VATTIMO, Gianni. Essere, storia e linguaggio in Heidegger. Torino: Edizioni di Filosofia, 1963.
1. Quem é o Nietzsche de Heidegger
1. A publicação dos dois volumes de Nietzsche oferece uma documentação decisiva do percurso heideggeriano entre os anos 1930 e a Carta sobre o humanismo, permitindo compreender tanto sua interpretação de Nietzsche quanto a transformação de seu próprio pensamento após Ser e tempo, desenvolvida em grande medida nesse confronto filosófico.
2. O caráter provocador do pensamento nietzschiano dificulta sua abordagem segundo os critérios historiográficos habituais, exigindo uma confrontação pensante (Auseinandersetzung) capaz de determinar sua posição na história do ser para além da biografia e dos conteúdos explicitamente formulados.
3. A compreensão de Nietzsche exige partir da experiência fundamental de Ser e tempo, segundo a qual o pensamento ocidental interroga o ser do ente, mas deixa impensada a verdade do ser e encobre o próprio retraimento que impede experimentá-la.
4. Nietzsche representa a consumação da metafísica e, por isso, permite reconhecer o caráter essencial da época contemporânea, pois o desdobramento final dessa tradição torna visível sua natureza e prepara, de maneira ainda problemática, as condições de uma possível superação.
5. A interpretação heideggeriana de Nietzsche exige esclarecer a história e a consumação da metafísica, a unidade dos temas nietzschianos e sua relação com a civilização contemporânea, preservando a distinção entre esse questionamento e uma avaliação estritamente historiográfica da fidelidade interpretativa.
1. História e história da metafísica no pensamento de Heidegger
1. A identidade filosófica de Nietzsche não pode ser determinada apenas pela narrativa de sua vida, pela exposição de seus escritos ou pela caracterização de sua personalidade histórica.
2. A pergunta nietzschiana sobre ser um destino remete, na interpretação heideggeriana, à história da modernidade como época final do Ocidente, ultrapassando a consideração de uma trajetória individual.
3. A compreensão desse destino pressupõe a interpretação da história como história do ser, na qual a obra filosófica recebe seu fundamento para além da personalidade que a produziu.
4. A obra permanece inacessível em seu sentido decisivo enquanto for considerada apenas expressão da vida de seu criador, exigindo que a investigação se dirija ao ser e ao mundo nos quais se encontra seu fundamento.
5. O mundo que fundamenta uma obra não se reduz ao contexto econômico, político ou cultural de seu surgimento, pois o pensador não escolhe arbitrariamente seu caminho, mas se encontra solicitado a dizer aquilo que o ente é em determinada configuração da história de seu ser.
6. Os pensamentos fundamentais das grandes filosofias não constituem simples opiniões individuais nem expressões imediatas de uma época, pois neles ressoa a história ainda desconhecida do ser em uma palavra que pertence também à historicidade humana.
7. A relação entre pensamento e ser recebe sua formulação decisiva na compreensão do pensamento como pensamento do ser.
8. O pensamento pertence ao ser porque é por ele apropriado e, simultaneamente, pensa o ser porque, nessa pertença, se mantém atento àquilo que o solicita.
9. A consumação nietzschiana da metafísica pertence a uma história marcada pelo esquecimento da verdade como desocultamento e por sua determinação como conformidade, cujo acontecer não depende exclusivamente de comportamentos humanos, pois o ser constitui a dimensão originária da existência e de sua historicidade.
10. A viragem posterior a Ser e tempo pode ser compreendida como aprofundamento de sua orientação ontológica, pois a análise da existência já pressupõe a diferença entre ser e ente e procura esclarecer a abertura que torna possível o encontro com as coisas e com os outros, reconduzindo posteriormente a historicidade humana à história do próprio ser.
11. O dar-se histórico do ser não resulta de decisões de um ente, pois pensamento e linguagem já pertencem ao ser, cuja manifestação inclui também o erro e o encobrimento, tornando necessário compreender a verdade como desvelamento inseparável de um ocultar-se.
12. A compreensão da história do ser retoma a estrutura da temporalidade autêntica descoberta na analítica existencial, estabelecendo uma continuidade entre a investigação da existência e a determinação posterior do acontecer ontológico.
13. A tradição não constitui apenas um passado deixado para trás e convertido em objeto da consciência histórica, pois vem ao encontro daqueles que já se encontram entregues a ela e situados em seu destino.
14. A diferença entre conhecimento historiográfico e compreensão histórica distingue a reconstrução de encadeamentos entre acontecimentos da apreensão da história do ser, pois a historiografia representa primordialmente relações entre entes e depende de uma concepção derivada da temporalidade.
15. A interpretação vulgar do tempo compreende-o como uma sucessão ininterrupta de agoras, concebida segundo o modelo da simples presença e projetada como um fluxo indefinido nas duas direções.
16. A temporalidade inautêntica reduz o passado ao que já não está presente e o futuro ao que ainda não chegou, subordinando ambos ao presente e permitindo que a historiografia calcule o porvir mediante imagens do passado, em vez de se abrir à chegada de um destino.
17. A investigação historiográfica permanece indispensável ao conhecimento do passado, mas não pode constituir a única nem a última forma de relação com a história.
18. A compreensão da historicidade autêntica encontra dificuldades que ultrapassam a linguagem metafísica, pois a decisão antecipadora assume a morte como possibilidade mais própria e reconduz o existir ao seu ter-sido, cuja inteligibilidade exige esclarecer sua relação com a história do ser.
19. A temporalidade autêntica inverte o predomínio do presente, pois o porvir e o retorno ao ter-sido possibilitam a situação presente a partir de sua unidade, em vez de serem determinados como simples variações da presença atual.
20. A antecipação da morte articula futuro e passado porque assume uma possibilidade ainda por vir que já determina o existir como destinado a morrer, fazendo do projeto autêntico uma retomada daquilo que a existência já é e da história que lhe pertence.
21. A interpretação da história do ser como determinismo decorre da manutenção de uma temporalidade serial diante da decisão humana, enquanto sua compreensão como acontecimento do ser dissolve essa pressuposição e exige reconhecer uma estrutura originária na qual passado, presente e futuro ainda não se encontram separados como momentos sucessivos.
22. A distinção entre passado encerrado (vergangen) e ter-sido (gewesen) permite compreender a história do pensamento como retomada de um princípio cuja potência ainda precisa desdobrar-se e que, por isso, permanece por vir.
23. O ter-sido libera a essência daquilo que apenas aparentemente passou, reconduzindo o princípio à sua força originária, pela qual ele ultrapassa o que veio cronologicamente depois e se apresenta como possibilidade futura.
24. A retomada autêntica do passado reconhece nele uma origem ainda atuante, enquanto o destino do ser (Geschick) designa a unidade a partir da qual os momentos históricos se temporalizam, sem dependerem de uma decisão humana soberana ou de uma determinação causal do futuro pelo passado.
25. A história do ser impede uma interpretação determinista porque sua estrutura não corresponde à sucessão de momentos, mas à unidade originária na qual passado e futuro se determinam reciprocamente, conferindo ao ser um caráter escatológico pelo qual o princípio retorna como aquilo cujo pleno desdobramento ainda deve advir.
26. O caráter escatológico do ser exige compreender as relações temporais a partir da unidade de seu destino, em vez de organizá-las previamente segundo a sequência entre antes e depois.
27. As épocas também possuem uma dimensão escatológica porque caminham para o desdobramento de seus princípios, mas seu término permanece associado à possibilidade de uma nova abertura, tornando a história do ser sempre iminente.
28. A indigência da época decorre da ausência dos antigos deuses e da não chegada dos novos, enquanto a sucessão das épocas não constitui progresso do espírito ou esclarecimento crescente da consciência, pois a escatologia do ser permanece vinculada à sua irredutibilidade aos entes e ao retraimento que sustenta cada configuração histórica.
29. A metafísica designa especificamente o encobrimento do ser na manifestação dos entes, reduzindo-o ao ente supremo ou ao gênero mais universal e esquecendo a diferença ontológica que, entretanto, torna possível sua própria investigação.
30. O ser se retrai ao revelar o ente e conserva junto a si a verdade de sua essência, de modo que o desocultamento dos entes funda simultaneamente o ocultamento do ser e confere a cada época histórica o caráter de uma época do errar.
31. O errar constitui a essência da metafísica enquanto esquecimento do ser.
32. A compreensão da metafísica oscila entre sua determinação como estrutura de toda época e sua identificação com a história específica do Ocidente, mantendo aberta a dificuldade de pensar uma superação historicamente determinável do esquecimento do ser e sugerindo que a indigência pode pertencer constitutivamente à própria história.
33. O ser permanece o transcendente por excelência, enquanto pensar exige reconhecer que ainda não se pensa propriamente quando se deixa o ser impensado, sem reduzir esse ainda não à expectativa de uma transformação simplesmente cronológica.
2. Nietzsche como consumação da metafísica
1. A interpretação de Nietzsche como consumação da metafísica refere-se especificamente ao desenvolvimento do pensamento ocidental iniciado entre os gregos, embora permaneça vinculada à problemática mais ampla da história do ser.
2. A compreensão dessa consumação exige articular a unidade dos temas fundamentais nietzschianos com as linhas históricas da metafísica que neles encontram seu desdobramento final, ainda que essa separação possua apenas uma função expositiva.
3. A reconstrução heideggeriana não apresenta o pensamento como sequência de problemas logicamente ou historicamente encadeados, tornando inadequada a procura de uma dificuldade inicial da qual toda a filosofia nietzschiana derivaria.
4. O pensador se relaciona primordialmente com o ser que rege uma tradição, e não apenas com os problemas nela disponíveis, de maneira que sua investigação procura reconhecer o pensamento fundamental que determina sua posição histórica, identificado em Nietzsche à unidade entre eterno retorno e vontade de poder.
5. A vontade de poder e o eterno retorno pertencem a um conjunto de expressões fundamentais cuja articulação determina a estrutura da metafísica nietzschiana.
6. Vontade de poder, niilismo, eterno retorno, além-do-homem e justiça designam, respectivamente, a essência do ente, sua história, seu modo de existir em totalidade, a humanidade que lhe corresponde e a essência de sua verdade, exigindo uma compreensão unitária na qual cada expressão esclareça as demais.
7. O niilismo constitui a experiência fundamental de Nietzsche e designa o processo histórico de desvalorização dos valores supremos pelo qual o ente em sua totalidade se revela como vontade de poder.
8. A história do niilismo envolve a instituição, a desvalorização, a transvaloração e a renovação dos valores, culminando na exigência de estabelecer outro princípio para toda avaliação.
9. A transformação histórica das perspectivas revela a vontade de poder como constituição geral dos entes, cuja afirmação não se demonstra segundo critérios científicos particulares e exige uma contraposição à crença metafísica tradicional, reconduzindo os valores à potência que os institui e supera no movimento do eterno retorno.
10. A vontade de poder pode ser compreendida como vida sem que isso implique reduzir a metafísica à biologia, pois viver significa primordialmente intensificar-se para além dos próprios limites, mediante um querer que dispõe de possibilidades, comanda e assume a tarefa que estabelece para si.
11. A vontade de poder constitui vontade de vontade, cujo movimento de intensificação exige tanto a conservação das posições alcançadas quanto a abertura de novas possibilidades, encontrando no conhecimento e na arte suas formas supremas.
12. A verdade sustenta a conservação da vontade de poder, mas permanece subordinada à intensificação, enquanto a arte realiza a abertura de novas possibilidades de potência que ultrapassam aquilo que foi estabilizado.
13. A verdade conserva o sentido metafísico de estabilidade, embora seja reconhecida como resultado de uma estabilização necessária à vida, enquanto a arte designa amplamente a capacidade de criar novas formas e perspectivas, fazendo do mundo uma obra que se produz por si mesma.
14. O eterno retorno exprime o modo de existir da vontade de poder, e o instante (Augenblick) da visão de Zaratustra designa a decisão em que a vontade quer a si mesma, articulando essência e existência sem corresponder simplesmente a um evento histórico de superação do niilismo ou a uma fuga do tempo.
15. O além-do-homem determina a posição humana no mundo compreendido como vontade de poder, ultrapassando a humanidade formada pela história do niilismo sem se reduzir à superioridade moral, estética ou política de um indivíduo sobre os demais.
16. O além-do-homem reconhece a vontade de poder como essência dos entes e fundamento dos valores, assumindo lucidamente essa realidade e criando a partir dela.
17. A justiça (Gerechtigkeit) designa a atividade pela qual a vontade de poder constrói, distingue e destrói segundo as condições de sua intensificação, de maneira que a verdade recebe sua legitimidade da própria potência que estabelece o que deve valer.
18. A exposição isolada desses conceitos permanece historiográfica e insuficiente, pois sua inteligibilidade exige uma abordagem pensante que situe Nietzsche na história do ser como passagem da preparação da modernidade ao início de sua consumação.
19. A consumação nietzschiana abrange a metafísica ocidental em sua totalidade porque nela convergem as possibilidades históricas que unem pensamento antigo, medieval e moderno, tornando o confronto com Nietzsche uma retomada da história inteira dessa tradição.
20. A metafísica nasce e se desenvolve como esquecimento do ser e predomínio da consideração do ente enquanto ente.
21. O pensamento metafísico somente pode visualizar o ente à luz do ser, mas deixa impensada essa iluminação porque dirige sua representação exclusivamente ao que aparece e o compreende a partir do próprio ente.
22. A metafísica não constitui um erro arbitrário, pois pertence ao acontecer histórico do ser e oferece uma verdade sobre os entes em sua totalidade, embora esqueça a diferença que a possibilita e se revele, nesse sentido, como niilismo originário.
23. O niilismo coincide com a metafísica porque nela o ser é abandonado em favor do ente, atingindo seu extremo quando a vontade de poder reduz a própria verdade a uma condição de conservação e intensificação e faz desaparecer qualquer fundamento que não resulte de seu próprio querer.
24. A história metafísica pode ser reconstruída pelas transformações de suas palavras fundamentais, nas quais se exprime a relação entre ser e ente que determina uma época, exigindo esclarecer tanto a emergência da vontade como essência do ente quanto a consumação dessa trajetória.
25. A transformação de ideia, enérgeia, alétheia e hypokeímenon em percepção, atualidade, certeza e sujeito articula os deslocamentos fundamentais pelos quais a metafísica ocidental culmina na vontade de poder.
26. A separação entre que algo é e o que algo é inaugura a distinção entre existência e essência, enquanto Platão privilegia a ideia e Aristóteles a enérgeia, consolidando conjuntamente a preeminência do ente e a aparente obviedade do ser como presença.
27. A passagem da enérgeia à actualitas explicita a dimensão produtiva e causal da presença e se articula à ideia platônica do bem como aquilo que possibilita, tornando possível a configuração cristã de Deus como causa e ato puro e deixando problemática a relação entre cristianismo histórico e eventual significação supranatural.
28. A determinação do ser como actualitas estabelece a primazia de Deus como causa e a condição derivada das criaturas, enquanto a existência passa a significar a consistência efetiva daquilo que se encontra fora de sua causa e do nada.
29. A transformação do ser em efetividade acompanha a passagem da verdade à certeza, preparada pela determinação grega da presença e da conformidade e desenvolvida na teologia medieval, até que a modernidade reconheça na certeza de si o fundamento de uma humanidade que procura assegurar-se por seus próprios meios.
30. O cristianismo participa decisivamente desse desenvolvimento histórico da certeza, permitindo compreender a persistência de uma configuração cristã no mundo moderno mesmo quando a fé desaparece e permanecem suas determinações culturais.
31. A metafísica cartesiana identifica realidade e certeza, fazendo da representação estável o critério do real e do sujeito representante o fundamento inabalável de toda presença, em um desenvolvimento que transforma o antigo substrato na subjetividade moderna.
32. A generalização leibniziana da percepção e do apetite para toda realidade monádica explicita a vontade como essência do ente, preparando os sistemas modernos de Hegel e Schelling, cuja forma sistemática corresponde ao desdobramento do ser como unidade que procura representar e ordenar a si mesma.
33. O sistema constitui um acontecimento da história do ser quando a realidade, compreendida como vontade e impulso representativo, tende a apresentar-se em sua própria unidade.
34. A vontade de vontade torna explícito em Nietzsche o princípio último da metafísica e dissolve a distinção entre essência e existência, pois o eterno retorno não apenas realiza uma essência previamente dada, mas constitui a própria vontade de poder, eliminando o último vestígio da diferença ontológica ainda preservado pela tradição.
35. A determinação da verdade como valor, do além-do-homem como humanidade correspondente à subjetividade consumada e da vida como constituição geral do ente reúne as principais linhas da metafísica, tornando Nietzsche o momento em que seus princípios originários se revelam plenamente, esgotam suas possibilidades e preparam a questão de sua superação.
3. Nietzsche como profeta do mundo contemporâneo
1. Nietzsche permite compreender o presente em sua determinação metafísica, para além da cronologia e dos acontecimentos imediatamente visíveis, porque a humanidade contemporânea se encontra situada na época aberta pela consumação de seu pensamento.
2. A relação entre metafísica e civilização assume uma configuração singular quando a tradição ocidental alcança seu término e deixa de constituir apenas uma investigação distinta das atividades organizadoras do mundo.
3. A metafísica consumada fornece a estrutura do pensamento planetário e de uma ordenação da Terra que pode perdurar sem recorrer explicitamente à filosofia, porque seus pressupostos já se tornaram a base dessa própria organização.
4. A consumação da metafísica consiste em sua transformação no funcionamento efetivo de um mundo, pois o desaparecimento da diferença ontológica permite sua identificação com a organização e o domínio dos entes, realizando simultaneamente seu fim e seu triunfo.
5. A técnica moderna constitui a manifestação mais significativa dessa consumação metafísica e da incapacidade de pensar o ser que a acompanha.
6. A consciência técnico-racional e a ausência de meditação pertencem ao mesmo processo, pois a organização calculadora pode impedir o estabelecimento de uma relação com aquilo que merece ser interrogado.
7. A técnica realiza a verdade como condição de estabilização e intensificação da vontade de poder, mostrando que seu movimento não se opõe à razão calculadora, mas exige procedimentos matemáticos de asseguramento e faz da procura incessante de novidade uma característica essencial da modernidade.
8. O historicismo participa desse planejamento ao reconstruir o passado segundo as necessidades de compreensão e controle do presente, tornando a acumulação historiográfica compatível com a perda de uma relação efetiva com o destino e com o futuro.
9. A vontade de vontade se opõe à abertura histórica do ser e fixa tudo na ausência de destino, produzindo uma a-historicidade cujo sinal característico é o domínio da historiografia.
10. A técnica perde a possibilidade de reconhecer um destino porque reduz o ser à segurança calculável dos entes, enquanto a historicidade exige compreender a abertura de um projeto recebido, no qual uma humanidade encontra seu mundo.
11. A época da imagem do mundo articula técnica, historicismo e subjetividade, fazendo do real uma configuração continuamente produzida e reconstruída pelo sujeito, cuja expansão acompanha tanto o fortalecimento da objetividade científica quanto o crescimento das estruturas coletivas e do anonimato.
12. A alternativa entre dissolução na massa e isolamento aristocrático permanece interna ao niilismo, de maneira que sua superação não pode resultar de uma escolha entre essas posições nem da restauração de um passado idealizado, mas exige pensar até o fim a indigência da época e reconduzir a metafísica ao seu fundamento.
13. O término da metafísica não encerra o pensamento, mas prepara a possibilidade de outro começo, no qual o extremo perigo do esquecimento do ser também pode abrir uma possibilidade de salvação.
4. Conclusão: Nietzsche, Heidegger e a visão metafísica da alienação
1. A oposição estabelecida pela interpretação heideggeriana entre Nietzsche e a superação da metafísica não elimina as profundas analogias entre seus percursos, especialmente diante da história ocidental, da civilização contemporânea e da condição humana.
2. A consumação da metafísica em Nietzsche pode conter indicações positivas para sua superação, exigindo investigar os possíveis desdobramentos ontológicos de seu pensamento e a influência efetiva dessa leitura sobre a transformação da filosofia heideggeriana.
3. A consciência da própria época como tempo de indigência e espera constitui uma aproximação imediata entre Nietzsche e Heidegger, orientando seu pensamento para uma transformação ainda por vir.
4. A expectativa do grande meio-dia anuncia a possibilidade de uma humanidade situada na passagem entre o animal e o além-do-homem, reunida por uma esperança compartilhada.
5. A tarefa profética de ambos consiste em reinterpretar passado e presente em relação ao que pode advir, mas se distingue de outras filosofias de transformação histórica porque não reduz o término da alienação a um acontecimento produzido por instrumentos psicológicos, morais ou políticos.
6. A alienação possui uma raiz mais originária do que suas manifestações psíquicas e sociais, impedindo que a salvação humana seja identificada exclusivamente com a aplicação da psicanálise, da organização política ou de outras formas de intervenção histórica.
7. A aproximação entre alienação marxiana, esquecimento heideggeriano do ser e niilismo nietzschiano não exige equivalência conceitual integral, mas permite reconhecer uma interrogação comum sobre a insuficiência da condição humana e a possibilidade de ultrapassá-la.
8. A análise nietzschiana do niilismo não parece reduzir-se a um diagnóstico social ou fisiológico, pois situa sua necessidade no declínio do cristianismo e no fracasso de sua moral, exigindo examinar se sua superação pode ser compreendida apenas em termos históricos.
9. A centralidade do eterno retorno em Zaratustra dificulta interpretar o além-do-homem como um programa historicamente realizável, pois reconduz o problema do niilismo à relação humana com o tempo e com a eternidade.
10. A crítica comum ao historicismo exige superar a compreensão do humano como simples produto do passado e etapa de um futuro calculável, fazendo da transformação da relação com a totalidade do devir uma condição para ultrapassar o niilismo e problematizando a tradução imediata dessas filosofias em programas políticos ou realizações históricas.
11. A investigação da raiz da alienação exige ultrapassar fórmulas que pretendem resolvê-la mantendo seus próprios pressupostos, reconduzindo o pensamento à relação originária com o mundo e consigo mesmo, enquanto a atenção vigilante e silenciosa ao destino do ser oferece uma orientação cuja insuficiente determinação histórica também permanece filosoficamente problemática.
12. A possibilidade de uma relação positiva entre Heidegger e Nietzsche constitui um campo de investigação que, sem apagar suas diferenças, permite reconsiderar o alcance e as dificuldades ainda abertas de suas conclusões sobre a condição humana e a superação da alienação.