(WJAMES1943)
(De “The Dilema of Determinism”, in The Will to Believe, pag. 150-154.)
Que professa o determinismo?
Professa que aquelas partes do universo já assentes designam e decretam em absoluto o que serão as outras partes. O futuro não tem possibilidades ambíguas escondidas nas suas entranhas: a parte a que chamamos o presente é compatível apenas com uma totalidade. Qualquer outro complemento futuro diferente do fixado desde a eternidade é impossível. O todo está em cada parte e em todas as partes e funde-as com o resto numa unidade absoluta, um bloco de ferro que é impossível dobrar.
“With earth’s first clay they dit the last man knead, > And there of the last harvest sowed the seed. > And the first morning of creation wrote > What the last dawn of reckoning shall read”. 1)
O indeterminismo, pelo contrário, diz que as partes exercem uma certa ação solta umas sobre as outras, de modo que o assentamento de uma delas não determina necessariamente o que serão as outras. Admite que as possibilidades podem estar em excesso das actualidades e que as cousas ainda não reveladas ao nosso conhecimento podem realmente, em si próprias, ser ambíguas. De dois futuros alternativos que nós concebamos, ambos podem agora ser realmente possíveis; e um deles torna-se impossível apenas no momento preciso em que o outro o exclue por ele próprio se tornar real. O indeterminismo nega assim que o mundo seja uma unidade inflexível de fato. Diz que existe um certo pluralismo fundamental nele; e dizendo assim, corrobora a nossa usual e não sofisticada visão das cousas. A essa visão, as actualidades parecem flutuar num mar mais vasto de possibilidades, de onde são escolhidas; e, o indeterminismo diz que, em algum logar, tais possibilidades existem e formam uma parte da verdade.
O determinismo, pelo contrário, afirma que não existem em nenhum logar e que a necessidade por um lado e a impossibilidade pelo outro são as únicas categorias do real. As possibilidades que não conseguem ser realizadas são, para o determinismo, puras ilusões: elas nunca foram, de forma alguma, possibilidades. Não há nada incoado, diz ele, neste nosso universo, tudo o que existiu ou existe ou existirá nele tem virtualmente ali existido desde a eternidade. A nuvem de alternativas com que os nossos espíritos acompanham esta massa de actualidade é uma nuvem de decepções rasas, ás quais o único nome que legítimamente lhes pertence são “impossibilidades”.
A conclusão, ver-se-á, é perfeitamente clara, e nenhuma terminologia encomiástica a pode denegrir ou apagar. A verdade deve ficar com um lado ou com o outro, e o ficar com um lado torna o outro falso.
A questão relaciona-se unicamente com a existência de possibilidades, no sentido estrito da palavra, como cousas que podem, mas não precisam ser. Ambos os lados admitem que uma volição, por exemplo, aconteceu. Os indeterministas dizem que a outra volição podia ter acontecido em seu logar: os deterministas protestam que nada podia ter acontecido em seu logar. Agora, poderá a ciência ser chamada para nos dizer qual destas duas contradições, que se alvejam uma á outra, está certa? A ciência professa não tirar conclusões senão as baseadas em assuntos positivos, cousas que até agora aconteceram; mas como pode qualquer espécie de garantia, de que alguma cousa até agora aconteceu, dar-nos a mínima parcela de informação quanto a se outra cousa pudesse ou não pudesse ter acontecido em seu logar? Só os fatos podem ser provados com outros fatos. Com cousas que são possibilidades e não fatos, os fatos nada têm que ver. Se não temos nenhum outro testemunho que o testemunho dos fatos existentes, a “questão — possibilidade” deve permanecer um mistério que nunca será esclarecido.
E a verdade é que praticamente os fatos pouco valor têm para nos fazerem deterministas ou in deterministas. O que é bastante certo é que nós fazemos um floreado a citar fatos desta maneira ou daquela; e se somos deterministas, falamos acerca da infalibilidade com que podemos predizer a conduta uns dos outros; ao passo que se somos indeterministas, damos grande ênfase ao fato de que é justamente por não podermos prever a conduta uns dos outros, quer na guerra, na governação ou em qualquer das grandes e pequenas intrigas e negócios dos homens, que a vida é um jogo tão intensivamente ansioso e arriscado. Mas quem não vê a desgraçada insuficiência deste chamado testemunho objetivo, nos dois lados? Aquilo que enche as lacunas do nosso espírito é qualquer cousa não objetiva, não externa. O que nos divide em homens de possibilidade e homens de anti-possibilidade são fés diferentes ou postulados — postulados de racionalidade. A este homem, o mundo parece mais racional com possibilidades nele, — àquele homem, mais racional com as possibilidades excluídas; e falemos o que falarmos acerca de nos termos que render à evidência, o que nos faz monistas ou pluralistas, deterministas ou indeterministas é, no fundo, sempre algum sentimento como este.
A fortaleza do sentimento determinista é a antipatia pela ideia do acaso. Logo que começamos a falar em indeterminismo aos nossos amigos, deparamos com alguns deles a abanar a cabeça. Esta noção de possibilidade alternativa, dizem eles, esta admissão de que qualquer cousa de entre várias cousas pode acontecer, é, apesar de tudo, um nome eufemístico para o acaso; e o acaso é, de qualquer modo, uma noção daquilo que nenhum espírito são pode, nem por nm instante, tolerar no mundo. Que é isso, perguntam eles, senão tolice idiota e descarada, negação da inteligibilidade e da lei? E se a mais leve partícula do acaso existe em qualquer parte, que é que impede toda a estrutura de, conjuntamente, desabar, as estrelas de saírem das suas órbitas e o caos de recomeçar o seu reinado de confusão?
Observações desta espécie sobre o acaso põem rapidamente fim na discussão. Eu já vos disse que o “acaso” era uma palavra que eu desejava conservar e usar. Examinemos então o que ela significa e vejamos se é assim para nós um fantasma tão terrível. Eu creio que agarrando no cardo com firmeza despojá-lo-emos do ferrão.
O ferrão da palavra “acaso” parece estar na suposição de que ela significa alguma cousa de positivo e de que se alguma cousa acontece por acaso, deve necessariamente tratar-se de qualquer cousa de uma espécie intrinsecamente irracional e prepóstera. Mas o acaso não significa nada disso. É ura termo puramente negativo e relativo 2), que não nos dá nenhuma informação acerca daquilo de que é predicado, excepto que acontece andar desligado de outra qualquer cousa — não controlado, apoiado ou necessitado por outras cousas, antes da sua própria presença actual. O que eu digo é que não nos informa nada acerca do que uma cousa pode ser em si própria para se chamar “acaso”. Pode ser cousa má, pode ser cousa boa. Pode ser lucidez, transparência, aptidão encarnada, condizendo com todo o sistema das outras cousas, quando tenha acontecido, dum modo perfeito não imaginável. Tudo o que significamos chamando-lhe acaso é que não é garantido, que podia também acorrer de outro modo. Porque o sistema das outras cousas não tem presa positiva sobre a cousa-acaso. A sua origem é, de certo modo, negativa: escapa-se e diz, Mãos ao ar! vindo, quando vem, como uma dádiva generosa ou não vindo absolutamente.