Voltaire

O Significado da Obra e da Vida de Voltaire

Voltaire representa o emblema da cultura iluminista graças à sua prosa sarcástica, elegante e apaixonada pela justiça e pela tolerância.

François-Marie Arouet, conhecido pelo pseudônimo de Voltaire, nasceu em Paris em 1694, filho de um rico notário, e recebeu formação inicial do abade de Châteauneuf, seu padrinho.

Uma aventura amorosa na Holanda com uma jovem protestante forçou o retorno de Voltaire a Paris, onde circulou textos irriverentes contra o Regente e foi exilado brevemente em Sully-sur-Loire.

O reconhecimento literário de Voltaire se consolidou com o sucesso de suas tragédias e poemas épicos na década de 1720.

Uma ofensa do cavaleiro de Rohan levou Voltaire a ser espancado e novamente encarcerado na Bastilha, o que o forçou ao exílio na Inglaterra entre 1726 e 1729.

O grande resultado do período inglês foram as 24 Cartas sobre os Ingleses, publicadas em inglês em 1733 e em francês como Lettres philosophiques em 1734, obra que confrontou as liberdades inglesas com o absolutismo político francês.

Julgamentos sobre Descartes, Newton, Bacon e Locke

Descartes merece reconhecimento por ter destruído quimeras milenares e por ter ensinado os homens a raciocinar, embora sua filosofia seja considerada apenas um esboço.

Newton, ao contrário, é apresentado como o responsável por pagar com boa moeda, sendo sua filosofia considerada uma obra-prima em oposição ao esboço cartesiano.

Bacon é identificado como o pai da filosofia experimental, tendo apontado o caminho para a natureza antes mesmo de conhecê-la plenamente.

Locke é descrito como o mais profundo e metódico dos espíritos, o lógico mais exato, tendo fundado o conhecimento inteiramente nos sentidos.

Após retornar à França em 1729, Voltaire defendeu a memória da atriz Adrienne Lecouvreur, a quem foi negada sepultura em terra consagrada, contrastando esse tratamento com a homenagem prestada pelos ingleses à atriz Anne Oldfield em Westminster.

As Lettres philosophiques foram condenadas pelo Parlamento e queimadas na corte da Cúria Parlamentar, obrigando Voltaire a fugir de Paris e refugiar-se no Castelo de Cirey, junto à marquesa de Châtelet.

Reconciliado com a Corte e apoiado pela favorita Madame de Pompadour, Voltaire foi nomeado historiógrafo da França pelo rei e eleito membro da Academia em 1746.

Após a morte de Madame de Châtelet, Voltaire partiu para Berlim a convite de Frederico da Prússia, período que terminou com sua detenção após três anos.

O Essai sur les moeurs representou uma ruptura com a historiografia providencialista de Bossuet, substituindo a história dos reis e batalhas por uma história das civilizações e dos costumes.

O caso de Jean Calas, negociante protestante injustamente executado em 1762 sob acusação de ter assassinado o filho para impedir sua conversão ao catolicismo, motivou a escrita do Tratado sobre a Tolerância.

Em 1766, o cavaleiro de la Barre foi condenado à morte por impiedade e seu corpo foi queimado junto com um exemplar do Dicionário Filosófico, episódio que Voltaire denunciou com indignação.

Horrores Gerados pela Intolerância

A execução do cavaleiro de la Barre ilustra a crueldade dos julgamentos movidos pelo fanatismo religioso na metade do século XVIII.

A atividade de Voltaire não cessou na velhice: entre 1767 e 1776 publicou diversas obras filosóficas e literárias, e em 1778 retornou a Paris após vinte e oito anos de ausência para a representação de sua última comédia, Irène, sendo aclamado por multidões.

Segundo André Maurois, a influência de Voltaire sobre os homens de seu tempo e dos séculos seguintes foi maior do que a de qualquer outro escritor, pela combinação de inteligência extraordinária, curiosidade universal e clareza expositiva.

Defesa do Deísmo contra o Ateísmo e o Teísmo

A existência de Deus é, para Voltaire, uma certeza racional e não um artigo de fé, fundamentada na ordem do universo como prova irrefutável de uma inteligência criadora.

Uma Mirável Inteligência Criou a Admirável Máquina do Mundo

A ordem do universo não pode derivar do acaso, pois há seres inteligentes nele e nenhuma prova sustenta que o simples movimento produza inteligência.

O deísta admite a existência de Deus, mas reconhece que ignora como Deus pune, favorece ou perdoa, recusando-se a aderir a qualquer seita particular.

O Deísmo como a Religião Mais Antiga e Difundida

A religião do deísta é apresentada como a mais antiga e universal, fundada na simples adoração de um ser supremo anterior a todos os sistemas religiosos do mundo.

Em nome do deísmo, Voltaire rejeita o ateísmo como uma concepção falsa e perigosa, especialmente nos que governam.

O Ateísmo é uma Concepção Falsa e Perigosa

O ateísmo é considerado um monstro perigoso tanto para os que governam quanto para os estudiosos, sendo quase sempre fatal à virtude.

A existência de Deus é um fato de razão, enquanto a fé consiste em crer no que parece falso ao intelecto, sendo a superstição tudo o que vai além da adoração de um ser supremo.

As Superstições de que Estão Carregadas as Religiões Positivas

As religiões positivas são, em sua quase totalidade, acúmulos de superstições, e o supersticioso está para o fanático assim como o escravo está para o tirano.

A decisão sobre qual religião é supersticiosa pertence à razão, que precisa penetrar em número suficiente de cabeças para conseguir desarmar a força.

Contra os Erros daquele Sublime Misantropo que foi Pascal

As Cartas Filosóficas, em suas 25 cartas, abordam desde o pluralismo religioso inglês e o regime de liberdade político até a filosofia experimental e a literatura, culminando nas Remarques sur Pascal, que causaram verdadeiro escândalo.

O ataque a Pascal equivalia a minar o ponto mais forte da tradição cristã francesa, e Voltaire o empreendeu respeitando o gênio e a eloquência do adversário enquanto combatia algumas de suas ideias.

O Erro de Pascal

Pascal atribui à essência da natureza humana o que pertence apenas a alguns homens, cometendo o erro fundamental de identificar condições particulares com a condição universal do ser humano.

O mistério cristão não é condição indispensável para a compreensão do homem, que tem seu lugar na natureza como mistura de bem e mal, superior aos animais e possivelmente inferior a outros seres.

O Homem não é Deus: é Mistura de Mal e Bem

O homem é dotado de paixões para agir e de razão para dirigir suas ações, sendo os chamados contrastes os ingredientes necessários que constituem esse composto.

A Inconveniência da Aposta Pascaliana

A célebre aposta de Pascal sobre a existência de Deus é julgada por Voltaire como desrespeitosa e pueril, pois o interesse em crer em algo não constitui prova de sua existência.

Contra Leibniz e seu Melhor dos Mundos Possíveis

Voltaire rejeita tanto o pessimismo obsessivo de Pascal quanto o otimismo ilusório de Leibniz, reconhecendo que o mal existe no mundo sem que isso justifique nem a desesperança nem a justificação forçada de tudo.

As Ilusórias Justificativas de Pangloss

Candido ou o Otimismo, publicado em 1759, é o grande conto filosófico em que Voltaire destrói a filosofia otimista que justifica tudo e assim se proíbe de compreender qualquer coisa.

A Ironia contra os Argumentos Metafísicos à Leibniz

As guerras são descritas com ironia feroz para ridicularizar as justificativas metafísicas do otimismo leibniziano diante da violência real.

A Ideia do Melhor dos Mundos Possíveis não Teme Desmentidos

Pangloss mantém o otimismo mesmo diante das doenças venéreas rastreadas até os companheiros de Colombo, justificando-as como “ingrediente necessário” do melhor dos mundos possíveis.

Após todas as tribulações, a sabedoria do velho turco que cultiva sua terra com os filhos serve de lição final aos filósofos: o trabalho afasta a tédio, o vício e a necessidade.

Os Fundamentos da Tolerância

A tolerância encontra seu fundamento teórico na limitação do conhecimento humano, demonstrada por Gassendi e Locke, que mostraram ser impossível conhecer com as próprias forças os segredos do Criador.

Nenhum teólogo ou tomista ou escotista pode sustentar com absoluta certeza a verdade de sua posição, pois em todas as ciências os homens estão sujeitos ao erro — e por isso a tolerância recíproca é uma necessidade racional.

A intolerância se entrelaça à tirania, sendo o tirano aquele soberano que não conhece outras leis senão seu capricho e que se apropria dos bens de seus súditos para arruinar os vizinhos.

O Caso Calas e o Tratado sobre a Tolerância

O processo contra Jean Calas, condenado com base no fanatismo religioso sem provas suficientes, é apresentado por Voltaire como exemplo máximo de injustiça judicial gerada pela intolerância.

O Infame Processo contra a Família Calas

Treze juízes se reuniram diariamente para conduzir o processo, em que a religião “traída” substituiu as provas, resultando numa condenação decidida pela maioria de um único voto.

As Doenças do Espírito Só Podem ser Curadas pela Razão

O melhor meio de diminuir o número de fanáticos é confiar essa doença do espírito ao regime da razão, que “lentamente mas infalivelmente ilumina os homens”.

O direito natural é aquele que a natureza indica a todos os homens, e o grande princípio universal de todo direito humano é: não faças ao outro o que não gostarias que te fizessem.

O Grande Princípio Universal: Não Faças o que não Gostarias que te Fizessem

O direito da intolerância é julgado absurdo e bárbaro — o direito das tigres —, e ainda mais horrível do que o delas, pois “as tigres só se despedaçam para comer, e nós nos exterminamos por causa de parágrafos”.