Simone Weil (1909-1943)
Giovanni Reale
A Vida e as Obras
Simone Weil condensou em sua trajetória biográfica uma multiplicidade de identidades radicais — filósofa, sindicalista, operária, guerrilheira camponesa, exilada e resistente — que ela viveu corporalmente até o limite extremo da morte por inanição.
Nazareno Fabbretti, em Simone Weil: irmã dos escravos, abre o livro com dois julgamentos contrastantes:
Gabriel Marcel a chamou de “testemunha do absoluto”; Charles De Gaulle, diante de um projeto elaborado por ela para enfermeiras na linha de frente, a descartou com a sentença: “Esta é louca!”
Weil morreu em solidariedade real e ideal com os judeus incinerados nos campos de concentração nazistas
Nasceu em Paris em 3 de fevereiro de 1909, filha de um médico alsaciano judeu e agnóstico e de mãe de origem russa
Cresceu em clima de “completo agnosticismo” familiar; no liceu foi aluna de Ernest-René Le Senne; estudou na École Normale Supérieure, onde obteve o título de agrégée em filosofia em 1931
Durante os anos de estudo, conforme recorda o padre Joseph-Marie Perrin — que travou com ela muitos colóquios —, Weil manifestou-se vivamente antirreligiosa e entrou em contato com o movimento sindicalista e com as ideias da revolução proletária.
Seu rigor era tal que chegou a romper com uma colega que se convertera ao catolicismo
Atenta aos sofrimentos dos mais pobres, dividia seu salário de professora com os deserdados
Em 1934, decidiu viver a condição operária: entrou para trabalhar na Renault com o intuito de “compartilhar a situação dos últimos”
Em 1936, participou da Guerra Civil Espanhola do lado dos republicanos, aos quais, contudo, aparecia como uma “companheira incômoda”; queimou-se com óleo fervente e teve de deixar a frente de batalha
Com a Segunda Guerra Mundial em 1940, Weil deixou Paris, transferiu-se para Marselha e experimentou diversas formas de perseguição e trabalho duro antes de emigrar e morrer em Londres.
No Vale do Ródano, conheceu a dureza do trabalho agrícola; escreveu para os Cahiers du Sud
Foi presa sob acusação de gaullismo e interrogada longamente, com ameaça de ser encarcerada junto a prostitutas — ao que respondeu ao juiz querer conhecer esse ambiente, levando-o a mandá-la embora como louca inofensiva
Em 16 de março de 1942, embarcou com os pais para os Estados Unidos; em Nova York, viveu entre os mais pobres do Harlem
Chegou a Londres no final de novembro de 1942 e pediu para participar de missões perigosas movida pelo desejo de se sacrificar utilmente
Em abril de 1943 foi internada em hospital; transferida para o sanatório de Ashford, morreu em 24 de agosto de 1943
Suas obras apareceram postumamente, organizadas pelo padre Joseph-Marie Perrin e Gustav Thibon, com a colaboração de Albert
Camus
Escravidão em Nome da Força e Escravidão em Nome da Riqueza
Em Opressão e Liberdade, Weil diagnostica o abandono total do indivíduo a uma coletividade cega, em um mundo marcado pelo desequilíbrio monstruoso entre o ser humano e as condições da vida moderna.
“Jamais o indivíduo foi tão completamente abandonado a uma coletividade cega, jamais os homens foram mais incapazes, não só de submeter suas ações aos próprios pensamentos, mas até mesmo de pensar”
“Vivemos em um mundo onde nada está na medida do homem; onde há uma desproporção monstruosa entre o corpo do homem, seu espírito e as coisas que constituem atualmente os elementos da vida humana; onde, em uma palavra, tudo é desequilíbrio”
A sociedade tornou-se “uma máquina para comprimir corações e espíritos e para fabricar a inconsciência, a estupidez, a corrupção, a desonestidade e sobretudo a vertigem do caos”
Para Weil, a história humana é história do assujeitamento dos homens, com duas formas principais de opressão — a escravidão exercida em nome da força armada e a exercida em nome da riqueza transformada em capital — e uma terceira, nova e ameaçadora, em gestação.
A terceira forma seria a “opressão exercida em nome da função” — fruto maduro da divisão do trabalho e das especializações típicas do capitalismo
Diante dessa situação, Weil apela a uma obrigação eterna para com o ser humano enquanto tal, sem qualquer condição prévia: “[Este obrigação implica o dever de] restituir ao homem, isto é, ao indivíduo, o domínio que lhe cabe exercer sobre a natureza, sobre os instrumentos de trabalho, sobre a própria sociedade”
É preciso atentar para a “degradante divisão do trabalho” entre trabalho intelectual e trabalho manual
Em vez de abolir a propriedade privada, deve-se transformá-la em instrumento de trabalho livre e associado
“Não esqueçamos que queremos fazer do indivíduo, e não da coletividade, o valor supremo”
A verdadeira revolução consiste em tornar o homem fim — e não meio — da produção, estabelecendo que é a produção o meio, não o fim
Em Reflexões sobre as Causas da Liberdade e da Opressão Social: “O trabalho humano deve tornar-se o valor supremo, não por sua relação com o que produz, mas por sua relação com o homem que o executa”
O que Significa ser Revolucionário
Para Weil, Marx e seus movimentos não são suficientes para alcançar as finalidades emancipatórias, pois a “matéria social” deixada a si mesma produz novas escravidões e se transforma em falsa divindade opressora.
Também não é possível alinhar-se com os revolucionários que aguardam uma catástrofe feliz como cumprimento das promessas do Evangelho — posição que equivale a fatalismo e desinteresse por quem sofre no presente.
“Ser revolucionário significa invocar com seus desejos e ajudar com suas ações tudo aquilo que pode, direta ou indiretamente, aliviar ou levantar o peso que esmaga a massa dos homens, as cadeias que aviltam o trabalho, recusar as mentiras com as quais se quer mascarar ou desculpar a humilhação sistemática da grande maioria deles”
Assim entendida, a revolução é um ideal, um juízo de valor, uma vontade — e não uma interpretação da história ou do mecanismo social, embora pressuponha estudo sério e aprofundado da situação social
“O espírito revolucionário é tão antigo quanto a própria opressão, e durará tanto quanto ela, ou até mais”
Nós Estamos aos Pés da Cruz
A libertação da opressão social não equivale à salvação do homem nem à redenção de sua infelicidade constitutiva — o infeliz é aquele que experimenta a ausência de Deus e se sente coisa indigna no vórtice da grande máquina do universo.
A infelicidade é um engenhoso dispositivo da técnica divina para “fazer entrar na alma de uma criatura finita a imensidade da força cega, brutal e fria”
“A distância infinita que separa Deus da criatura se concentra inteiramente em um ponto para ferir a alma em seu centro”
Em O Amor de Deus, Weil escreve que a alma atingida no centro pela infelicidade “se debate como uma borboleta que é espetada viva com um alfinete num álbum”
A distância entre o infeliz e Deus espelha o próprio ato criador, no qual Deus se autolimitou para permitir que o criado existisse — e a salvação exige do homem o caminho inverso: a decreação, o aniquilamento do eu.
“A criação é, da parte de Deus, um ato não de expansão de si, mas de limitação, de renúncia. Deus com todas as suas criaturas é algo menos que Deus sozinho […]. Com o ato criador, negou a si mesmo, como Cristo nos ordenou negar a nós mesmos”
O aniquilamento do eu ocorre na sofrimento, na humilhação, na sujeição sofrida, no embrutecimento dos campos de concentração — um eu que se anula é um eu co-crucificado
Na Cruz, nessa aparente ausência de Deus, Deus está secretamente presente: “A Cruz é a nossa pátria”
É o grito de Cristo moribundo na Cruz — “Deus meu, por que me abandonastes?” — que convence Weil da divindade do cristianismo
“As religiões que apresentam uma divindade que exerce seu domínio onde quer que lhe seja possível são falsas. Mesmo que monoteístas, são idólatras”
Ao mistério da Cruz (“sofrimento perfeito”) está ligado o mistério da Trindade (“alegria perfeita”), mas “neste mundo nós estamos colocados, pela condição humana, infinitamente longe da Trindade, aos pés da Cruz”
“Em qualquer época, em qualquer país, onde quer que haja um sofrimento, a Cruz de Cristo é a sua verdade”
A diferença entre o mundo — onde sabemos que existe o mal — e Deus — que é bem — reside no fato de que o Onipotente é fraco; e é essa fraqueza que exerce sobre Weil uma força avassaladora de atração
Em Carta a um religioso: “Se o Evangelho omitisse qualquer referência à ressurreição de Cristo, a fé me seria mais fácil. A Cruz sozinha me basta”
A prova, o verdadeiro milagre, é para ela “a perfeita beleza dos relatos da paixão”, unidos a passagens de Isaías e de Paulo: “Se fez obediente até a morte e à morte de Cruz […]. Se fez maldição”
Lev Trótski — que Weil hospedou em sua casa — não podia compreendê-la: Cristo não é a força, é o contrário da força; e essa fraqueza é, para ela, o sinal mais indiscutível de sua divindade
Deus, para Weil, deve ser pensado como um mendigo: “Perpetuamente, Ele mendiga junto a nós esta existência que nos doa. Ele a doa para mendiga-la”
“No verdadeiro amor não somos nós que amamos os desventurados em Deus, é Deus que os ama em nós […]. A compaixão e a gratidão provêm de Deus, e quando são transmitidas por um olhar, Deus está presente no ponto em que os dois olhares se encontram”
A Presença de Cristo
Simone Weil recusou o batismo até o fim, embora o padre Perrin afirme que ela acabou sendo batizada por sua amiga Simone Deitz, com água de torneira, no hospital.
Nazareno Fabbretti observa que “seu breve, intenso, apaixonado caminho de vida e pensamento em direção ao absoluto, em direção a Cristo, teve o carisma de uma radical pobreza de sinais exteriores: o quarto de uma clínica, a água de uma torneira, uma batizante leiga”
A vida de Weil consumiu-se no amor ao próximo e na espera de um sinal de Deus
Em Espera de Deus escreve: “Não depende da alma crer na realidade de Deus, se o próprio Deus não lhe revela essa realidade”
Em 1935, numa aldeia portuguesa de pescadores, Weil assistiu a uma procissão durante a festa do padroeiro e experimentou uma certeza fulminante sobre o caráter do cristianismo.
“Ali me foi impresso para sempre o sinal da escravidão, aquele que os romanos imprimiam com ferro em brasa na testa de seus escravos mais desprezados. Desde então sempre me considerei uma escrava”
“As esposas dos pescadores faziam em procissão o giro dos barcos segurando velas, e cantavam cantos sem dúvida muito antigos, de uma tristeza dilacerante […]. Ali, de repente, tive a certeza de que o cristianismo é por excelência a religião dos escravos, que os escravos não podem deixar de aderir a ele, e eu com eles”
Em 1937, passou “dois dias maravilhosos” em Assis; na capela da Porciúncula, onde “são Francisco rezou tantas vezes”, algo mais forte que ela a forçou, pela primeira vez na vida, a se ajoelhar
Em 1938, em Solesmes, seguiu as cerimônias da Paixão e teve pela primeira vez a ideia de uma virtude sobrenatural dos sacramentos, ao ver o rosto de um jovem inglês transfigurado após a comunhão
Esse jovem — o “mensageiro” — apresentou-lhe o poema Amor, do poeta inglês George Herbert (1593—1633), que Weil aprendeu de cor e recitava durante as violentas crises de enxaqueca
“Acreditava estar recitando-o apenas como um belo poema, enquanto, sem que eu soubesse, aquela recitação tinha a virtude de uma oração. Foi justamente enquanto o estava recitando que Cristo […] desceu e me tomou”
“Às vezes também, enquanto recito o Pai Nosso ou em outros momentos, Cristo está presente em pessoa, mas com uma presença infinitamente mais real, mais tocante, mais clara, mais cheia de amor do que a primeira vez em que me tomou”
“Nos meus raciocínios sobre a insolubilidade do problema de Deus, jamais havia previsto essa possibilidade de um contato real, de pessoa a pessoa, aqui embaixo, entre um ser humano e Deus […]. Apenas senti, através do sofrimento, a presença de um amor análogo ao que se lê no sorriso de um rosto amado”