STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).
“CADA UM ESTÁ EM SUA OBRA”
ASPECTOS DO MOVIMENTO
1. Qualquer ato nosso revela o que somos, e quem quiser descobrir Montaigne deve escutar seu conselho e considerar o seu movimento, pois ler uma página dos Ensaios é fazer no contato com uma linguagem prodigiosamente ativa toda uma série de gestos mentais que transmitem ao nosso corpo uma impressão de agilidade e de energia.
2. O mais íntimo de Montaigne se manifesta nessa vitalidade corporal tão poderosamente comunicativa, e uma descrição adequada do movimento de Montaigne não pode ser empreendida senão sob a forma da análise textual, pois o impudor do gesto exige uma crítica impudica aplicada ao mais perto possível de seu objeto.
3. Minha opinião acha-se sempre disposta a condenar minhas insuficiências, e é verdade que se trata de assunto em cuja análise me aplico mais do que em outro, pois em geral os homens voltam-se para fora e eu me volto para dentro de mim mesmo, demoro-me na investigação e nela me comprazo.
4. Todos olham para a frente ao passo que eu olho para mim observando-me e analisando-me, e os outros se pensam seriamente tocam para diante, e ninguém tenta descer de si mesmo, e eu paro e fico a enredar-me no pensamento.
5. A primeira frase tem um aspecto notável pois destaca-se aí a presença do eu em sucessão em todos os níveis sintáticos, e ela começa por uma colocação em evidência das minhas opiniões que a sequência do enunciado coloca pronominalmente na posição de complemento direto do verbo principal francamente formulado como uma atividade judicativa na primeira pessoa.
6. Dessa maneira minhas opiniões onde se concentram atos de pensamento estão em posição de objeto do verbo achar que é um novo ato de pensamento, e o eu que é o agente da descoberta é também pela marca do possessivo o objeto descoberto.
7. Ora em sua qualificação desenvolvida as opiniões se determinam como uma atividade pessoal audaciosas em condenar voltada por sua vez para um aspecto do eu, e a segunda frase nos propõe de fato a mesma estrutura do conteúdo pois o eu aí está representado em primeiro lugar no sujeito do verbo da relativa, depois no complemento do verbo e enfim no paradigma que substitui minha insuficiência.
8. As opiniões e o julgamento como se vê são hipóstases do eu primeiro, representam o instrumento e a operação interpostos entre um agente e um ponto de aplicação, e o eu se distribui entre todos esses níveis sintáticos entrando em jogo como agente, instrumento e ponto de aplicação.
9. Montaigne condena sua insuficiência, e ora para julgá-la e condená-la suas opiniões são audaciosas e constantes, e aqui estamos diante de uma singular constância voltada para uma inconstância e para uma falta que será o objeto privilegiado de sua atenção.
10. O que é com efeito essa insuficiência de que fala Montaigne, e é preciso remontar para compreendê-la ao verbo latino sufficere e ao seu sentido mais concreto de dar apoio e oferecer um suporte, e Montaigne acusa ao chamá-la de insuficiência a ausência de um apoio interior.
11. No entanto a falta de apoio vai converter-se no tema e no pretexto de uma atividade agradável, pois um vigor nasce da constatação da fraqueza, e a falha profunda e a falta de suficiência fazem surgir uma força compensadora e uma vigilância redobrada.
12. Olhar intacto não comprometido pela debilidade interna a que faz frente, o julgamento explora e interroga sem descanso, e Montaigne vai mostrar-nos por metáforas sucessivas os gestos de uma alma em exercício que não acaba mais de ensaiar-se a si mesma, pois nele não há base nem apoio mas um ímpeto que se renova perpetuamente.
13. O mundo olha sempre em frente não é apenas por oposição ao vazio interior mas por oposição ao mundo que a palavra de Montaigne se põe em movimento, e Montaigne recusa a direção para a qual os outros se encaminharam, pois o mundo escolheu a exterioridade e a fuga.
14. Por três vezes Montaigne constrói uma frase antitética que designa primeiro o que fazem o mundo, cada um e os outros como exemplos negativos mas cujo segundo membro põe em evidência o pronome mim e ricocheteia em uma série de verbos de ação orientados em sentido inverso em virtude de uma vigorosa antítese adverbial.
15. O eu se define e se afirma pela energia de sua negação, e em seu âmago descobriu a insuficiência e no exterior constata a mais vã agitação, e um círculo de figuras decepcionantes o cerca por todo lado mas a vertigem não se apossa dele, pois por uma decisão soberana proclama sua diferença e nesse ato descobre uma superabundância de força livre.
16. Não encontrando apoio nem na intimidade nem no mundo exterior o julgamento fica reduzido a apoiar-se em seu decreto e a se fazer fonte de seu ímpeto.
17. Eu curvo minha vista para dentro, e dirigida para o interior a energia não se dissipará, pois o sujeito anteposto nos postos avançados do enunciado conservar-lhe-á constantemente o domínio.
18. Voltar-se para fora como faz o mundo teria sido entregar-se ao que é outro, sofrer uma servidão estranha e dilapidar o mais precioso de si mesmo, e ao refletir seu olhar para o espaço interno Montaigne escolhe o domínio que os outros abandonam.
19. Mesmo que não haja nada para apreender no centro desse espaço e mesmo que sua própria profundidade permaneça um lugar vago, ele não terá conhecido nenhuma perda de substância e não se terá sujeitado a ninguém.
20. A volta sobre si e a reflexão do ato sobre o agente são expressas da maneira mais clara na rica série dos verbos que se sucedem, e a verve lúdica é despertada, e não se trata de uma simples enumeração sinonímica nem de uma ação única diversamente designada.
21. Não existe aí igualmente uma ação contínua e progressiva, pois com cada verbo Montaigne recomeçando um novo ensaio de si inaugura uma nova experiência, e cada olhar e cada movimento em direção ao interior é seguido de um breve espaço livre e de uma respiração.
22. Essa retomada permite uma nova partida depois de renovada a condenação que Montaigne dirige à conduta habitual do mundo e dos outros, e a pausa da vírgula basta para representar esse espaço livre e permite o impulso de uma vigorosa iniciativa.
23. De fato por mais que os verbos se acumulem cada um deles adquire o valor de uma ação primeira ora no modo sério ora no modo lúdico, e percorrem-se diversos domínios da sensibilidade, pois depois da visão vem o sentido gustativo e em seguida a cenestesia motriz.
24. As adições que em outras ocasiões Montaigne intercala à medida que amplia seu livro ocorrem muitas vezes no meio de suas frases as quais se distendem flexivelmente, e isso mostra bem o valor de oeil dormant que possui o breve repouso da vírgula, pois um pensamento inesperado e uma variação suplementar podem brotar e bifurcar-se mesmo muito tempo depois da primeira redação.
25. Aqui o verso de Pércio, ninguém tenta descer em si mesmo, corolário negativo de eles vão sempre para diante, foi acrescentado no corpo mesmo da frase dando um bom exemplo da construção por germinações sucessivas que é a maneira mesma de Montaigne.
26. Pela citação latina, fragmento estranho convertido em material de marcheteria, Montaigne entende fornecer uma substância mais rica e mais plena que a sua, e a sentença latina forma um arcobotante e determina uma interrupção provisória no movimento da busca.
27. Longe de ser um ornamento supérfluo a citação latina permite uma economia de energia, pois é um agente de solidificação, uma sutura e um remédio para a insuficiência de que Montaigne acusa o francês em que escreve.
28. Os verbos pelos quais Montaigne evoca seu exercício são quase todos verbos reflexivos, entretanto a última expressão mostra um lance maior ao dizer eu enrosco-me em mim mesmo, e como se arrebatada por todo o movimento que a precede essa frase evoca uma ação duplamente reflexiva para o que servem o pronome e o complemento de lugar do verbo.
29. Temos uma alma suscetível de se recolher diz em outra parte Montaigne, e as metáforas visuais dão lugar aqui a uma mobilização puramente dinâmica, pois eu era de início um horizonte aberto a um olhar que mantinha sua distância e agora é um espaço aberto à ação de um corpo.
30. Ora eu é ele próprio esse corpo, o agente do movimento que exige esse espaço, e portanto é ao mesmo tempo e indissoluvelmente o ser em movimento e a extensão livre de que o movimento precisa para se realizar.
31. O movimento ademais não é um gesto parcial, é um impulso global em que o corpo se exercita por inteiro, e enroscar-se em si mesmo possui um valor positivo pois é um movimento centrado, quando Montaigne fala de giros em outras passagens trata-se de uma giração vã no espaço externo fora de qualquer objetivo.
32. Para quem se enrosca em si mesmo a iniciativa motriz comporta a uma só vez o impulso propulsor e a mais completa reflexão sobre si mesmo, e a resultante é uma intimidade acrescida.
33. De um lado a figuração reflexiva de si multiplica as dimensões do ser e propõe-lhe de si mesmo uma imagem espacializada fabulosamente transformada em extensão com o risco de perder-lhe os limites, mas de outro lado o contato confiante da busca interior tende a negar toda distância e a reunir em uma coesão em que o espaço, o corpo e o movimento se compenetram estreitamente tudo que o desdobramento reflexivo parecia ter separado.
34. O enrolamento do movimento assim descrito cria a possibilidade de um desenrolamento posterior sob a figura escrita do registro, e enroscar-se em si mesmo é para Montaigne a forma mais intensa e mais completa da ação, pois não apenas é dirigida para o interior mas o corpo inteiro é aí a uma só vez agente, instrumento, lugar e finalidade.
35. Um exame dos diferentes tipos de ato e sobretudo dos valores que Montaigne lhes atribui nos mostraria que ele faz muito pouco caso do gesto que se aplica à matéria exterior por intermédio de uma ferramenta, e vimos isso a propósito da ideia de obra, pois a atividade técnica e o fazer que tem necessidade de um instrumento distinto para atingir seu fim é obra mecânica e como tal pouco estimável.
36. Montaigne tem nesse ponto preconceitos de fidalgo rural, e não apenas as artes liberais são aos seus olhos superiores às artes mecânicas mas também a livre conversação e a comunicação desinteressada superam qualquer ofício lucrativo ainda que fosse o das letras.
37. Assim Montaigne desculpa-se de tomar a pena e não faz profissão de escrever, pois esse é um último recurso para conversar a distância e ser ouvido depois de sua morte, e melhor obra resultará da atividade de mãos nuas que se aplica imediatamente ao seu objeto.
38. Pegar, apalpar, segurar, modelar e manusear são aí atos ao mesmo tempo mais elementares e mais nobres cujo fruto não é uma transformação material considerada vã mas um enriquecimento da experiência pessoal.
39. O manusear interessa Montaigne não para mudar as coisas mas porque a mão se instrui em seu manuseio e porque está atenta à sua própria maneira e por isso se conhece melhor a si mesma.
40. O que conta no fazer é a consciência que o corpo toma do jeito que ele confere a seu movimento, é o estilo sentido de dentro, como se a energia se dispensasse no ato apenas para se perceber, para se exercitar a si mesma e recuperando-se na medida mesma em que se dispende.
41. Aqui o eu se anima totalmente em uma ação intransitiva na qual não abandona a si próprio, e a iniciativa tendo passado da visão ao corpo inteiro exalta-o, aclara-o e sem o abandonar resolve-se em conhecimento e em prazer.
42. O que resultará daí, e sublinhemos um ponto significativo, pois o que se define e adquire forma sob os nossos olhos não é a geografia do espaço explorado mas a energia do eu explorador.
43. Montaigne não nos diz o que descobre na dimensão interior para a qual voltou toda a sua curiosidade, e desde o começo esse espaço foi designado por um termo negativo, insuficiência, e qualificou-se como um vazio e uma carência, e não saberemos mais sobre o espaço interno.
44. Ele só se enriqueceu do movimento que o penetrou, pois o que Montaigne descreve com exuberância por retomadas sucessivas é a maneira pela qual a ação refletida dirigida para o interior toma conhecimento de sua própria tensão e do ritmo de seu ímpeto.
45. Se o espaço explorado permanece indefinido e nulo, o corpo explorador se experimenta no próprio ato da busca e toma forma ao se sensibilizar com seu gesto, e a evidência que se oferece aqui não é portanto a paisagem ou o relevo de um eu profundo mais bem decifrado mas a do sujeito ignorante e incansável que jamais termina de inquirir sobre si mesmo.
46. A inspeção do eu qualquer que seja sua progressão interior jamais adquire nada que não seja a consciência muscular do movimento mesmo da inspeção, e o que Montaigne nos comunica não é o detalhe mais bem conhecido de uma realidade confusa sobre a qual sua apreensão procura aplicar-se mas os aspectos sempre mais ricos de uma consciência e de um corpo que se preparam para o ato de apreender.
47. Sem dúvida pode-se lembrar aqui a noção de sentido muscular ou de sensibilidade proprioceptiva da qual se servem os fisiologistas para designar a informação que com base no estado de contração das massas musculares nos adverte da postura de nosso corpo, e estamos mais uma vez sem saída.
48. O conhecimento de si para Montaigne é a deliciosa sensação proprioceptiva do movimento pelo qual ele se lança para o conhecimento de si, é o prazer interno da tentativa.
49. Talvez não tenhamos nada de mais importante para descobrir, pois nosso verdadeiro eu não é a realidade obscura e inconsistente à qual se dirige o esforço inacabado do conhecimento, é essa tensão e esse inacabamento mesmos.
50. Ele não é então alguma coisa que nos permanecesse oculta e que só se descobrisse depois de demorados tateios, pois está aí quase inteiro, quase aqui, quase agora, não diante da mão tateante mas no tateio e simultaneamente no vazio que nasce em nós, vazio sem o qual não haveria tateio mas não sei que estabilidade opaca e maciça.
51. A vida é movimento constante e efetivo do corpo, um movimento carnal que anima e manifesta sem cessar a presença do corpo, mas alhures Montaigne descreve outro movimento destruidor de toda consistência e toda coerência materiais, uma volubilidade extrema que se manifesta em uma série de instantes descontínuos cuja soma não chega jamais a constituir um conjunto.
52. O corpo aí não se afirma e não reúne suas energias, e deixamo-nos levar por um devaneio sem corpo, e o homem perde o pé no espaço móvel e indefinido em que se converte para si mesmo.
53. Essa dupla intuição do movimento alimentada pela experiência sensível dá lugar a um pulular de imagens dinâmicas que desenvolvem as figuras opostas da passividade e da tensão ativa em um espaço magnificamente suscitado e povoado pela linguagem.
54. Assim vemos alternar-se um movimento-escoamento em que se dissipa molemente toda forma e um movimento-gesto em que o ser assume a forma voluntária de seu ato, aí se detém e coincide sem dificuldade com sua experiência motriz.
55. Ora as imagens do movimento atribuem ao corpo o poder de produzir e de governar livremente suas iniciativas, ora o desarmam e entregam-no esparso, leve e desfeito ao fluxo universal em que se perde com resignação.
56. Pois tão grandes são alternadamente a força e a impotência de nossa condição corporal que o pensamento de Montaigne parece contradizer-se a seu respeito, e de um lado ele conhece seu corpo como um foco de energias que se empenha em conservar ciosamente e em não dilapidar no exterior.
57. O ser que age só gozará de seu esforço ao procurar vencer as resistências do mundo, e se não encontrar um objetivo é em vão que aguçará sua atenção para melhor se perceber e se concentrar em si mesmo.
58. Assim por sua constante retomada de si e sobre o apoio que lhe oferece a resistência das coisas o corpo ativo encontrará sua recompensa na percepção quase erótica de uma energia reunida, concentrada e bem retesada.
59. De outro lado Montaigne descreve esse mesmo corpo como um farrapo entregue ao fluxo, como um agregado frágil que se deixa desmanchar não apenas pelo menor piparote vindo de fora mas também pelo efeito de sua própria vaidade, de sua inépcia, de sua insuficiência e de sua incapacidade para resistir à deriva interna.
60. Jamais conseguimos manter coerentes as tendências heterogêneas que se disputam em nós, e o conjunto instável se desfaz sem cessar, pois cada peça funciona independentemente das demais.
61. Nós, nosso julgamento e todas as coisas mortais seguimos uma corrente que nos leva sem cessar de volta ao ponto inicial, de sorte que nada de certo se pode estabelecer entre nós mesmos e o que se situa fora de nós, estando tanto o juiz como o julgado em perpétua transformação e movimento, e dessa vez o giro associado ao escoamento despoja-nos radicalmente.
62. O escoamento e o gesto voluntário são movimentos perpetuamente incoativos que permanecem à distância de seu fim e não encontram termo, e no repouso passivo estamos sempre nos dispersando e nos dissolvendo, e no impulso ativo nos inclinamos para a solidez, a estabilidade e a firmeza sólida e segura mas sem as alcançar decisivamente.
63. Observemos além disso que cada um dos dois movimentos acarreta e provoca o seu contrário, e é o que ocorre no momento do retiro, pois Montaigne aspira a se concentrar em si mesmo e apercebe-se de que seu espírito banca o cavalo em liberdade engendrando quimeras e ideias estranhas sem ordem nem propósito.
64. Em compensação refletir sobre a volubilidade interior permite a Montaigne engendrar em si mesmo certa continuidade de opinião, de modo que ao experimentar o movimento passivo e seu arrebatamento vertiginoso ele sente de imediato a necessidade de uma resistência ativa que oponha contra aquilo que o domina todas as suas energias disponíveis.
65. Que olhássemos para nós mesmos, que volvêssemos o espírito e a vontade para as nossas próprias coisas, que em lugar de nos espalharmos nos concentrássemos, porquanto o exterior nos atraiçoa, diminui e dissolve.
66. Andar e ser levado, apreender e dissipar-se, sustentar-se e escoar-se, e Montaigne não apenas ensaia alternadamente uma e outra espécie de movimento mas delas faz um julgamento variável concedendo sua preferência ora a uma ora a outra.
67. Aqui é um apelo à ação e à tensão, ali é um elogio da passividade consenciente tão menos vaidosa e menos tola, e é preciso tentar apreender mas é querer agarrar a água, e é preciso deixar-se manejar mas que fraqueza ser o joguete do primeiro choque que aparecer.
68. Essas oposições e essas reviravoltas de valor são reencontradas no plano das qualidades materiais do cheio e do vazio, do pesado e do leve, que são inseparáveis das imagens do movimento.
69. Nas metáforas de Montaigne a densidade dos corpos se modifica ao sabor de seus movimentos, e conforme o corpo sofre o movimento ou o produz torna-se mais leve ou mais pesado, dissipa-se como uma fumaça ou se faz mais maciço.
70. Não há escoamento sem diminuição do peso, pois a água se torna mais leve à medida que escoa, e Montaigne passa facilmente da imagem da água à do vento, à sua inanidade pura, sem massa, sem direção nem corrente constantes.
71. Ao termo de seu aligeirar-se a imagem do escoamento se torna agitação impalpável, e o movimento que desfaz o ser se desfaz ele próprio na desordem estacionária da extrema leveza.
72. O fluxo tinha originalmente um sentido e uma orientação, e era apenas para desembocar nessa leveza desprovida de sentido, e um pouco mais e é o vazio perfeito.
73. Ao contrário a iniciativa voluntária quer tomar corpo, fortalecer seu gesto e sentir em si uma solidez que nenhum objeto exterior fará ceder, e a energia adensando-se faz-se massa, peso e plenitude, mas há um bom e um mau peso assim como há uma boa e uma má leveza.
74. A boa plenitude e o bom peso evocam sempre um contato e uma posse atual, a mão que empunha um objeto sólido que se presta à preensão, e a boa plenitude é uma qualidade comum ao objeto possuído e ao corpo que o explora.
75. Quando Montaigne fala de apreensão e de gozo firmes e plenos, firmeza e plenitude são valores mistos que pertencem conjuntamente à preensão e à coisa exterior sobre a qual a tomada se aplica.
76. A mão e o corpo em sua pressão estão em contato tão estreito com o objeto exterior que com isso se encontram mais conscientes de sua própria forma, e por essa razão o objeto se interioriza e se torna cúmplice da ação que se apoia nele e que por assim dizer o anexa e o dota de nervos, e a plenitude não é nem da ação nem do mundo mas se revela e se realiza no ponto em que estes se encontram.
77. A busca da plenitude no mais das vezes é o ato do eu que se volta sobre si mesmo como sobre um objeto privilegiado que é preciso apreender o mais de perto possível, e a consciência de início estranha e espectadora considera a sua própria vida um fragmento do mundo objetivo mas não tem descanso até que tenha restabelecido a unidade comprometida.
78. Para além da busca de uma apreensão possessiva ela avança sobre sua presa para abolir o desdobramento do eu-sujeito e do eu-objeto e para pôr fim à divisão reflexiva, pois meditar é ocupação das mais importantes, e a plenitude se explicita imediatamente em termos de ação e de esforço laborioso.
79. Mas há um mau peso e uma má plenitude que é inércia, paralisia e atulhamento, e Montaigne se encontra sempre bem firme em seu equilíbrio como os corpos pesados e maciços, e sabe-se que uma cabeça exageradamente cheia jamais valerá uma cabeça bem formada.
80. Aqui a plenitude já não é posse atual, é um preenchimento passivo em que o ser se torna pesado de substância estranha e de bagagem pedantesca, e contra esse peso Montaigne se proclama vazio, leve e esquecido, pronto a tudo deixar escapar e a tudo perder.
81. É privilégio apenas de Deus ser todo plenitude, e de nosso lado devemos aceitar nossa essência imperfeita e reconhecer que somos ocos e vazios, e falando contra a tentação da glória Montaigne acrescenta que não é de vento e de palavras que devemos encher-nos, pois precisamos para fortalecer-nos de alimentos mais substanciais e sólidos.
82. Pois ele conhece por experiência o apelo de linguagem que resulta do vazio, e o vento e a palavra se oferecem como uma primeira reparação mas tão vá, e Montaigne nos diz isso no ensaio Da glória ao acusar o excesso insubstancial com que tentamos inchar nossa reputação.
83. É-nos permitido entretanto esperar algo de maciço e de firme, e a substância mais sólida nos será concedida, e não consistiria a sabedoria em consentir no vazio, e é o que pensa Montaigne quando afirma que uma alma vazia, dócil e presumindo pouco de si possui o alicerce sobre o qual assenta a conservação da sociedade humana.
84. Por certo o vazio é um estado perigoso, pois estamos entregues à mercê de outrem se se quer fazer-nos acreditar em alguma opinião, e quanto mais a alma é vazia e nada tem como contrapeso tanto mais ela cede facilmente à carga das primeiras impressões.
85. Assim a ignorância pode expor-nos à credulidade, e que fazer senão manter a escancarção do vazio e não se satisfazer com o primeiro pretexto que se ofereça para preenchê-lo.
86. Sobretudo se é preciso aí admitir a palavra e o vento, velar para que essa palavra ao menos seja nossa e que a imagem que aí se inscreva emane não se sabe como de nosso próprio fundo.
87. Lembremos uma das explicações ou desculpas que Montaigne dá para o nascimento do livro dos Ensaios, pois achando-se inteiramente desprovido de qualquer assunto específico tomou a mim mesmo como objeto de análise e discussão, e curiosa antítese, pois a constatação do vazio precede e provoca o ato de presença para si.
88. Presença de um modelo a ser pintado de alto a baixo e não simples evidência do eu sou, eu penso a que metodicamente uma vez operado o vazio restringir-se-á Descartes, e falar de si será preencher um vazio.
89. No começo do capítulo Da amizade será estabelecida em uma página famosa a comparação com o trabalho do pintor que cobre de ramagens decorativas o espaço vazio e livre que cerca na parede de uma sala um quadro pintado em afresco, e é a esse preenchimento marginal que Montaigne assimila o que escreve.
90. Teria desejado como se sabe fazer a La Boétie a honra de tomar-lhe de empréstimo o quadro central, mas não podendo publicar o Contr'Un e substituindo-o pelos sonetos inéditos que fará desaparecer posteriormente, Montaigne resigna-se a deixar um vazio central, medida exata da insuficiência que atribui a si próprio.
91. Contemplando o trabalho de um pintor que tinha em casa teve vontade de ver como procedia, e ele escolheu primeiro o melhor lugar no centro de cada parede para pintar um tema com toda a habilidade de que era capaz e em seguida encheu os vazios em volta com arabescos e pinturas fantasistas que só agradam pela variedade e originalidade.
92. O mesmo ocorre neste livro composto unicamente de assuntos estranhos fora do que se vê comumente, formado de pedaços juntados sem caráter definido, sem ordem e sem lógica e que só se adaptam por acaso uns aos outros, e quanto ao segundo ponto Montaigne fez pois como o pintor mas em relação à outra parte do trabalho, a melhor, hesita, pois seu talento não vai tão longe e não ousa empreender uma obra rica, polida e constituída em obediência às regras da arte.
93. Como contorno o fundo vazio chama uma proliferação de formas livres, e o despojamento faz surgir uma louca originalidade, e pode-se realmente falar de uma paradoxal fecundidade do vazio pois a vegetação das figuras fantasistas brota para povoá-lo e animá-lo.
94. Falta muito entretanto para que satisfaçam a necessidade de riqueza substancial, pois o primeiro ponto, o do quadro polido e constituído segundo as regras da arte, permanecerá irrealizado, mas dessa não-realização resulta a expansão feliz do cenário marginal, a forma tão particular que consiste em tirar partido da ausência de forma.
95. Assim peso e leveza, plenitude e vacuidade representam alternadamente estados desejáveis ou fraquezas do ser, e sim há uma euforia da plenitude e há uma firmeza tranquilizadora, mas a massa de um corpo demasiado denso impede todo impulso e nos aprisiona em uma invisível armadura.
96. Assim está preso nas malhas de seu próprio peso quem acreditava segurar firmemente a presa desejável, e o gesto voluntário como se agravado por sua tensão interior pode conduzir para além de seu fim e atolar-se em seu próprio excesso e na estabilidade passiva.
97. Ao contrário a leveza é um maravilhoso privilégio, pois a consciência aligeirada jamais está cativa e pode transportar-se sem esforço de uma sensação a outra, mas logo se perde em sua ubiquidade e não retém nenhum poder, e vê apagarem-se sua identidade e seus limites, e diflui na insignificância e não passa de um sopro inconstante e derrisório.
98. Na imaginação de Montaigne o mau peso e a má leveza são as duas variantes de uma infelicidade adinâmica, pois um representa a imobilização completa do corpo e sua parada definitiva na inerte gravidade, e a outra representa sua dissipação total, e são os dois estados últimos a que podem chegar o movimento passivo e o gesto voluntário, e marcam os limites em que o movimento cessa ou então se desnorteia, mas felizmente quanto mais nos aproximamos de um extremo mais se torna imperiosa a reviravolta que nos remete ao extremo oposto.
99. Para Montaigne essa oposição aparece com frequência como o contraste da alma demasiado fluida e do corpo pesado demais, pois o corpo é uma massa entregue à inércia e a alma é uma agitação perpétua, mas a alma e o corpo podem assistir-se reciprocamente.
100. Montaigne crê na possibilidade de uma associação do pesado e do leve, de uma conciliação em que um tempera e modera o outro, e para ele a união da alma e do corpo se traduz em termos de imaginação dinâmica, e sua diferença é metafísica mas física, e não há problema aqui como haverá em Descartes em fazê-los agir um sobre o outro.
101. O movimento de um se harmoniza e se compõe sem dificuldade com o movimento do outro, e o menos denso e o mais denso podem em certas condições tornar-se miscíveis, e o homem feliz conhece essa correspondência íntima do pesado e do leve.
102. Separá-los é desmembrar um homem em vida, e na retórica das justificações da existência corporal Montaigne não se contenta com o motivo tradicional da conjugalidade e dos serviços mútuos, e experimenta a necessidade de especificar em termos dinâmicos o serviço recíproco que caracteriza o laço mais estreito.
103. É na ordem da sensibilidade cinestésica que Montaigne busca as imagens que fornecerão a evidência da conciliação dos contrários e da relação dominada, e por que desmembrar e divorciar tais elementos de uma associação tão fraternal, apertemos ao contrário o laço que os prende e façamos com que se prestem mutuamente serviço.
104. Que o espírito desperte e vivifique o corpo tão pesado em si e que este modere a leveza daquele e o torne estável, e Montaigne faz questão fundamentalmente de reduzir os contrários à composição, e não lhe importa muito estabelecer uma associação constante entre espírito e leveza e corpo e peso se a inversão dos atributos se faz simetricamente respeitando a oposição e ao mesmo tempo a possibilidade de conciliação dos contrários.
105. Eis aqui uma passagem em que o espírito ao contrário da citação anterior se caracteriza pelo peso e pelo poder de esforço, e trata-se no caso de nossa imaginação e de nossa vontade que interpretam exageradamente as cargas vindas de fora.
106. O corpo recebe as cargas que lhe impõem mas é o espírito que as distribui e distribuindo-as mal ultrapassa por vezes a medida recomendável, e uma mesma coisa faz-se com esforços físicos e determinações diferentes.
107. A vontade é uma faculdade do espírito, e Montaigne ao atribuir-lhe uma energia metaforizada pelas imagens da tensão confere dessa vez ao espírito o perigoso poder do adensamento, e o espírito aparece então como o responsável por uma sobrecarga o que lhe vale uma apreciação pejorativa.
108. Em Montaigne a tensão é um estado ambíguo, pois que se entregue ao excesso e que se crispe em seu gesto e se torna uma força nefasta contrária ao interesse vital do homem, e Montaigne só conhece tensão feliz quando esta não paralisa a faculdade do movimento.
109. A imaginação dinâmica de Montaigne não conhece apenas o movimento-escoamento e o movimento-gesto, pois inventa também sua resultante, um composto em que as duas experiências contrárias se misturam e se confundem.
110. Quando Montaigne declara que o sábio pirroniano precisa entregar-se confiando nas aparências aproxima estreitamente um gesto ativo e uma passividade consciente, e os dois movimentos aqui são conjuntos, orientados para uma mesma direção e quase fundidos um no outro.
111. O movimento ativo não opõe resistência ao movimento passivo e a passividade não impede a ação, e a harmonia assim realizada se definirá como uma maleabilidade e como um deslizar em que a iniciativa do corpo adaptando-se à corrente que lhe é imposta coincide com o fluxo que a arrasta.
112. Na maleabilidade a liberdade deliberada do gesto permanece compatível com a inclinação sofrida mas também pode dela se desprender sem excessiva tensão, pois minha melhor qualidade consiste em ser flexível e pouco obstinado.
113. Tenho inclinações mais pessoais que me são mais agradáveis mas com um pequeno esforço afasto-as ou as contrario, e o deslizamento flexível é a forma perfeita e feliz desse tipo de movimento composto.
114. Montaigne se compraz em exprimir essa euforia pelo emprego transitivo de um verbo habitualmente intransitivo, escoar a vida e deslizar a vida, e há aí um abandono por certo mas que transforma imediatamente em ato o impulso sofrido, pois a passividade se converte em atividade na qual a simples passagem da vida se torna o objeto de uma vontade que a ela se aplica.
115. O impulso voluntário vai ao encontro do repouso e do abandono confiante para a eles incorporar-se, e a fim de passar de uma inclinação a outra é preciso uma decisão, e ela se realizará com o mais leve esforço, pois quase não é mais um ato mas um deslizamento guiado.
116. Uma variedade menos constante de movimento composto aparece por vezes em Montaigne, movimento em que a tensão voluntária opõe resistência ao transporte passivo que se torna irregular e brusco, e em que a corrente é entretanto bastante violenta para impedir o gesto voluntário de alcançar o fim que visava.
117. Em uma longa alternância de derivas e de correções o corpo não cessa de se recobrar do estado passivo, e não quer a ele abandonar-se completamente nem pode resistir-lhe com sucesso, e o movimento permanecerá titubeante, vacilante, errante, rodopiante, claudicante e desancado, e não faltam qualificativos sob a pena de Montaigne.
118. É o andar da embriaguez em que o corpo não controla inteiramente suas iniciativas, perde o domínio de sua direção e no qual sua apreensão não pode mais ter confiança em seu objeto, e diferentemente do movimento flexível em que se expande uma continuidade fácil o ser titubeante só se move abruptamente de maneira descontínua, e de instante em instante sua energia se esgota e renasce.
119. Que essa desigualdade de andar e essa recuperação à beira da perda possam ter um valor erótico Montaigne o atesta no que diz do amor da coxa, e no sistema dos movimentos metafóricos vacilar nem sempre é cair, pois vacilar mantém o meio entre o caminho reto e a queda.
120. Ir direto à verdade das coisas é o sonho do conhecimento filosófico mas há sempre uma verdade mais próxima que a filosofia negligencia, e a Montaigne compraz a ideia da jovem de Mileto que vendo o filósofo Tales continuamente ocupado a contemplar a abóbada celeste colocou alguma coisa em seu caminho para que tropeçasse.
121. A queda é o castigo da presunção que esquece de olhar para si, e quem olha para si se destina a seguir um movimento irregular, multiforme e imprevisível, e é-lhe necessária muita força para prosseguir pois a velhice é ela própria uma queda.
122. Resta a vagabundagem, pois Montaigne passa de um assunto a outro sem regra nem transição, e seu estilo e seu espírito vagabundeiam juntos, e se deixa para trás alguma coisa por ver ele volta, e qualquer caminho é seu caminho porque não tem itinerário predeterminado.
123. A flexibilidade é a mais perfeita experiência do movimento, mas não qualquer flexibilidade, pois Montaigne não quer perder nada e faz questão de experimentar a uma só vez o gesto de ir e a embriaguez de ser levado.
124. A síntese feliz mantém intacta a diferença dos contrários que nela se harmonizam, e a fusão demasiado íntima dos extremos nos condenaria à simples moderação, a uma sabedoria medíocre, fraca e prudente que não é de modo algum do feitio de Montaigne a despeito de uma legenda solidamente propagada.
125. É-lhe necessária uma maleabilidade contrastada em que o peso e a leveza permaneçam distintos formando um par no qual se exigem e se cumprem os serviços recíprocos, e o corpo e a alma unidos por uma associação tão fraternal encontram na dualidade preservada a condição fundamental de uma riqueza que se manifesta em diálogo e em tensão harmonizada.
126. Essa correspondência é preciosa porque deve ser conquistada contra uma constante ameaça de divórcio e de divisão, pois erram os que querem encarar o corpo à parte isolando-o da alma, outro elemento primordial do nosso ser, e é necessário antes juntá-los se se acham desunidos e apertar o nó que os prende um a outro.
127. Nossa dupla natureza alimenta um risco de conflito e só podemos enfrentá-lo com nossa aptidão para viver de maneira complementar e simultânea qualidades dinâmicas opostas, vivendo a atividade sobre um fundo de passividade e vivendo a passividade como o que se dissimula no próprio coração da ação.
128. O homem feliz e o ser harmonioso não ocupa um lugar intermediário entre os extremos medianamente ativo e medianamente passivo, e não é a personagem que se recusa à experiência da contradição e que não quer ser nem cheia nem vazia, nem leve nem pesada.
129. É ao contrário aquele que pertence ao mesmo tempo a todos os extremos sem dilaceração e sem desmembramento, é aquele em quem se efetua como resultado de uma graça espontânea o casamento paradoxal do abandono passivo e do assenhoreamento ativo, do consentimento e do esforço, e aceita que se manifestem os diversos registros do movimento.
130. Que sobre o fundo de um movimento inteiramente passivo se inscrevam um gesto e uma atividade densa e de um perfeito traçado voluntário, e que longe de ignorar-se um ao outro e longe de simplesmente se superpor sem relação recíproca eles se entrelacem e se designem necessariamente.
131. Que a intenção ativa implique um pleno consentimento no arrebatamento passivo e que ao contrário o fluxo passivo se deixe retomar pela ação, e a tensão do gesto e o repouso do escoamento se acentuam um pelo outro, e o ser encontra a inspiração de seu vigor no sentimento da dispersão fugidia.
132. O mesmo desdobramento harmonizado rege em Montaigne a relação entre o julgamento e o ser natural, sua distância e sua cumplicidade, pois ao julgamento pertence a tensão e ao ser natural a fluidez, e assim podem tornar-se compatíveis o conhecimento de si e o abandono ao movimento natural.
133. Uma atenção vigilante se volta para o escoamento evasivo e vago para traduzi-lo em uma sensação consciente, e muito há que fustigar a alma para que sinta como se esvai aos poucos, e a alma é ao mesmo tempo substância fluida e mola tensa.
134. O ato de sentir se situa no contato dessas duas forças representadas por imagens de sinal contrário, e ele intervém no ponto em que se retesar e ser levado coexistem em uma plenitude fugidia, isto é, em uma plenitude que a leveza do escoamento desperta e vivifica.
135. Ora essa sensação que é um peso momentaneamente vivificado também é uma leveza momentaneamente adensada, e a plenitude sensível sobrevém quando o gesto detém e fixa uma substância infinitamente leve, a vida, conferindo-lhe peso e adensando-a pelo breve instante de uma apreensão.
136. Então a tensão do julgamento e sua vigilância ativa têm por efeito deter o que entretanto não cessa de fugir, e sobretudo neste momento em que percebe que a sua vida toca de tão perto o fim Montaigne quer sublinhar quanto a aprecia, sustar a rapidez de sua fuga com sua presteza em detê-la e compensar quanto possível a transitoriedade pela intensidade.
137. Na medida em que diminui o tempo de que ainda dispõe aplica-se em fazer que a posse seja mais profunda e completa, e se a experiência imediata é a da fuga e do escoamento a consciência refletida que lhe faz face não é apenas um espelho distante no qual se traçam as imagens da fuga e do escoamento.
138. É uma atividade de captura, pois ela confere um peso imaginário ao que não tem peso, e daí resulta um prazer intenso e calmo em que o ser prova a uma só vez do vazio e da plenitude, da fraqueza e do vigor, da pobreza de quem nada tem e da riqueza de quem guarda tudo em sua posse.
139. Muitas vezes em expressões tais como deixar-se ir, deixar-se manejar ou deixar-se levar discernimos esse duplo movimento, pois é a passividade que predomina mas não sem que intervenham um consentimento ativo na passividade e uma distensão e um relaxamento voluntários da alma que teria podido recusar-se à deriva e resistir ao movimento que a arrasta.
140. Pois deixar-se arrastar não é ser arrastado, é tolerar de bom grado a corrente a que não teria sido impossível resistir, é saber que se teria em si próprio o poder de lutar e renunciar a essa luta, e a renúncia então não é covardia, pois serve ao princípio de prazer e tira do instante sofrido o maior partido possível.
141. Depois de sua queda de cavalo como vimos Montaigne não era a presa inteiramente passiva da vertigem, e a ela se entregava deliberadamente e nela se deixava deslizar não sem doçura, e com toda a consciência tênue que restava ainda nele consentia em que a vida se escoasse e fugisse.
142. Mesmo quando Montaigne aceita a extinção da consciência e a abolição do sentir enuncia o aniquilamento em uma frase comandada por um verbo pronominal em que se inscreve a ação voluntária refletida, pois se precipita então na morte e nela mergulha sem sequer a perceber como se se jogasse em um abismo silencioso e escuro que o engolisse repentinamente, e o invade um pesado sono sob o efeito do qual se torna inerte e insensível.
143. No ponto mais crepuscular da consciência ainda é preciso que Montaigne tome seu impulso pela decisão mesma de precipitar-se, e aí está mais uma vez uma imaginação acompanhada de algum prazer.
144. E leremos algumas páginas mais adiante as razões que Montaigne nos dá de sua preferência por uma morte que ocorresse longe dos seus e em plena viagem, pois ele poderá mais atentamente aplicar-se em morrer, e pois a morte ideal é uma morte ágil, uma morte dirigida, na qual a consciência esperta o acontecimento que na profundez a do corpo põe fim à presença do corpo.
145. A morte é em verdade coisa de um instante mas daria muitos dias de vida para que esse instante fosse o melhor possível, e a morte é a fuga absoluta mas se oferece ainda a uma apreensão perfeita, e ela nos desperta e é o último instante poderoso que construí-la e percebê-la como se fosse nossa obra.
146. Ela era um sono por certo mas Montaigne jamais quis dissecar completamente o sono e o agir ou o sentir, pois agir com simplicidade custa-lhe ao espírito tanto quanto mesmo dormindo age, e Montaigne se fazia despertar para entrever o sono e desejava da mesma maneira entrever a morte e avaliar seu peso.