VATTIMO, GIANNI. ESSERE E DINTORNI. Milano: LA NAVE DI TESEO, 2018.
1. A hermenêutica não é uma disciplina acadêmica entre outras, como a estética ou a ética, nem apenas uma escola ou corrente de pensamento, como o positivismo ou o historicismo, de modo que seu futuro consiste também na relação dialética entre esses dois sentidos, numa oscilação dificilmente resolúvel, podendo-se delineá-lo como aproximação crescente entre ambos, pois a hermenêutica como disciplina só tem futuro se se reconhecer como perspectiva filosófica geral e não como parte da filosofia, o que já caracterizou seu passado moderno desde Schleiermacher, quando a questão da compreensão razoável dos textos implicou a tendência a identificá-la progressivamente com uma ontologia geral, já que o preceito de compreender o autor tão bem quanto ele e depois melhor do que ele não é mero chiste, pois o texto tem uma vida enraizada no tecido histórico a que pertencem o autor e o leitor de séculos depois, e a Wirkungsgeschichte gadameriana não se limita à fortuna histórica do texto, abrindo-se necessariamente para a História em geral, que Heidegger chamará história do ser, sendo a história da hermenêutica como disciplina a transformação cada vez mais explícita da filosofia da interpretação numa ontologia geral, o que leva a perguntar o que pode acontecer de novo à hermenêutica depois que, com Heidegger, Pareyson, Ricoeur, Gadamer e Rorty, assumiu a forma da única ontologia possível, e também que futuro ela pensa, já que, como ontologia, implica uma espécie de filosofia da história, um projeto e um fio condutor na história em que está implicada, e a renúncia à metafísica das essências eternas a obriga a figurar uma espécie de escatologia, ainda que Verdade e método tenha prudentemente evitado desenvolver uma filosofia da história e Gadamer, com a mesma prudência antimetafísica, tenha evitado radicalizar a tese de que o ser que pode ser compreendido é linguagem, mantendo implicitamente até o fim, salvo concessões em conversa no centenário de Heidelberg em 2000, a distinção entre ciências do espírito e da natureza, sem contudo deter o processo de ontologização que marca a história do tema de Schleiermacher a Heidegger e ao próprio Gadamer, processo cujo prosseguimento parece ser o futuro da hermenêutica como conjunto de textos, especulações teóricas e comunidade de estudiosos, a ponto de a batalha de ideias em torno da interpretação, até os paradigmas de Kuhn e as recentes polêmicas sobre o realismo, ampliar-se até exigir verdadeiro engajamento político ou ao menos existencial de quem leva a hermenêutica a sério, sendo sua história uma história de excesso, de transgressão de limites e de contínuo transbordamento, da reflexão sobre a compreensão de textos do passado à filosofia geral da existência e à única ontologia possível, sem que isso conduza a um desfecho idealista, pois, se não se quiser cortar as raízes heideggerianas de Gadamer, o é predicado do ser não tem sentido descritivo de proposição metafísica, sendo a linguagem em que o ser consiste o diálogo que sempre já somos, o Ereignis que acontece mas não é, de modo que o futuro da hermenêutica está em tornar-se cada vez mais explicitamente uma filosofia da práxis, não no sentido de aperfeiçoar-se reconhecendo-se como tal, já que não há objeto do pensamento hermenêutico que uma hermenêutica da práxis devesse compreender, descrever ou representar cada vez melhor.
2. Se fosse Paulo falando no Areópago, seria este o momento em que os ouvintes se retirariam incrédulos ou indignados, reação areopagítica semelhante à intolerância crescente da filosofia acadêmica de todo tipo contra a hermenêutica em seu sentido mais radical, pois não se ultrapassam impunemente os limites da boa educação acadêmica, fundada na descritividade metafísica e na distinção entre sujeito e objeto, the world out there que se descreve, analisa e julga, distinção que justamente nas ciências do espírito não se sustenta e é a primeira a romper os diques pelos quais a hermenêutica transborda com o efeito de um ato terrorista, o que torna menos enfáticas as páginas de Ecce homo em que Nietzsche, pobre professor de grego aposentado prematuramente em Basileia, se descreve como perigo mortal para o mundo, autorizando falar de uma vocação terrorista da hermenêutica, tanto mais cogente quanto mais cresce a integração metafísica do mundo e o deserto, num mundo tardo-metafísico marcado pelo triunfo da técnica, em que ciência e poder se sustentam mutuamente e os cientistas são, como na Dialética do esclarecimento, altos funcionários integrados na administração total, e que só pode considerar terroristas os que pensam, com Nietzsche, que não há fatos, só interpretações, desmascarando a cumplicidade do cientificismo metafísico com os poderes constituídos.
3. A transformação do mais inocente dos ofícios, como a hermenêutica sempre quis ser, numa espécie de central terrorista digna da atenção das polícias, primeiro a do pensamento, a epistemologia analítica, depois a das classes dominantes, como o neorrealismo da grande imprensa internacional, e a dos governos, em políticas culturais conformes à ordem e avaliações neutras da produtividade científica de indivíduos e universidades com critérios descaradamente imperiais, a começar pelo privilégio exclusivo do inglês, acompanha o culminar da metafísica no Gestell, redução do ser ao ente totalmente submetido às formas da manipulação calculadora, que marginaliza toda memória do incalculável e no qual, segundo a afirmação ambígua e quase única de Identidade e diferença, se dá também um primeiro lampejo do Ereignis, abertura otimista conforme o verso de Hölderlin segundo o qual onde cresce o perigo cresce também o que salva, explicada pela perda, no Gestell, dos traços metafísicos de sujeito e objeto conferidos ao homem e ao mundo, o que admite duas leituras, a do Gestell como lugar de superação do humanismo, do sujeito proprietário e das oposições entre consciência e coisas ou espírito e natureza, e a de que justamente o Dasein, despojado de sua humanitas e reduzido a entidade calculável, desperta para a lembrança do esquecimento do ser, já que em todo Heidegger o que prepara a superação, ainda que como Verwindung, da metafísica é o culminar da redução do ente a cálculo e manipulabilidade técnica, preparação que, não sendo puro acontecer objetivo, pode ser pensada como mudança que ocorre ao Dasein na condição do Gestell, como um sofrimento que desperta para a lembrança do esquecimento a que este lança, assim como na origem de Ser e tempo, próxima do espírito da vanguarda e do debate entre ciências do espírito e da natureza, havia uma revolta contra a desumanização da existência produzida pela grande racionalização do trabalho social, quando nasciam Fiat e Ford, e a hermenêutica, impregnada de espírito histórico e de memória do passado, toma plena consciência de sua inspiração subversiva à medida que as ciências da natureza se integram na administração total, como mostra a dificuldade de defender as humanidades nos programas de ensino e no financiamento da pesquisa nos países industrializados, tornando-se voz de uma categoria intelectual progressivamente marginalizada na hierarquia acadêmica e levada a partilhar, também politicamente, as posições de outros grupos marginais, observação inconcebível numa filosofia entendida como disciplina científica, seja saber aristotélico do ser enquanto ser, seja consciência crítica kantiana, das quais a hermenêutica dista abissalmente, pois, embora também essas filosofias partissem de um sofrimento ou mal-estar, imaginavam sair dele pela descoberta de algo dado, um princípio, uma evidência inegável ou um Outro pessoal como o Deus de Agostinho, ao passo que o mal-estar a que Heidegger reage não pode ser superado por um dado, porque é precisamente a datidade que perturba, e tanto mais intoleravelmente quanto mais se objetiva num mundo dominado pelo cálculo e pela manipulação, de modo que a revolta humanista contra a racionalização social, que no início do século XX ainda podia assumir a forma da revolução estética das vanguardas e do existencialismo filosófico ou teológico, reconheceu-se cada vez mais fraca e parcial, sendo esse todo o sentido da Kehre heideggeriana, que o levou também à deplorável adesão temporária ao nazismo, pois a reivindicação da autenticidade não pôde permanecer no existencialismo de Ser e tempo, revelando-se o mundo do falatório anônimo como mundo da grande organização capitalista do trabalho industrial, o Gestell, e a polêmica ainda respeitosa de Gadamer contra o cientificismo e o neokantismo não pôde manter-se nos limites do debate acadêmico, sendo a desventura nazista de Heidegger efeito dessa transformação da hermenêutica em filosofia da práxis, já que não se pode fazer filosofia antimetafísica mantendo-se na posição de observador neutro, e o hermeneuta que leva a sério sua tarefa torna-se fatalmente militante.
4. Militante de uma causa que não pode ser um mundo lá fora tomado como dado nem uma norma inscrita no ser, que é apenas evento, sobretudo porque aqui a hermenêutica se mede com o futuro, e, embora falar do Gestell pareça implicar uma representação do que está fora, não é por acaso que se chegou ao sofrimento, pois a ontologia da atualidade de Foucault, oposta à analítica da verdade e retomada em chave heideggeriana como esforço de compreender como o ser se dá no momento preciso, no evento que concerne, isto é, o que significa hoje o termo ser, pareceu às vezes demasiado psicologista, como tomada de consciência histórico-biográfica de onde e quem se é, reserva que deixa escapar o elemento do sofrimento, que permite à hermenêutica fazer-se filosofia da história sem tornar-se metafísica objetivista, pois o Gestell é descrito apenas pelo que produz sobre nós, e não a partir de uma visão panorâmica, num sentido talvez redutível ao lema grego de aprender pelo sofrimento.
5. À objeção de que o hermeneuta militante se engajaria numa ação histórica e na transformação do mundo apenas com base no que sofre em sua própria pele, reapresentando-se com toda força metafísica a exigência de fundar a moral em princípios universais, pois a máxima da ação não poderia valer kantianamente como princípio de legislação universal se parte apenas de um mal-estar individualíssimo, responde-se lembrando que Heidegger nunca quis formular uma ética, justamente porque isso o obrigaria a um discurso metafísico, já que até o imperativo categórico, incontaminado por fins prefixados, é um fato da razão, um dado, algo supremamente metafísico, de modo que, se a hermenêutica tem uma imagem de futuro, esta só pode apresentar-se como projeto e nunca como dado, ilustrada pelo que Benjamin diz dos revolucionários, movidos menos pela imagem da nova ordem do que pela lembrança dos antepassados explorados, e por Levinas, para quem a ética nasce da escuta do pedido de ajuda que o outro dirige, e não de uma consciência racional do que é bem ou mal, e pelo verso de Hölderlin segundo o qual somos um diálogo, pois a verdade só acontece desde que somos um diálogo, constituindo-se o fundamento de uma ética hermenêutica enquanto se age com os outros, reagindo a um sofrimento descoberto como comum, que fornece o conteúdo do diálogo e que não é apenas o sofrimento do momento, mas também a lembrança dos antepassados explorados e de uma história que nos constitui.
6. O projeto de mundo que se delineia nessas observações evoca não só as teses de Benjamin, mas, mais radicalmente, os passos evangélicos em que Jesus se recusa a dizer aos discípulos como reconhecerão o Messias na parusia, advertindo-os a não crer em quem disser que ele está aqui ou ali, sem fornecer sinais positivos e objetivos como desejaria um metafísico, passos em que se encontram também as raízes da diferença ontológica, sendo o inegável tom apofático de todo o pensamento heideggeriano o tom mais característico da hermenêutica, como mostra o § 44 de Ser e tempo, na passagem da analítica existencial à ontologia propriamente dita, ao afirmar que só há ser, e não ente, enquanto a verdade é, e que ela só é enquanto e na medida em que o Dasein é, afirmação a ser lida não como síntese conclusiva, mas como programa, pois o esforço de recordar o ser além do esquecimento metafísico, sem esquecer a diferença ontológica, visa deixar ser o ser em preferência ao ente, e o acontecer da verdade e do ser no diálogo que somos não faz aparecer o ente em sua verdade, datidade e presença plena, mas o situa na luz do verdadeiro justamente ao afastá-lo e pô-lo, também e sobretudo eticamente, em segundo plano, de modo que o futuro da hermenêutica assume o sentido de um genitivo subjetivo, em que o futuro será da hermenêutica ou não será, sendo o mundo de amanhã a que ela aspira aquele em que as cogências objetivas e o princípio de realidade, cada vez mais identificado com as leis do capitalismo financeiro, deverão confrontar-se com a ampliação do mundo do diálogo, da verdade-evento e da simbolização progressiva que, convertendo os objetos em termos de comunicação entre sujeitos, reduzirá cada vez mais a violência da imediatez, mundo que a hermenêutica militante, com todos os instrumentos das humanidades, filosofia, teologia, arte, direito e política, deverá tornar cada vez mais semelhante ao que para Hegel e depois para Marx é a casa onde o espírito se sente finalmente, ainda que nunca exaustivamente, junto de si.