughter: Subjectivity in German Idealism. London/New York: Continuum, 2009.
Não-Eu primariamente não como objeto abstrato de contemplação distanciada, mas como Gegenstand, isto é, aquilo que se põe contra, como obstáculo ao esforço do Eu.
Distinção entre Objekt e Gegenstand como distinção entre objeto contemplado e objeto que resiste, deslocando o problema para a dimensão prática.
Objeto definido como obstáculo ao esforço tético do sujeito, isto é, ao esforço de pôr e efetivar-se no mundo.
Passividade do sujeito diante do objeto frustrante definida como pathic, marcada por uma tonalidade afetiva e sofrida própria do embate com a resistência.
Experiência de obstáculo possível apenas quando o sujeito está orientado para fora, empurrando para fora em seu esforço prático, pois somente um sujeito em investimento ativo pode ser frustrado.
Posição, no interior do Eu absolutamente ponente, de um Eu finito e de um não-Eu como divisíveis, delimitando-se reciprocamente, segundo a fórmula em que se opõe no Eu um não-Eu divisível ao Eu divisível.
Divisibilidade como condição formal do recorte mútuo, em que ambos os polos são postos como repartíveis e limitáveis.
Limitação mútua como estrutura interna ao Eu absoluto, sem que isso elimine o caráter efetivamente frustrante do não-Eu para o Eu finito.
Proximidade e distância entre
Fichte e
Hegel discerníveis na diferença entre suas noções de limitação, apesar de partilharem a intuição de que limitação e verdadeira infinitude constituem uma mesma constelação.
Em
Hegel, sobreposição entre infinitude verdadeira e autolimitação desenvolvida como auto-relação, em que a relação ao outro coincide com relação a si, definindo a estrutura elementar da vida.
Vida definida por auto-relação que inclui o outro como momento interno, de modo que o outro não aparece como mera exterioridade.
Ilustração contemporânea pelo problema biológico da emergência de um organismo distinto, deslocando a questão da interação para a gênese da distinção.
Problema decisivo formulado como surgimento de uma entidade autoidêntica a partir do entorno, e não como simples adaptação ao entorno já dado.
Membrana celular como figura paradigmática da constituição do limite que separa dentro e fora, instaurando o próprio espaço em que a adaptação se torna possível.
Questão principal como gênese do algo que deve adaptar-se, e não como explicação de como algo já dado se adapta.
Em
Fichte, vínculo entre infinitude e limitação pensado de modo inteiramente distinto, já que a infinitude é infinitude atuante, isto é, infinitude do engajamento prático do sujeito.
Infinitude definida como esforço incessante do sujeito, e não como estrutura lógico-ontológica de auto-relação vital.
Diferença entre animal e homem na experiência do limite: o animal pode ser frustrado, mas não experimenta seu estado como limitação propriamente dita.
Animal simplesmente constrangido ao limite, com limite externo e, por isso, invisível a partir de seu horizonte.
Ausência de consciência de limitação porque o horizonte do animal não inclui a possibilidade de localizar-se como limitado.
Homem experimentando sua própria situação como frustrantemente limitada, e essa experiência sendo sustentada por um esforço infinito de romper o limite.
Infinitude atuante fundada diretamente na experiência da finitude, de modo que a finitude não é apenas constatação, mas ferida que convoca a ultrapassagem.
Limitação como autolimitação no sentido preciso de que ela corta por dentro a identidade do sujeito, finitando-o e frustrando-o.
Solução proposta por Pierre Livet pela referência a outro Eu como ponto externo relativo a um Eu singular, preservando, porém, a pertença ao mesmo tipo de círculo reflexivo de autoposição.
Outro Eu como referência externa para um Eu singular, experimentada como núcleo opaco e impenetrável.
Não exterioridade absoluta, pois o outro Eu não é estranho ao movimento de autoposição, sendo apenas outro círculo do mesmo tipo.
Fundação da necessidade a priori da intersubjetividade por meio dessa exterioridade relativa, em que o externo não é coisa, mas outra subjetividade.