1.9 Amigo perdido

STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).

9. O amigo perdido.

1. Em 1569 Montaigne publica a tradução da Teologia natural de Raimond Sebond, trabalho que cumpria um pedido de seu pai, e a carta-dedicatória leva de propósito a data de 18 de junho de 1568, dia em que Pierre de Montaigne morre, sem que o filho assistisse à morte do pai, ausência reparada pelo dom do livro.

2. Em 1570 Montaigne faz publicar em vários livretos agrupados em dois volumes os manuscritos que lhe restaram de Étienne de La Boétie, morto sete anos antes, e as cartas-dedicatórias que os acompanham se escalonam entre abril e setembro de 1570, ano em que vende seu cargo de conselheiro no parlamento de Bordeaux.

3. Alguns meses mais tarde, em março de 1571, Montaigne data do dia de seu próprio aniversário as inscrições votivas de sua livraria, que marcam o começo de sua retirada, e logo começará a redação dos Ensaios, cuja edição de 1580 acaba, em post-scriptum, por uma carta-dedicatória à Mme de Duras, começando o livro pelo aviso ao leitor anônimo, sem dúvida redigido em último lugar.

4. Encadeiam-se assim as marcas do apego de Montaigne a seres amados, ao pai e ao amigo perdidos, a renúncia ao cargo público e a obra pessoal empreendida para os amigos e próximos que lhe sobreviverão.

5. Montaigne empreende seu livro porque pensa no pouco tempo que lhe resta até a morte, mas suas razões de escrever se reforçam ainda quando se lembra do amigo desaparecido, cuja herança literária salvou do esquecimento.

6. Só ele gozava de minha verdadeira imagem e a levou consigo, e é por isso que Montaigne se decifra a si mesmo tão curiosamente, sendo duplo o rapporto entre o ato de escrever e a morte, pois implica ao mesmo tempo a morte próxima do escritor e a do amigo, muitos anos antes.

7. Múltiplas são as ocasiões em que Montaigne relata essa perda e seu luto: a carta de 1563 a seu pai em que conta a doença e a morte de La Boétie, as cinco cartas-dedicatórias de 1570 e, nos Ensaios de 1580, todo o capítulo Da amizade.

8. Em 1581, no Journal de Voyage, enquanto toma as águas nos banhos de La Villa, um pensamento súbito o entristece, e num acréscimo marginal ao ensaio II, VIII, que será integrado ao texto de 1595, Montaigne exclama: ó meu amigo, em valho eu mais por ter o gosto disso, ou se em valho menos.

9. A fidelidade e a assiduidade no luto se invertem em posse, e o sentimento do valor pessoal se vê aumentado, pois a escolta ininterrupta de um amigo guardado em memória constitui um elemento de constância e continuidade, talvez o único, numa vida que se sabe entregue à inconstância e à descontinuidade.

10. Há aí ao mesmo tempo o aveu de um interesse egocêntrico e a confissão de uma dependência consentida em relação ao objeto exterior, e a atenção votada à pessoa própria e o pesar de um ser perdido revelam, por seu singular mistura, a estreita interdependência que liga o sentimento do eu e o pensamento voltado ao outro privilegiado.

11. Essa conjunção se traduz pela experiência paradoxal de um luto e de um gozo simultâneos, e a salvaguarda de uma figura que não se acaba de conduzir a sua última morada se acompanha de prazer, atestando-se assim uma onipotência do pensamento e uma capacidade de vencer o esquecimento em que o indivíduo toma consciência de sua força.

12. O olhar do amigo exercia uma função essencial de conhecimento e de direção morais, pois era o detentor de uma verdade completa sobre Michel de Montaigne, verdade que a consciência mesma de Montaigne não soubera portar a grau de plenitude comparável.

13. A morte de La Boétie subtraiu a Montaigne seu único espelho, e a perda do amigo apagou para sempre a imagem que este detinha, tendo sido suprimido o duplo mais completo e verídico, de modo que a reflexão interna deverá tardiamente tomar o relé.

14. No paralelismo das duas frases, o eu toma o lugar de ele só e o verbo me decifro substitui gozava de minha verdadeira imagem, e constata-se logo que se perdeu na troca, pois a verdade da imagem não tem mais detentor e tudo está por recomeçar.

15. Em lugar do gozo que era apanágio do amigo e de uma intuição direta e total, é preciso passar pelas penas, pelos esforços e pelas descobertas parciais e sucessivas da decifração introspectiva.

16. Em lugar do saber imediato que La Boétie possuía sobre Montaigne, este só pode contar com uma abordagem tateante votada ao cuidado, e no melhor, a decifração por etapas sucessivas, justapondo as palavras, elaborará um saber discursivo por toques descontínuos.

17. Mas Montaigne envelheceu desde a morte de La Boétie e não poderá jamais reconstituir a imagem levada, tal como vivia na consciência do amigo, e o retrato do jovem Michel de Montaigne por Étienne de La Boétie está para sempre perdido.

18. É preciso produzir para outras testemunhas, ao preço de um trabalho considerável, uma outra imagem o mais aproximada possível da efígie cuja posse era espontaneamente oferecida ao amigo, e em lugar do espelho fiel em que se refletia a verdadeira imagem não resta senão a página branca onde se dizer a si mesmo, envelhecendo, com palavras sempre insuficientes em relação à reciprocidade viva.

19. A simetria perfeita em que a amizade se explica por sua causa individual tornou-se para sempre impossível, e a morte do amigo interrompeu a conversa que, através de encorajamentos, exortações, projetos partilhados e comércio de ideias, acabava no gozo mudo da semelhança fraterna.

20. É preciso doravante, numa relação assimétrica consigo mesmo e com os outros, salvar tudo o que pode ser salvo dessa felicidade abolida, dando-lhe um outro corpo, a palavra escrita e o livro, e perpetuar o que não se resigna a ter perdido é engajar-se numa atividade de substituição, de suplência e de tradução.

21. Compreende-se melhor uma atitude que Montaigne manifesta desde a carta-dedicatória a seu pai moribundo da tradução da Teologia natural de Sebond, em que escrever se justifica primeiro como cumprimento de uma missão comunicada e aceita, de uma tarefa prometida, e Montaigne faz saber com que escrúpulo quis cumpri-la.

22. A tradução conferiu ao texto uma segunda feição, e essa transformação comporta um aspecto muito vantajoso, pois o livro pode doravante se apresentar em toda boa companhia e se impor no crédito graças à vontade de Pierre de Montaigne e ao trabalho de Michel, que o desvestiram de seu latim escolástico.

23. Mas esses amendement e reformação concernem apenas ao vestuário, e Pierre de Montaigne, a quem Michel atribui respeitosamente a paternidade da tradução, resta devedor de resto, pois em troca de seus excelentes e religiosos discursos e de suas altivas concepções quase divinas, só se lhe terá trazido palavras e linguagem, mercadoria tão vulgar e tão vil que quem mais a tem não vale, porventura, menos.

24. O orgulho de ter melhorado o texto pela tradução se inverte em humildade, e diante das concepções do filósofo não se trata senão de vãs palavras e de uma simples mudança de traje, e a vida segunda do livro de Sebond não atesta em nada o valor daquele que lhe forneceu palavras e linguagem.

25. Mas de quem se trata? Michel de Montaigne, tradutor da obra, se confunde com o vós que se dirige a seu pai, cuja vontade foi o primeiro motor da tradução, e é dizer, datando o propósito do dia mesmo da morte do pai, que a obra publicada é a vontade continuada e realizada daquele que desaparece.

26. A sobrevivência da vontade paterna no livro traduzido será lembrada no começo da Apologia de Raimond Sebond, e a própria Apologia, pretextando a defesa das ideias do teólogo espanhol, será uma maneira de assegurar uma duração acrescida ao último desejo do pai.

27. Poucos dias antes de morrer, o pai de Montaigne, tendo por acaso encontrado esse livro sob um monte de outros papéis abandonados, ordenou-lhe que o pusesse em francês, e foi uma ocupação bem estranha e nova para Michel, mas, estando por sorte de lazer e não podendo recusar nada ao mandamento do melhor pai que houve, chegou ao fim como pôde, do que o pai tomou singular prazer e deu ordem de o imprimir, o que foi executado depois de sua morte.

28. O livro de Sebond, recomendado ao pai de Montaigne pela ação conservadora que poderia exercer fazendo melhor respeitar a antiga crença, tem duplamente o encargo de fazer durar o que está ameaçado de destruição, pois o pai, quando Pierre Bunel lhe oferece a obra do teólogo espanhol, já não tem muito tempo de vida, e o antigo uso religioso está abalado pelas novidades de Lutero, comparadas a um começo de doença.

29. Trata-se, em todos os sentidos, de preservar o que está em perigo e de conjurar sintomas de ruína, mas assim como a carta-dedicatória ironizava sobre a mercadoria tão vulgar e tão vil das palavras e da linguagem, a Apologia, atacando os adversários do livro, desenvolve os argumentos do nominalismo cético até operar uma inversão perigosa para a própria autoridade que Montaigne queria preservar.

30. É a uma humilde confissão de insuficiência pessoal que Montaigne quer chegar, arrastando nela os adversários de Sebond, mas os leitores não tardaram a perceber que o pensamento de Sebond, longe de se achar melhor protegido, caía sob os golpes dessa crítica radical do saber humano.

31. A humildade do filho, desejoso de sustentar a causa do pai, arrisca desservi-la por excesso de zelo, e trata-se aí de uma consequência involuntária e talvez de uma astúcia do inconsciente, mas em sua vontade consciente Montaigne não cessou de procurar manter sob seu olhar tudo o que lhe lembrava seu pai.

32. Longa é a lista do que Montaigne quis conservar para fazer honra à memória do pai: hábitos de vestuário, objetos miúdos, funções públicas e corpos de edifício da residência familiar.

33. O pai amava construir Montaigne, onde nascera, e em toda essa política de negócios domésticos Montaigne gosta de se servir de seu exemplo e de suas regras e a elas ligará seus sucessores tanto quanto puder, glorificando-se de que a vontade do pai se exerça ainda e aja por ele.

34. Montaigne não quer falir na tarefa de continuar e conservar o que lhe foi transmitido, e nisso está talvez, secretamente, a pedra angular de seu conservadorismo político, e ainda aqui a autoacusação acompanha o voto de salvaguardar o que lhe foi confiado por um moribundo.

35. Montaigne acusa sua preguiça de não ter ido até o fim de acabar os belos começos que o pai deixou em sua casa, tanto mais que está em grandes termos de ser o último possuidor de sua raça e de nela pôr a última mão, mas avança também uma escusa: não tem descendência masculina a quem transmitir a morada com o nome.

36. Montaigne pode então construir sua vida e seu livro renunciando a construir Montaigne além dos projetos formados pelo pai, e construir seu livro é assegurar à vontade do pai a sobrevivência que os muros do castelo, destinados a passar a outras mãos, já não podem garantir-lhe.

37. Uma mesma intenção de piedade filial e um mesmo desejo de salvar uma imagem de vida mudam de lugar, descobrem um novo material e se dão outro ponto de aplicação.

38. No que toca a Étienne de La Boétie, o mesmo desejo de continuação póstuma é altamente proclamado por Montaigne, primeiro pela publicação das obras do amigo e pelo dom que delas faz, nas cartas-dedicatórias, a leitores privilegiados a quem confia a guarda das relíquias que dão testemunho da pessoa do desaparecido.

39. Testemunho que Montaigne estima imperfeito em relação ao que era, e sobretudo ao que prometia, Étienne de La Boétie, qualidades e promessas que ficaram desconhecidas, e tal é a argumentação que expõe primeiro a M. de Mesmes.

40. Montaigne estima que seja grande consolação à fraqueza e brevidade desta vida crer que ela se possa firmar e alongar pela reputação e pela renome, e, tendo amado mais que toda outra coisa o senhor de La Boétie, o maior homem de nosso século, pensaria falir gravemente a seu dever se deixasse esvanecer e perder tão rico nome e memória tão digna de recomendação, esforçando-se por ressuscitá-lo e pô-lo de novo em vida.

41. Montaigne crê que La Boétie o sinta de algum modo e que esses ofícios o toquem e alegrem, pois ele se aloja ainda em Montaigne tão inteiro e tão vivo que não o pode crer tão pesadamente enterrado nem tão inteiramente afastado de seu comércio.

42. Cada novo conhecimento que Montaigne dá dele e de seu nome é outro tanto de multiplicação desse seu segundo viver, e sua fama se enobrece e se honra do lugar que a recebe, cumprindo a Montaigne não só espalhá-la o mais possível, mas ainda dá-la em guarda a pessoas de honra e de virtude.

43. A Michel de L'Hospital, Montaigne dirá que seu amigo nunca recebeu emprego à sua medida na coisa pública e que só escreveu por maneira de passatempo, não se tendo feito reconhecer e sendo negligente em se pôr a si mesmo em luz.

44. Os versos latinos de La Boétie devem ser considerados como ponto de partida de uma indução divinatória, e Montaigne suplica ao chanceler de L'Hospital que suba por essa obra ao conhecimento dele mesmo e por conseguinte ame e abrace seu nome e memória.

45. Montaigne se autoriza aqui de um raciocínio que remonta da parte visível, deixada imperfeita, ao todo admirável que não teve a possibilidade de se manifestar, pois os próprios jogos dos grandes personagens trazem aos clarividentes alguma marca honrosa do lugar de onde partem.

46. Do mesmo modo, nos Ensaios, a propósito dos jogos de xadrez de Alexandre, Montaigne dirá que cada parcela e cada ocupação do homem o acusa e o mostra igualmente que outra, mas La Boétie não teve tempo de mostrar o que valia, e o verdadeiro suco e medula de seu valor o seguiram, não tendo restado senão a casca e as folhas.

47. Montaigne, dizendo-se incapaz de as fazer ver, evoca por preterição os religiosos arrebatamentos da alma de La Boétie, sua piedade, sua virtude, sua justiça, a vivacidade de seu espírito, o peso e a saúde de seu julgamento, a altura de suas concepções tão longe elevadas acima do vulgo, seu saber, as graças companheiras ordinárias de suas ações, a terna amizade que portava a sua miserável pátria e seu ódio capital e jurado contra todo vício, principalmente contra essa vil traficância que se cobre sob o honroso título de justiça.

48. La Boétie teria merecido um grande emprego e ele mesmo o lamentou durante sua última doença, segundo a relação que Montaigne dá, e Montaigne pede para ser crido sob palavra, pois deseja assegurar um lugar e um alojamento a essa figura em perigo de esquecimento, cujos escritos por si sós não bastam para garantir a sobrevivência.

49. Montaigne deseja maravilhosamente que ao menos depois dele a memória de La Boétie, a quem só deve agora os ofícios de sua amizade, receba o prêmio de seu valor e se aloje na recomendação das pessoas de honra e de virtude.

50. Montaigne pode se pôr como garante, pois diz que nunca se ditou nem escreveu nas escolas dos filósofos do direito e dos deveres da santa amizade nada mais exato do que o que ele e La Boétie praticaram juntos, e o repetirá na carta-dedicatória a M. de Lansac, pedindo-lhe que continue em relação ao nome e à memória de La Boétie sua boa opinião e vontade.

51. Montaigne acrescenta, para engrandecer a imagem do amigo perdido, que Lansac não tenha medo de acrescentar algo, pois, não o tendo conhecido senão pelos testemunhos públicos que ele dera de si, é Montaigne quem responde por ele, que tinha tantos graus de suficiência além que Lansac está longe de tê-lo conhecido todo inteiro.

52. La Boétie fez a Montaigne, em vida, a honra que ele põe na conta da melhor fortuna de sua vida, de estabelecer com ele uma costura de amizade tão estreita e tão unida que não houve viés, movimento ou mola em sua alma que Montaigne não pudesse considerar e julgar, a menos que sua vista às vezes tenha ficado curta.

53. Sem mentir, La Boétie era, tudo considerado, tão perto do milagre que, para não se fazer desacreditar lançando-se fora das barreiras da verossimilhança, é forçoso, falando dele, que Montaigne se restrinja e cerceie abaixo do que dele sabe.

54. Dirigindo-se a M. de Foix, Montaigne se reclamará de modo mais explícito das confidências recebidas para testemunhar uma grandeza que não deixou marcas bastante probantes nem na vida ativa nem na obra escrita, e a glória que quer unir à virtude de La Boétie não é indevida, sendo preciso crer nele, Michel de Montaigne, como em um apóstolo ou discípulo de Sócrates.

55. Montaigne é o primeiro a saber quão perniciosa é a licença de jogar ao vento os louvores de cada um e estima que o vício de mentir é sempre muito malsoante a um homem bem nascido.

56. La Boétie tem o infortúnio de que, tendo fornecido a Montaigne quanto homem pode de ocasiões muito justas e muito aparentes de louvor, Montaigne tem bem pouco de meio e de suficiência para lhe render, ele que só a ele se comunicou até o vivo e que só ele pode responder de um milhão de graças, perfeições e virtudes que morrem ociosas no seio de tão bela alma.

57. Montaigne se acha tão desguarnecido e de crédito para autorizar seu simples testemunho e de eloqüência para enriquecê-lo e fazê-lo valer, que pouco faltou para que abandonasse todo esse cuidado, não lhe restando do amigo por onde dignamente possa apresentar ao mundo ao menos seu espírito e seu saber.

58. Mas enfim Montaigne tomou partido que seria bem mais escusável a La Boétie ter sepultado consigo tantos raros favores do céu do que seria a Montaigne sepultar ainda o conhecimento que dele lhe fora dado.

59. Montaigne justifica a justaposição arbitrária dos diferentes livretos de seu amigo pela necessidade de estender o mais amplamente possível sua memória, e esse legado literário, tão heterogêneo, é sem comum medida com a personalidade soberana do defunto, tendo Montaigne de propósito publicado por pedaços, de modo sistematicamente esparso, para lhe multiplicar os destinatários.

60. Tendo curiosamente recolhido tudo o que achou de inteiro entre os borrões e papéis esparsos de La Boétie, joguete do vento e de seus estudos, Montaigne achou bom distribuir e repartir em tantas peças quantas pôde, para daí tomar ocasião de recomendar sua memória a tantas mais gentes, escolhendo as mais aparentes e dignas pessoas de seu conhecimento.

61. A diversidade dos destinatários contribuirá para a difusão do louvor póstumo, e em revanche, para preservar a imagem única desse homem único, a consciência de Montaigne, confidente privilegiado, se oferece como o foco onde se reúne tudo o que permaneceu esparso, sendo ele o único depositário e único respondente a quem se descobriu a grandeza em seu inteiro valor.

62. A posteridade o crerá se lhe parecer bem, mas Montaigne lhe jura sobre tudo o que tem de consciência tê-lo conhecido e visto tal, tudo considerado, que a custo por desejo e imaginação poderia subir além, estando longe de lhe dar muitos companheiros.

63. Montaigne suplica humildemente a M. de Foix não só tomar a proteção geral de seu nome, mas ainda desses dez ou doze versos franceses que se jogam como por necessidade ao abrigo de seu favor.

64. Leiam-se esses versos franceses como simples exercício, pois não era ocupação nem estudo de La Boétie, que a custo ao fim de cada ano punha uma vez a mão à pena, testemunha disso o pouco que nos resta de toda a sua vida.

65. Montaigne diz a Foix que vê verde e seco tudo o que lhe veio às mãos, sem escolha e sem triagem, de modo que há coisas da própria infância de La Boétie, e em suma parece que ele só se meteu a isso para dizer que era capaz de tudo fazer, pois mil e mil vezes, mesmo em suas conversas ordinárias, viram sair dele coisas mais dignas de serem sabidas e admiradas.

66. Infelizmente essa alma superior não teve tempo nem sorte de se produzir na cena do mundo, e Montaigne, tão inclinado a acusar a vaidade das palavras, se vê obrigado a constatar que só sua palavra serve de intermediária entre o que foi Étienne de La Boétie e a memória gloriosa que gostaria de ver acolhida, alojada e tomada em guarda por vários grandes personagens.

67. Quando Montaigne, na última das epístolas dedicatórias, se dirige a sua mulher, não é só para lhe lembrar o legado de papéis e livros que esse seu caro irmão lhe fez ao morrer, mas sobretudo, depois da morte de uma filha perdida no segundo ano de vida, para lhe recomendar ler, na tradução de La Boétie, a carta consolatória escrita por Plutarco a sua mulher numa circunstância análoga.

68. Como melhor escutar a voz da filosofia do que quando a fortuna nos impõe a prova mesma de que fala essa voz consoladora, e Montaigne escreve que bem se lamenta que a fortuna lhe tenha tornado esse presente tão próprio, assegurando o desgosto maternal a apropriação e a guarda que Montaigne desejava em cada uma das precedentes cartas-dedicatórias.

69. Também desta vez a voz de La Boétie, que se insinuou no pensamento de Plutarco, não deixará de ser ouvida, e no círculo dos amigos, a quem Montaigne quis fazer parte dos escritos de La Boétie, não há nenhum mais privado que sua esposa.

70. Montaigne, uma vez mais, alega sua própria fraqueza para se apagar e deixar falar La Boétie, que se pôs ele mesmo ao serviço de um texto antigo exemplar, deixando a Plutarco o encargo de a consolar e de a advertir de seu dever, pedindo-lhe que o creia por amor de Montaigne, pois ele lhe descobrirá suas intenções e o que se pode alegar nisso muito melhor do que Montaigne mesmo faria.

71. Nesse último aspecto de seu segundo viver, La Boétie, intérprete de Plutarco, é expressamente posto à contribuição para encorajar o trabalho do luto, e arrancado a sua primeira morte, o irmão ressuscitado sob as espécies do livro deve ajudar a curar a ferida produzida pela criança perdida e pela descendência ainda ausente.

72. Convém reler aqui um dos passos importantes da longa carta que Montaigne escrevera a seu pai para lhe relatar os últimos instantes de La Boétie.

73. La Boétie começou a pedir e repedir com extrema afeição que lhe dessem um lugar, de modo que Montaigne teve medo que seu julgamento estivesse abalado, e tendo-lhe docemente lembrado que se deixava levar pelo mal e que essas palavras não eram de homem bem assisado, La Boétie não se rendeu ao primeiro golpe e redobrou ainda mais forte, chamando Montaigne de irmão e perguntando se lhe recusava um lugar.

74. Até que La Boétie constrangeu Montaigne a convencê-lo por razão e a lhe dizer que, pois respirava e falava e tinha corpo, tinha por conseguinte seu lugar, ao que ele respondeu que tinha, mas não era aquele que lhe era necessário, e que, quando tudo se diz, já não tinha ser.

75. Montaigne lhe disse que Deus lhe daria um melhor bem logo, e La Boétie respondeu que já lá estivesse, pois havia três dias que penava para partir.

76. A imploração do moribundo, que Montaigne parecia não compreender, foi desde então plenamente entendida, e o lugar de La Boétie é doravante não só a livraria onde Montaigne mandou transportar os livros e papéis desse irmão desaparecido, mas ainda a memória de alguns altos personagens a quem ofereceu publicamente o livretos de suas obras, recomendando-lhes tomar sob sua guarda o nome de La Boétie.

77. Os leitores de 1570, lendo as cartas-dedicatórias, não poderão ignorar esse alojamento e esse abrigo honrosos que um autor desconhecido implorava para um grande homem desconhecido e cedo demais arrebatado ao mundo.

78. A tarefa não estava acabada, pois Montaigne reservava o Discurso da servidão voluntária para o pôr no lugar de honra, ao centro do primeiro livro dos Ensaios, e ele o merecia, pois era o análogo de um quadro rico, polido e formado segundo a arte, enquanto em torno dele a prosa de Montaigne não podia formar senão uma moldura de grotescos decorativos.

79. Ainda aqui, como nas cartas-dedicatórias, Montaigne pratica a sprezzatura e se declara inferior e menos suficiente, ainda que a obra de seu amigo não tenha sido mais que um exercício de adolescente escrito por maneira de ensaio, e o ensaio Da amizade retoma e desenvolve livremente um motivo de que já tinha entretido os dedicatários de 1570, fazendo a história dessa amizade e comparando-a a outras para a pôr fora de par.

80. Montaigne pode, com justiça, se considerar o fiel executor dos últimos pedidos de seu amigo, pois preservou a imagem de La Boétie, deu-lhe um lugar e dele ficou guardião e depositário ciumento, e se não tivesse a toda força mantido um amigo que perdeu, tê-lo-iam despedaçado em mil contrários rostos.

81. Todavia, ter salvaguardado o nome de La Boétie e tornado públicas suas obras não é ainda ter feito sobreviver suficientemente um ser que se dera mais aos deveres da amizade que aos da escrita ou aos da vida pública.

82. Ter publicado suas obras é acaso ter-lhe dado todo o lugar que ele reclamava?

83. A experiência da amizade tinha sido a de um transporte recíproco das vontades, uma alienação voluntária de parte a parte, e Montaigne diz que não é uma especial consideração, nem duas, nem três, nem quatro, nem mil, mas não sei que quinta-essência de toda essa mistura que, tendo tomado toda sua vontade, a levou a se mergulhar e se perder na de La Boétie.

84. Tendo tomado toda a vontade de La Boétie, essa quinta-essência a levou a se mergulhar e se perder na de Montaigne, numa fome e numa concorrência parelhas, e Montaigne diz perder, na verdade, não se reservando nada que fosse próprio nem que fosse de um ou de outro.

85. A lugar de La Boétie era em Montaigne, o qual por sua vez se tinha perdido na vontade de seu amigo, e nota-se de passagem que essa reciprocidade completa no dom total constitui o modelo da doação recíproca que Rousseau, no começo do Contrato social, fará intervir entre o indivíduo e a comunidade inteira no instante fundador.

86. Essa alienação total se torna constitutiva de um novo corpo e de uma nova vontade, a vontade geral, e não seria arriscado afirmar que Rousseau se serve do modelo da philia e da amicitia, tal como o podia encontrar em Aristóteles e Cícero ou em Montaigne, para o aplicar à polis animada por um eu comum.

87. Nada é mais nítido em Montaigne que a imagem de dois corpos habitados por uma só alma e a de uma vontade que, fundada sobre uma certeza pessoal, se confunde com a de outro, mas para ele a perfeita amizade não pode se alargar a mais de dois parceiros, não se podendo repartir senão as amizades comuns.

88. A amizade superior só pode ser realizada a dois, na gemelidade, e o exemplo romano que Montaigne cita é o de Tibério Graco e Caio Blósio, que, tendo-se perfeitamente cometido um ao outro, mantinham perfeitamente as rédeas da inclinação um do outro.

89. Produz-se aí uma confusão tão plena de nossas vontades que, por via de consequência, Montaigne não está em dúvida de sua vontade e tampouco da de tal amigo, e a certeza quanto ao querer do irmão em amizade não é menos inteira que a certeza de si.

90. Não está no poder de todos os discursos do mundo desalojar Montaigne da certeza que tem das intenções e julgamentos de seu amigo.

91. Ora, tal troca de vontades é também uma troca de olhares, uma evidência sem sombra oferecida ao conhecimento, e Montaigne diz que nenhuma das ações de La Boétie lhe poderia ser apresentada, por qualquer rosto que tivesse, que logo não lhe achasse a mola.

92. As almas dos dois carregaram tão unidamente juntas, se consideraram com afeição tão ardente e com parelha afeição se descobriram até o fundo das entranhas uma à outra, que Montaigne não só conhecia a de La Boétie como a sua, mas se teria certamente mais de bom grado confiado a ele de si que a si mesmo.

93. A confusão das vontades ia de par com a troca das imagens em que cada um dos dois amigos oferecia ao outro um espelho verídico, unidade no desdobramento, unidade tanto melhor sentida quanto superava a dualidade.

94. O desdobramento era tanto mais precioso quanto confiava à consciência do outro a verdade total de que o eu, em si mesmo, não possuía a certeza no mesmo grau, e a perda de si na vontade do amigo era também a expansão da esfera do eu.

95. O segredo que Montaigne jurou não revelar a nenhum outro, pode, sem perjúrio, comunicar aquele que não é outro, que é ele mesmo, e é um bastante grande milagre se dobrar, expressão que pode designar o acréscimo por redobramento de uma identidade primeira e a cisão por desdobramento de uma substância única.

96. A vontade de Montaigne se redobra e se aumenta na vontade do amigo, e sua imagem se desdobra na imagem mais verdadeira que recolhe para lhe oferecer o olhar do amigo, mas se este vem a morrer, Montaigne é ao mesmo tempo renviado a sua singularidade primeira como a uma meia-vida e privado da certeza em que estava de que sua verdade inteira se alojava fora dele, num olhar fraternal e severo.

97. Comparando todo o resto de sua vida aos quatro anos que lhe foi dado gozar da doce companhia e sociedade desse personagem, Montaigne diz que não é senão fumaça e noite obscura e enfadonha, e desde o dia em que o perdeu não faz senão arrastar-se languescente, e os prazeres mesmos que se lhe oferecem, em vez de o consolar, lhe redobram o pesar de sua perda.

98. Eles eram metade de tudo, e parece a Montaigne que rouba a La Boétie sua parte, pois estava já tão feito e acostumado a ser segundo em tudo que lhe parece não ser mais que metade.

99. Não há ação ou imaginação em que Montaigne não o ache a dizer, como se tivesse feito bem a ele, pois assim como La Boétie o superava de uma distância infinita em toda outra suficiência e virtude, também o fazia no dever da amizade.

100. O sobrevivente é ao mesmo tempo o culpado, porque em todos os prazeres de que goza só rouba a parte do outro, e aquele que vive doravante como um ser mutilado, experimentando em si mesmo um excesso e uma falta.

101. Ele porta só a carga demasiado pesada de sua vida sem respondente e já não tem depositário, e por outro lado já não é senão fragmento ou fumaça, tendo perdido a consistência ontológica da existência dobrada, conhecendo apenas o redobramento do pesar.

102. Prolongar o nome de La Boétie e alongar seu ser, preservar uma imagem de vida, não é, pois, somente um piedoso dever para com o amigo perdido, mas fazer com que, segundo uma modalidade para sempre insuficiente, Montaigne possa ver brilhar, na imagem fraternal que guarda em sua memória, o olhar que La Boétie dirigia para ele e a imagem de si mesmo que esse olhar lhe oferecia.

103. O lugar que o amigo moribundo reclamava se encontra na consciência mesma de Montaigne, e será restituir a La Boétie como uma sombra de sua parte roubada e, ao mesmo tempo, no curioso deciframento de si, cumprir a título substitutivo o ofício do amigo perdido.

104. Assim, pela memória e pela reflexão, numa relação tornada assimétrica pela morte, o casal das imagens fraternas pode ser perpetuado graças ao trabalho de uma só consciência, e tendo mantido um amigo que perdeu, Montaigne se obrigou a perpetuar como dever legado a extrema atenção e a vigilante severidade que seu amigo lhe testemunhava.

105. Renova-se e se acentua, na relação póstuma, uma experiência provada no vivo da existência, pois a proximidade do amigo era sentida como uma espécie de redundância, enquanto a separação lhes dava aos dois o sentimento de uma posse acrescida da vida.

106. Montaigne diz que eles preenchiam melhor e estendiam a posse da vida ao se separarem, pois La Boétie vivia, gozava e via por ele, e ele por La Boétie, tão plenamente como se este aí estivesse, e uma parte permanecia ociosa quando estavam juntos.

107. A separação do lugar tornava mais rica a conjunção de suas vontades, e a separação, na época em que podia ser seguida de uma reunião, era fornecedora de plenitude, pois o afastamento permitia um exercício mais ágil da reciprocidade, continuando o diálogo da amizade a distância.

108. Não era isso já um exercício de preparação para o afastamento definitivo? La Boétie via por Montaigne e Montaigne por La Boétie, e o quiasmo, figura do entrecruzamento dos olhares, se torna recurso para quem permanece só, se guarda viva a imagem do amigo perdido.

109. O olhar refletido e a soberania do julgamento, que Montaigne preserva em si incorruptíveis e firmes, substituem, bem ou mal, a metade de si mesmo de que se sente diminuído.

110. Por aí se acha interiorizado e introjetado o olhar amical e lúcido de La Boétie, que é a luz voltada para dentro e a vigilância afetuosa que observa e controla a vida cambiável e fantástica, e do fundo da morte ele persiste a velar no olho vivo da consciência de si e da escrita.

111. A dualidade interior que cinde o ato introspectivo num sujeito que olha e num objeto olhado é oriunda da morte, e é o sujeito observador que está no lugar do morto, como sua vida segunda e sua ausência acentuada.

112. A consciência de si e o julgamento, em sua continuidade, fixidez e desejo incessante de recolher a imagem mais verdadeira, portam em si a presença persistente de um outro, sua morte sofrida e negada, e a consciência escapa à mudança porque não pertence mais à vida, mas à sobrevivência, sendo ao mesmo tempo a testemunha mais íntima e o espectador do além-túmulo.

113. Assim a solidão do escritor resta assombrada e atravessada pela continuação interiorizada de uma sociedade perdida, como é orientada pela espera de uma sociedade futura formada de outros amigos, e o ato de escrever tem por função fazer parte a dois com o amigo desaparecido para transmitir viva a imagem de um autor que logo não terá ele mesmo outra parte onde residir, outro corpo nem outro respondente senão seu próprio livro oferecido à posteridade.

114. O período de retiro estudioso toma assim seu sentido como tempo intermediário entre dois comércios, o comércio exaltado antes do livro com o companheiro eleito e o comércio póstumo, pelo livro, com os que terão sido os próximos do senhor de Montaigne.

115. Nas duas faces temporais, o ensaio trabalha em relação à ausência, na lembrança ou na antecipação da perda, e todo o seu esforço se desdobra em vista de uma proximidade salvaguardada.

116. O que Montaigne cumpriu em relação a La Boétie e a seu pai, salvar uma imagem de vida, caberá a seu livro cumprir em relação a ele mesmo, e o livre comércio com os autores de que compôs sua biblioteca lhe revelou a possibilidade de uma relação de leitura que afronta a distância e o tempo.

117. É sobre esse modelo de sobrevivência pela obra escrita que Montaigne, com mais modéstia e mais audácia, pois pretende não ser nada e não ter nada de importante a dizer, se confia à posteridade.

118. A subjetividade solitária só se mantém viva pela sociedade exterior que transporta em si, que protege ou que fomenta.

119. Lembremo-nos das palavras que Montaigne usava na carta-dedicatória a M. de Mesmes, ao dizer que La Boétie se aloja ainda em sua casa tão inteiro e tão vivo que não o pode crer tão pesadamente enterrado nem tão inteiramente afastado de seu comércio, e as que dirigia a M. de Foix, dizendo ser ele a quem só La Boétie se comunicou até o vivo.

120. São exatamente os mesmos termos que Montaigne usará para definir, no aviso Ao leitor, em relação a seus parentes e amigos, mas também em relação ao leitor desconhecido, a intenção do livro dos Ensaios, quando diz que por esse meio nutram mais inteira e mais viva o conhecimento que tiveram dele e que seus defeitos se lerão a vivo.

121. Singular eco, em que o livro é encarregado de assegurar mediatamente a plenitude viva que a amizade mais estreita tinha produzido de modo direto pela comunicação imediata.

122. Compreende-se melhor o lugar que La Boétie e o pai de Montaigne ocupam no interior dos Ensaios, pois são a títulos diferentes os iniciadores a partir dos quais o ato de escrever se justifica, e Montaigne não pode escrever de si sem remontar a eles, como se deles tirasse ao mesmo tempo seu mandato e a escusa de sua própria imperfeição.

123. Mas escrevendo a partir deles e de sua morte, Montaigne não os imita nem os toma por modelos, pois nunca poderá ser como eles: não tem, como o pai, descendência masculina, e não possui a virtude de La Boétie, que se empregou toda inteira nos deveres da amizade.

124. A esse amigo que a fortuna privou de obra não pode responder senão uma obra cujo autor, privado do amigo mais doce, dirá quanto teria sido superado pelos livros que La Boétie teria escrito, pois se, na idade em que o conheceu, mais avançado, ele tivesse tomado desígnio tal como o de Montaigne, veríamos muitas coisas raras e que nos aproximariam bem perto da honra da Antiguidade.

125. La Boétie não terá construído senão uma grande amizade, e é preciso tantos encontros para a construir que é muito se a fortuna aí chega uma vez em três séculos, restando a Montaigne se estofar e construir ele mesmo, para seu livro e por seu livro.

126. A solidão em que Montaigne conversa consigo mesmo e, segundo a fórmula humanista, se torna uma multidão para si mesmo, não é pois nutrida apenas das potências do eu, mas porta em si a exigência do outro, a lembrança ou o apelo de um comércio estreito com uma consciência estrangeira.

127. Essa solidão é o fruto tardio do diálogo interrompido com aquele que, segundo Cícero, é como um outro eu, e se prepara para oferecer ao leitor um autorretrato póstumo.

128. A exigência de comunicação ocupa todas as dimensões temporais em Montaigne: ela volta ao passado, pois, como ele sabe por experiência demasiado certa, não há consolação tão doce na perda de nossos amigos quanto a que traz a ciência de nada ter esquecido a lhes dizer e de ter tido com eles uma comunicação perfeita e inteira.

129. E ela se volta para o futuro, pois o amigo a quem nos comunicamos plenamente é também aquele de quem falaremos a outros destinatários, e não basta ter-lhe dito tudo, sendo preciso ainda, gratuitamente e sem esperança de retorno, surenchérir de benevolência depois de seu desaparecimento.

130. Montaigne diz que os que mereceram dele amizade e reconhecimento nunca a perderam por não estar mais, e que os pagou melhor e mais cuidadosamente, ausente e ignorante, falando mais afetuosamente de seus amigos quando já não há meio de que o saibam.