Suárez, Francisco (1548-1616)
Qualquer leitor que comece a ler Ser e tempo encontrará rapidamente — logo na página 22 — o nome de Suárez e a menção às suas Disputationes metaphysicae. Desde 1927, quando o livro foi publicado, pode-se presumir que, para a grande maioria dos leitores franceses, esse nome não diz absolutamente nada e que, nessas condições, a alusão feita por Heidegger perde todo o interesse e significado. Trata-se de uma grave falha da nossa cultura e da filosofia universitária francesa, à qual, guiados por Jean Beaufret e auxiliados por Étienne Gilson, alguns estudiosos tentam, há pouco tempo, remediar. O volume Les Philosophes célèbres, publicado em 1956 sob a direção de M. Merleau-Ponty, contém, por exemplo, um índice de nomes que lista mais de 750 gigantes do pensamento, mas ignora Suárez (na verdade, o próprio Hegel não diz uma palavra sobre ele). É preciso dizer que, quando Jean Beaufret abordou Être et temps – foi em Lyon, em 1942 –, Suárez era para ele, em primeiro lugar, um famoso desconhecido. Mas o livro de Heidegger impõe a quem realmente quer compreendê-lo uma importante reavaliação de perspectiva. Em outras palavras, exige que nos ponhamos a trabalhar. É difícil imaginar o que mais poderíamos fazer quando lemos nas palavras de Heidegger: “Suárez é o pensador que mais influenciou a filosofia moderna” (Os problemas fundamentais da fenomenologia, GA 24, 112).
Poderíamos nos perguntar por que Grotius dava tanta importância a Suárez (Leibniz, Novos Ensaios, IV, 8, § 9). Preocupemo-nos antes com o que Heidegger diz a respeito. Com 54 disputas que ocupam 2.000 páginas, a obra-prima de Suárez (Salamanca, 1597) é imponente, tão volumosa quanto o Sistema de Política Positiva, de Auguste Comte, ou a Suma Teológica, de São Tomás de Aquino, com a diferença de que, enquanto São Tomás escreve uma suma teológica, Suárez escreve disputas metafísicas. É certo que este jesuíta anuncia desde a primeira página sua intenção de fazer uma obra de filosofia cristã, mas com ele a ênfase é colocada na metafísica, o que, à primeira vista, faria pensar mais em Avicena do que em São Tomás. Suárez não deixa de ser o principal representante desse “neotomismo” antes da letra, que, no espírito inspirado pelo Concílio de Trento, surge e se desenvolve no último terço do século XVI (a amplitude e a solidez do trabalho iniciado desde esse concílio são testemunhadas de forma impressionante pela obra de Suárez). Embora essa obra tenha sido concebida para servir de base às instituições de ensino católicas (notadamente os colégios jesuítas), sua influência se estendeu até as faculdades de teologia evangélicas, que nela encontraram uma síntese valiosa da doutrina “tradicional”. Em La Flèche, “as Metaphysicae disputationes eram, segundo É. Gilson, para a metafísica, o ‘livro do mestre’ dos professores de Descartes” (Index scolastico-cartésien, p. iv).
“Os conceitos ontológicos fundamentais de Descartes, diz Heidegger, são diretamente retomados de Suárez, Duns Scot e Tomás de Aquino” (GA 24, 174). “Essas Disputationes metaphysicae em dois volumes, diz ele ainda, não são uma espécie de comentário seguido da Metafísica de Aristóteles, mas sim uma ontologia no sentido pleno da palavra, mesmo que se atenha estritamente ao tipo de exposição por perguntas que se encontra em Tomás” (GA 21, 172). Mas é, na verdade, de Suárez que Leibniz fala sem o nomear, não apenas quando constata que “o Sr. Descartes estudou por bastante tempo a filosofia escolástica no colégio dos jesuítas de La Flèche” (Novos Ensaios, IV, 10, § 7), mas quando, elevando o tom, escreve (talvez a Molanus): “des Cartes queria fazer crer que tinha lido pouco e que tinha empregado seu tempo em viagens e na guerra. É a isso que tendem os contos que ele faz em seu Método. Mas sabemos que ele tinha feito seu curso no colégio: o estilo revela sua leitura” (ed. Gerhardt, t. IV, p. 307).
O estilo revela suas leituras. É exatamente isso que, sem elevar o tom, Heidegger quer dizer quando apela, a respeito de Suárez, nomeadamente em Problemas fundamentais da fenomenologia (1927), a um verdadeiro “dever de memória”. Não sem razão, Descartes foi considerado o “pai da filosofia moderna” e se destaca, com razão, o quanto todos os filósofos, há mais de três séculos, são tributários dele, mas não se pode aceitar como verdade absoluta esse Nemo ante me (ninguém antes de mim), que ele toma como ponto de partida (Péguy: esse cavaleiro francês…) e princípio metodológico. Quando Heidegger diz que Suárez é o pensador que mais influenciou a filosofia moderna, ele pretende restabelecer a verdade e nos ensinar a ler não “ninguém antes de mim”, mas… “Suárez antes de mim”!