6 Consequências da hermenêutica

VATTIMO, GIANNI. ESSERE E DINTORNI. Milano: LA NAVE DI TESEO, 2018.

1. Cinquenta anos após Verdade e método, a hermenêutica reencontrou suas raízes bíblicas e jurídicas e deixou em segundo plano a ênfase gadameriana na experiência estética como experiência autêntica de verdade, porque a reivindicação de verdade da arte, hoje solidamente estabelecida e formulada pelo próprio Gadamer como acontecimento que funda comunidade e estilos de vida compartilhados por meio de experiências corais, estendida às artes de massa e até aos grandes shows de rock em consonância com o apelo benjaminiano à politização da arte, já não promete desenvolvimentos significativos e passa a valer como sinal emblemático da vocação política da hermenêutica.

2. A atualidade ardente da hermenêutica concentra-se hoje na religião e na política, reconduzindo-a às suas origens históricas como teoria e prática da interpretação de leis e escrituras sagradas ligada a problemas de hierarquia e poder, já que o multiculturalismo nascido da crítica ao colonialismo europeu desfaz o pacto de boa vizinhança entre saberes hermenêuticos e ciências positivas, põe em questão a ciência e a técnica como expressões de uma cultura ocidental que os países pós-coloniais recusam identificar com a única cultura humana, e expõe as Igrejas, sobretudo a católica, ao paradoxo de que o apelo à autoridade da Tradição contra os fiéis é uma arma hermeneuticamente de dois gumes, pois a própria Escritura é obra da Igreja e a Tradição é a opinião comum dos fiéis reunidos na ecclesia, questões antigas que a revolução midiática torna mais pesadas e visíveis que a revolução de Gutenberg.

3. Diante das pretensões de verdade absoluta das Igrejas e das autoridades políticas dominantes, conscientes ou não de serem máscaras ideológicas de interesses materiais, e que, pela polêmica contra o niilismo e o relativismo e pela obsessão com o terrorismo, convergem para o pensamento único e para um crescente disciplinamento totalitário da sociedade informatizada e globalizada, cabe à hermenêutica a dupla tarefa de mostrar criticamente, fora de todo dogmatismo, que pretensões de verdade são sempre pretensões de poder e de demonstrar que é possível uma convivência humana racional sem a verdade, no respeito à pluralidade de valores e visões de mundo, tarefa análoga à dos movimentos ecológicos, uma vez que a continuidade da vida exige manter aberto o evento do ser, isto é, que a conversação continue, e que a imposição de uma Verdade única ameaçaria a vida humana tanto quanto o fim do ar respirável e da água potável.

4. A hermenêutica pode servir também à reivindicação de uma racionalidade que não tenha como ideal diretivo a conquista da única verdade nem pretenda arrastar pelos cabelos para fora da caverna das opiniões quem resiste a ela, consequência radical da crítica heideggeriana da verdade como espelhamento de uma ordem objetiva dada e boa que, desde o platonismo, orientou os ideais de unidade das opiniões no verdadeiro, de repouso dos afetos e de fim da ânsia do devir na Eternidade imóvel, pois no acabamento da metafísica essa unidade do gênero humano tornou-se real como disciplina universal e controle absoluto do Poder sobre as vidas, convertendo todo conflito em mero problema de ordem pública sem legitimidade e todo dissenso, mesmo o mais pacífico, em terrorismo.

5. A exigência de que a hermenêutica apresente um ideal de vida alternativo ao ideal mortífero da metafísica, acompanhada da acusação de querer restabelecer a guerra de todos contra todos anterior ao contrato social, funciona como arma das autoridades para consolidar seu poder, e a única resposta cabível é a unidade de teoria e práxis propugnada por Marx, ainda que num contexto demasiado cientificista, porque uma filosofia capaz de definir em termos puramente teóricos um ideal de humanidade não metafísica seria mais uma forma de platonismo, isto é, de metafísica do ser pensado como estrutura estável e fonte de racionalidade autoritária.

6. Embora carente de um desenvolvimento mais sistemático, a hermenêutica revela-se envolvida, muito além de disputas puramente teóricas, com aquilo que Hegel chamava na Estética de condição geral do mundo, pois a crítica da noção metafísica de verdade a faz colidir com o autoritarismo político e religioso que se impõe com força crescente na globalização econômica regida pelo ideal do mercado, cujas crises reclamam, como aspecto do próprio pensamento único, uma disciplina política mundial cada vez mais vigilante.

7. O deslocamento do foco da hermenêutica da reivindicação das experiências extrametódicas de verdade para a crítica político-religiosa obedece a uma lógica própria e não a preferências arbitrárias, pois, diante do enrijecimento da disciplina social globalizada e da acusação de cripto-terrorismo dirigida a quem sustenta que não há fatos, só interpretações, a hermenêutica toma consciência de sua vocação niilista e de seu caráter não de teoria, mas de evento, como na Kehre heideggeriana, tornando-se filosofia da história no duplo sentido do genitivo, leitura da história que é ela mesma história e só pode legitimar sua preferibilidade pela experiência do que acontece, de modo que assumir a própria historicidade significa empenhar-se concretamente na luta para manter aberta a conversação da qual depende o próprio ser, o que faz pensar que talvez não seja mera fantasia do poder a ideia de que os hermenêuticos são perigosos para quem quer conservar a todo custo a ordem existente.