Sujeito

Al di là del soggetto: Nietzsche, Heidegger e l’ermeneutica (Milan: Feltrinelli, 1981)


Prefácio: A Garrafa, a Rede, a Revolução e as Tarefas da Filosofia: Um Diálogo com Lotta Continua

LC: Diante da imagem wittgensteiniana da filosofia como tarefa de mostrar à mosca a saída da garrafa e da imagem alternativa, empregada por Norberto Bobbio em O problema da guerra e as vias da paz (Il problema della guerra e le vie della pace), do peixe preso na rede, coloca-se a questão de saber qual das duas figuras exprime melhor a condição humana.

GV: A pretensão de que a filosofia ensine aos seres humanos algo decisivo a ponto de transformar sua condição pertence ainda a uma ideologia hegemônica de matriz platônica, de modo que a imagem da rede se mostra preferível, desde que os humanos sejam pensados não como peixes, mas como acrobatas que transformam a malha em trapézio e se movem livremente entre as aparências.

LC: Num ambiente em que o futuro não está garantido e a humanidade se assemelha a passageiros de um navio que ignoram o porto de destino, indaga-se que sentido e que destino podem ter a vida individual e o próprio gênero humano.

GV: A filosofia não pode ensinar para onde se vai, mas apenas a viver na condição de quem não se dirige a lugar algum, pois o único destino da existência é a morte, compreendida não de modo niilista e desesperado, mas como relicário (shrine) onde se depositam os valores, a linguagem e a herança histórica que fornecem os únicos critérios razoáveis para orientar a vida.

LC: Questiona-se se seria legítimo introduzir pela força uma ordem melhor.

GV: A questão perde sentido, pois uma ordem melhor imposta pela força ainda se concebe segundo um modelo platônico de ser verdadeiro capaz de justificar o sacrifício da vida, da solidariedade e da amizade, ao passo que o único “melhor” conhecido é o respeito pelo que vive e viveu, o que exclui o uso da força e desloca o compromisso do projeto futuro para o cuidado com o passado.

LC: A partir da distinção de Max Weber entre uma “ética da convicção” e uma “ética da responsabilidade”, interroga-se a relação entre esses dois modelos de racionalidade e se haveria duas morais, uma absoluta e outra política.

GV: Opor radicalmente as duas éticas significa aceitar a dicotomia platônica entre mundo do valor verdadeiro e mundo da aparência, quando o mérito de Weber reside precisamente em ter evidenciado a impossibilidade dessa separação, que deve ser superada por um ideal de ação responsável capaz de definir com convicção suas posições num diálogo social e num diálogo com o passado, à luz de uma experiência de valores difusa e declinante.

LC: Pergunta-se se a democracia é um método ou um valor, ou ainda um método que não é apenas método e um conteúdo que não é apenas conteúdo.

GV: Entendida como organização social fundada no diálogo e na continuidade construída pelo confronto de interesses, opiniões e experiências de vida, a democracia não é mero método, mas um valor, e na verdade o único valor que pode servir de base, já que não existem valores absolutos a realizar por meio dela, assim como não há destino definido, e o sentido da existência reside apenas em percorrer indefinidamente a rede em que se está preso e dado a si mesmo, percurso que, no plano da vida social e das instituições, recebe o nome de democracia.

LC: Indaga-se se um fim revolucionário pode justificar quaisquer meios.

GV: O próprio significado de revolução já não está claro, e cabe perguntar se existe uma ideia não violenta de revolução, isto é, que não absolutize um valor ou um interesse particular para impô-lo pela força, como ocorre na teoria marxista ao converter o interesse do proletariado em interesse geral da humanidade, sendo tarefa da ética, ao contrário, limitar a violência e transformar a revolução num processo de mudança social que a reduza ao mínimo.

LC: Nesse caso, questiona-se que sentido ainda conserva a palavra revolução.

GV: Na linguagem corrente, a palavra revolução funciona sobretudo como símbolo, palavra-código e instrumento de identificação, como em “camaradas verdadeiramente revolucionários” ou “revolução versus reforma”, e talvez convenha abandoná-la, pois, assim como a guerra, pode ser um resíduo de tempos bárbaros incapaz de inaugurar a nova história de seres humanos emancipados.

LC: Pergunta-se se existe uma filosofia do terrorismo.

GV: O terrorismo constitui a perspectiva revolucionária mais coerente, pois, uma vez aceita a revolução como violência e como afirmação de um valor absoluto ao qual a vida pode ser sacrificada, não resta argumento contra ele, e sua filosofia consiste em levar ao extremo a ideia de que a história humana possui uma norma absoluta, cuja suposta posse confere a indivíduos ou classes o direito de vida e morte sobre os demais.

LC: Se a verdade não é valor absoluto nem norma ideal de tipo platônico, indaga-se o que ela seria.

GV: Não há razão para rejeitar a verdade como enunciado verificado segundo critérios determinados, mas, num sentido mais profundo, a verdade é a abertura histórica e destinal dos próprios critérios que permitem formar e verificar enunciados, abertura que não pode ser objeto de ciência e à qual a filosofia acede como exercício de mortalidade, discurso edificante e enriquecedor da experiência, e não como saber que resolve problemas.

LC: Observa-se que essa noção de verdade e o peso atribuído à mortalidade parecem mais próximos de Heidegger do que de Nietzsche, em contraste com o livro O sujeito e a máscara (Il soggetto e la maschera, Milão, Bompiani, 1974), que tratava da coincidência entre acontecimento e significado, da dança e do riso de Zaratustra e de uma vida social liberada para a produção “dionisíaca” de símbolos.

GV: O livro sobre Nietzsche, escrito na esteira de 1968, permanece válido em suas análises textuais, mas esteve demasiadamente sob o domínio da dialética ao caracterizar o além-do-homem (oltreuomo, Übermensch) como espírito absoluto hegeliano ou ser humano marxiano desalienado, quando hoje se impõe distingui-lo de toda perspectiva dialética, concebendo-o como aquele que já não precisa realizar o ideal de conciliação absoluta e que pode existir sem ser sujeito no sentido metafísico.

LC: Questiona-se que possibilidade existe, nessa perspectiva, para uma nova história em que os acontecimentos carreguem em si sua significação, sem a recaída naquilo que Sartre, na Crítica da razão dialética, denominou “contrafinalidade”.

GV: A concepção do além-do-homem como sujeito liberado, capaz de viver experiências idênticas à sua significação e imune à contrafinalidade, ainda pressupõe, como em Sartre, o ideal dialético de conciliação e um sentido global da história a ser apropriado, quando a verdadeira saída da pré-história consiste em reconhecer que a história não possui tal sentido absoluto e teleológico, cabendo enfatizar a dissolução ou enfraquecimento do sentido naquilo que se deve chamar “ontologia do declínio”.

LC: Pergunta-se o que implica tal ontologia do declínio, se ela constitui uma perspectiva “decadente” e como se articula com a proposta, presente em As aventuras da diferença (Le avventure della differenza, Milão, Garzanti, 1980), de pensar a diferença em oposição à dialética.

GV: A ontologia do declínio nada tem de pessimista ou decadentista, sendo um discurso rigorosamente teórico sobre o modo como o ser se dá (darsi) na experiência, concebido não como aquilo que permanece, mas como aquilo que nasce, morre e tem história, ao passo que o pensamento da diferença reconhece que do ser só há recordação e vestígio, o que liberta das pretensões de plenitude metafísica e permite enfrentar, com “bom caráter”, uma existência oscilante e mortal, sendo isso, e não a saída da garrafa, o que a filosofia pode ensinar.