VATTIMO, Gianni. Introduzione a Heidegger. 20. ed ed. Roma [Rom] Bari: Laterza, 2013.
1. A tendência, intrínseca à metafísica desde sua origem, de esquecer o ser deixando vir ao primeiro plano apenas o ente enquanto tal, tendência fundada na conexão essencial entre verdade e não-verdade, realiza-se perfeitamente no mundo da técnica, mas, ao realizar de fato sua essência de esquecimento, a metafísica chega também a seu fim, pois já não há nenhum além, uma vez que o ser do ente não é mais algo a buscar para além do próprio ente, mas seu efetivo funcionar dentro de um sistema instrumental posto pela vontade do sujeito, situação em que o pensamento se reduz a engenhosidade técnica, ele mesmo instrumento para resolver problemas internos à totalidade instrumental do ente e inerentes à sua organização cada vez mais racional.
2. É precisamente nessa situação de extrema pobreza do pensamento que se torna possível ir além da metafísica e talvez sair do esquecimento do ser que a caracteriza, pois a metafísica só subsiste enquanto sua essência de esquecimento permanece mascarada, isto é, enquanto esquece o próprio esquecer, e a redução da totalidade do ente a sistema totalmente organizado, com o consequente fim do pensamento como ultrapassamento do ente, que a metafísica do passado sempre tentou sem realizar, faz com que esse esquecimento constitutivo já não possa ser esquecido e venha ao primeiro plano em todo o seu alcance determinante, conduzindo à pergunta, já formulada de outro modo no parágrafo final de Ser e tempo sobre como o ser do ente pôde ser pensado como simples presença, agora tornada mais radicalmente histórica, sobre como se chegou ao ponto de esquecimento total do ser em que se está, ponto de partida da reflexão sobre a metafísica como história, que já implica um projeto não metafísico do sentido do ser, pois perceber o esquecimento já supõe uma posição que, ainda que embrionariamente, não está mais nele, sendo a mesma coisa ver a metafísica como história e sair dela compreendendo o ser de modo diferente, o que confere à reflexão sobre a história da metafísica um significado não só negativo, de destruição da história da ontologia, mas também positivo, de elaboração de um novo projeto do sentido do ser.
3. Essa compreensão do ser elaborada por meio de uma reflexão negativo-positiva sobre toda a história do pensamento ocidental distingue-se do sistema de Hegel, aparentemente análogo, porque a reflexão histórica não visa captar na história do pensamento o progressivo desvelamento de uma verdade reconhecível e integrável numa perspectiva definitiva do ponto de vista do saber absoluto, opondo-se à Aufhebung hegeliana, que conserva e supera na filosofia absoluta o que o pensamento passado disse de verdadeiro, o método do passo atrás, que não é simples inversão do hegeliano nem retorno às origens históricas, como se o anterior no tempo estivesse mais próximo do ser e a história fosse apenas progressivo afastamento dele, mas um recuar no sentido de tomar distância, situando-se num ponto de vista que faz ver a metafísica como história e devir, pondo-a em movimento, subtraindo-se à sua pretensa evidência e indiscutibilidade e vendo-a em relação ao seu de onde, à obscuridade de que provém e que constantemente esquece, razão pela qual ver a metafísica como história não é alcançar a autotransparência do espírito absoluto, nem apoderar-se da totalidade da verdade, mas ver a história do pensamento como proveniente de uma origem constitutivamente obscura que jamais se resolve nela, insistência na obscuridade como fundo esquecido que se opõe radicalmente a Hegel, para quem o espírito consome e dissolve na autoconsciência todos os seus pressupostos, e que impede também ler essa reflexão como inversão do hegelianismo que veria a história como afastamento progressivo do ser, pois também então o fim da metafísica seria uma tomada de consciência absoluta de tipo hegeliano, que definiria o ser como essencialmente constituído por um progressivo ocultamento e afirmaria que, através da história desse ocultamento, o ser tende afinal a desvelar-se no que é, ocultamento de que o pensamento pode tomar plena consciência.
4. A contraposição entre o passo atrás e a Aufhebung visa justamente evitar esses equívocos, pois a conclusão da metafísica não pode significar o fim do esquecimento do ser no sentido de o ser tornar-se finalmente objeto de pensamento explícito, o que repetiria o erro da metafísica, que reduziu o ser a ente precisamente ao esforçar-se por fazê-lo objeto de teorizações e definições e inseri-lo organicamente na concatenação do raciocínio fundante, de modo que ver a metafísica como história não é descobrir hegelianamente a direção e o sentido global de seu desenvolvimento, mas vê-la antes de tudo como movimento, como um vir de, e ver também o sistema do raciocínio fundante situado num âmbito que o transcende e que não pode, por sua vez, ser pensado como fundamento.
5. A distinção entre esse método e o hegeliano só se resolve ao colocar em geral o problema da possibilidade e do caráter de um pensamento não mais metafísico, pois, se o pensamento libertado da metafísica fosse aquele que recorda o ser assumindo-o finalmente como conteúdo temático, não se distinguiria substancialmente de Hegel, e o passo atrás seria apenas mais um disfarce, mais ou menos invertido, da autoconsciência hegeliana, cabendo perguntar se é possível e como se define um pensamento que vá além da metafísica, isto é, se é possível uma autêntica superação da própria metafísica.