3.1 Modos específicos

SOURIAU, Étienne. Les différents modes d'existence. Paris: Presses Universitaires de France (PUF), 1943. (Reedição contemporânea monumental com longo ensaio introdutório de Bruno Latour e Isabelle Stengers: Paris: PUF, 2009).

Terceiro capítulo: Os modos específicos de existência

Seção I

1. De todos os estatutos existenciais, o fenomenal é o mais evidente e manifesto, tanto em sua existência quanto em sua essência, inseparáveis, podendo ser o próprio manifesto em si.

2. O fenômeno é presença, irradiação, um dado que não pode ser repelido, que é e pretende ser apenas o que é.

3. Denunciar o fenômeno como tênue, lábil e fugaz e postular por trás dele um suporte estável é admitir a perturbação diante de uma existência pura de um só modo, que no entanto serve de confirmação, coroamento e recompensa desse suporte, pois toda técnica de fazer aparecer, do físico ao místico, põe um ôntico em relação com o fenômeno, que, de manifesto, torna-se manifestação ao partilhar sua patuidade com o suporte, e nisso consiste sua generosidade.

4. A existência fenomenal é existência em patuidade, em estado lúcido e resplandecente, e o suposto encontro com o fenômeno seria a passagem da existência obscura à existência manifesta, sem que se deva tomar a existência obscura, apenas inferida, como necessariamente anterior, pois só o ser tecido com a luz do presente é imediatamente incontestável.

5. Essa constatação não implica o fenomenismo de Hume ou Renouvier, que nega toda existência fora do fenômeno, pois a existência do fenômeno não exclui outros modos, e nenhuma filosofia lhe negou existência, nem o platonismo, que quer salvá-lo, nem Maurice Blondel, para quem o universo das aparências constitui uma realidade.

6. Cabe perguntar onde começam então as dificuldades.

7. Algumas dificuldades são teóricas, pois se pergunta se o fenômeno basta a si mesmo, se pode ser isolado ou se implica algo além de si, não só a substância ou o suporte, mas a intencionalidade e a essência, a subjetividade e o eu testemunha.

8. Outras dificuldades são práticas, pois não é fácil isolar inteiramente o fenômeno e reduzi-lo a si mesmo para experimentá-lo em estado puro.

9. Árvores floridas contra o céu azul e a grama verde, com o frescor e a autoridade de suas cores e o pequeno buquê na ponta de um galho sobre o turquesa do céu, parecem obrigar a admitir algo real.

10. Sabe-se, porém, quanto do sensorial é relativo e diferencial, e a intensidade de presença desse espetáculo parece residir na harmonia e na estrutura desse acorde em azul, verde e rosa, num princípio espiritual e formal que pode ser destacado como alma e chave de sua patuidade indubitável.

11. Esse complexo primaveril deve também seu brilho ao contraste com os tons cinzentos do inverno ainda lembrado, como vitória sobre a dúvida e a ausência, num jogo de relações afetivas e conceituais que contribuem para seu sentido, o qual parece exigir um espectador para quem tudo isso tem sentido.

12. A única resposta indiscutível é efetuar a redução existencial, antítese exata da redução fenomenológica, que exige uma inversão difícil e permite colocar-se no centro do fenômeno puro para senti-lo como suporte e garantia do resto, sendo outra questão saber que passagens morfemáticas conduzem dele a outros modos.

13. A dialética fenomenológica coloca entre parênteses o próprio fenômeno em sua presença real e imediata para considerar apenas aquilo que ele implica ao mover-se para outra coisa, de modo que a fenomenologia é o lugar onde menos se encontra o fenômeno, pois, como diz Kim, o lugar mais escuro é sob a lâmpada.

14. Dizer que o fenômeno implica, chama ou supõe é fruto de um pensamento bastardo que o procura e o abandona ao mesmo tempo, dissecando-o exangue, ao passo que quem o apreende vivo vê que ele estabelece no estado fenomenal suas intenções e vecções de apetição, e que o eu é fenomenal porque há uma forma de egoidade no próprio fenômeno, uma assinatura como o estilo intrínseco de um quadro é a assinatura de um mestre.

15. A dificuldade proveniente do caráter relativo da sensação é ainda menor.

16. A sensação pura, se pudesse ser isolada, não seria fenomenal, pois a sensação em geral, incluída na percepção, é um mau exemplo do fenômeno, uma variedade impura envolvida numa construção complexa, havendo fenômenos também no afetivo e nas experiências mais abstratas e inefáveis do pensamento.

17. Na sensação o caráter fenomenal é intenso, mas muito misturado, sendo as sensações como o estrépito do fenômeno, ao passo que as nuances delicadas das essências sentimentais e os clarões vagos do pensamento puro, da meditação moral ou da experiência mística são as notas e acordes de sua música.

18. É ingênuo considerar o fenômeno puro como necessariamente simples, um átomo qualitativo, pois simplicidade e pureza não são sinônimos, e o fenômeno ao mesmo tempo puro e simples buscado na sensação pura é um caso extremo.

19. Embora essencialmente qualitativo, o fenômeno não deve ser oposto ao quantitativo, pois há fenômenos do quantitativo, como o sentimento do ritmo, e o qualitativo não exclui a pluralidade nem as arquitetônicas que ela comporta, como quando se sente num acorde musical estranho tanto sua qualidade inefável quanto as relações matemáticas que nela se exprimem.

20. O fenômeno talvez deva toda sua irradiação a uma arte imanente de harmonia e arquitetônica, não à arte abstrata separável por comparação e indução, mas à arte concreta efetivamente atuante em sua existência presente, lei de sua irradiação e alma de sua patuidade, cuja consideração separada distingue apenas existência e ser do fenômeno sem referi-lo a outra coisa.

21. Pensando numa fenomenalidade interior e intrínseca, no que é para uma alma ou personalidade existir no estado lúcido e deslumbrante, como diz Pascal, vê-se que a posse desse existir remete à prática efetiva da arte que constitui um ser no plano do lúcido, com a maestria que supõe a vitória sobre as sombras.

22. Seria possível insistir no caráter discreto, estelar e microcosmicamente limitado do fenômeno, em sua relação com o instante e o hic et nunc, no mundo fenomenal como Maya e conjunto de pontos cósmicos de lucidez, na presença do eu como assinatura de certos pontos, na possibilidade de fenômenos partilhados por várias assinaturas egoicas e na organização harmoniosa de seu pleroma, que já coloca questões de organização mediada segundo outros modos.

23. Importa sobretudo ter abolido certos erros, pois para apreender a existência fenomenal é preciso evitar concebê-la como fenômeno de algo ou para alguém, aspecto que assume quando encontrada a partir de outra modalidade ou quando, como fazem os fenomenólogos, se tenta passar dela a outras existências, e só se concebe o fenômeno em seu teor existencial próprio ao senti-lo manter e pôr, apenas por si, tudo o que nele se sustenta, sendo nessa condição modelo e padrão de existência.

24. Resta saber o que o fenômeno se torna em relação com outros modos, se conserva sua essência ao servir de termo de referência e confirmação final para um ser instalado em outro modo, se mantém alguma primazia como ultima ratio da existência e se se podem conceber seres sem relação alguma com ele, problemas mais facilmente abordados pela ideia de coisa.

25. A abordagem da coisa a partir do fenômeno foi amplamente explorada, havendo acordo de que, seja como sistema estável de fenômenos sensoriais hierarquizados, seja como algo essencial e estável além deles, a coisa se define e constitui por sua identidade através de suas aparências diversas, permanecendo numericamente una em suas aparições e utilizações noéticas, divergindo-se apenas sobre os elementos, a ligação e o elemento dominante do sistema, enquanto Whitehead admite que um único quale tenha caráter reico se subsistir idêntico em suas encarnações.

26. Lotze integrou essa identidade à identidade subjetiva do eu, com a dificuldade de que a identidade do objeto físico comporta uma presença imediata e uma presença remota, ao passo que o eu é suposto sempre presente a si, só o inconsciente podendo ser presença remota do eu, unidade que se pode restabelecer pela continuidade presumida nos outros eus atribuída por analogia aos objetos não psíquicos.

27. Outra dificuldade é a natureza dessa presença remota, que pode ser destruição ou inexistência entre as aparições, como mostram as teorias da apocatástase e da palingênese, o dogma da ressurreição da carne, a tese de Milton sobre as almas, a negação leibniziana de toda existência temporária, a fixidez das espécies e o Leviatã dos massoretas, divergências que correspondem menos a filosofias diferentes do que a diversificações de um único estatuto reico segundo os casos.

28. Do ponto de vista próprio, a identidade é sempre da mesma natureza, uma comunhão consigo, uma indiferença à colocação e à distribuição espaço-temporal, da qual a existência latente ou a presença remota é consequência posterior.

29. Uma fita com motivos bordados idênticos pode ser dobrada até que os motivos coincidam num único ser, e um observador plano que a percorresse em linha reta encontraria várias vezes o motivo ou vários furos sem saber que se trata de um só furo e de uma só agulha.

30. Uma grande folha de papel amassada ao acaso e atravessada pela agulha aparece, desdobrada, crivada de furos dispersos, embora haja um só furo e uma só agulha.

31. A existência reica é como a unidade do furo ou da agulha, presença possessiva de si nesse estado indiviso, indiferente à sua situação num universo desdobrado em espaço e tempo, e como arte de existir é a conquista e posse efetiva dessa presença, de modo que as presenças separadas resultam de um confronto posterior com a diversidade fenomenal e sentir essa distensão, no caso da identidade do eu, é sentir o modo de existência do ser idêntico.

32. Tudo isso varia segundo as diferentes características ônticas, como entidades racionais, seres vivos e coisas físicas.

33. O estatuto das entidades racionais e abstratas, como um teorema ou o triângulo equilátero em si, é o mais simples, pois basta cumprirem essas condições como essência singular de aparições concretas distribuídas ao acaso, assim como os homens participam de uma humanidade idêntica sem que se precise de presença remota entre suas encarnações, como na folha amassada.

34. As coisas se complicam com as coisas singulares, não a essência do homem universal, mas a de Sócrates ou de Durand.

35. Sócrates ou Durand cumprem inteiramente as condições enunciadas, pois há uma socraticidade ou durandidade que liga entre si a diversidade de suas aparições fenomenais.

36. Eles se submetem, além disso, a muitas outras condições.

37. Durand não tem ubiquidade espacial, sua presença numa calçada de Paris exclui sua presença em Carpentras no mesmo instante, ele tem um álibi e só é repetível na ordem cronal, como a fita dobrada e não a folha amassada.

38. As aparições de Durand devem seguir a ordem própria das reidades vivas, formando uma história conforme às leis da condição humana, e suas presenças remotas devem obedecer a condições práticas de verossimilhança, pois sempre estar num só lugar é exigência mais estrita do que não poder estar em dois.

39. Os acessórios dessa história, o irmão, o cachimbo e o lenço de Durand, também não podem aparecer de modo desordenado e absurdo, pois todas essas histórias de coisas são paralelas e mediadas por uma ordem comum, um universo das coisas.

40. Tudo isso tem caráter empírico, pois o pensamento traz a necessidade a priori dessa ordem, mas não a certeza de êxito da harmonização do cosmos das coisas, lenta e obtida pela eliminação do inconsistente, e as relações de indeterminação de Heisenberg mostram que o elétron sai do estatuto reico das coisas comuns, o que não faz da reidade um preconceito macroscópico, mas indica o limite de sua ontologia regional, lembrando que no universo microscópico também há o microscópio.

41. Esses sistemas de condicionamentos têm caráter empírico e técnico, de modo que ser-no-mundo deve entender-se como ser-num-certo-mundo, definindo correlativamente um cosmos e uma classe de existentes, pleroma de existências reicas especificadas cujas histórias se harmonizam num cânone comum.

42. O estatuto reico implica indubitavelmente o pensamento, e o modo dessa implicação exige atenção cuidadosa.

43. O pensamento aparece três vezes no estatuto reico, como ligação do sistema, como consciência da existência singular na identidade e como agente nas acomodações e seleções que configuram o cosmos.

44. O último aspecto é exterior e posterior, esforço do pensamento humano para conhecer um conjunto que lhe é dado, mas os dois primeiros são imanentes, pois a existência reica é constituída pelo pensamento e o pensamento reside e opera nela como fator de realidade.

45. O pensamento não é produto de um ser psíquico distinto da coisa reunida, não tendo outro suporte que a própria coisa que reúne e sente, sendo impessoal, pura ligação e comunicação, consciência apenas no sentido de um brilho fenomenal, e sobretudo coesão sistemática, talvez fator e não efeito do pensamento, de modo que os seres psíquicos, se existem, não o causam, mas o implicam em sua constituição.

46. A psicologia e a metafísica concebem entidades ônticas de pensamento, psiques ou almas, todos organizados e idênticos através de suas manifestações, de estrutura reica, cuja participação nesse modo, chamado mais geralmente ôntico para não chocar, significa que têm uma monumentalidade que faz de sua forma a lei de uma permanência, sendo preciso concebê-las como arquitetônicas, sistemas harmônicos suscetíveis de ampliações e feridas, e cabendo a uma psicologia sem medo do ôntico dizer como são condicionadas, incluindo todo o interpsíquico que as reúne num cosmos.

47. Nesse cosmos, o fator do pensamento impessoal, a autorreunião e a síntese imanente, terá capacidade constitutiva como nos outros sistemas ônticos, mais suscetível de consciência e atividade e sem dúvida mais móvel.

48. O estatuto ôntico não exclui a labilidade, pois sua ubiquidade nunca garante uma subsistência preguiçosa, mecânica ou contínua, e na ordem psíquica há instaurações tão fugazes, almas momentâneas de sucessão caleidoscópica, que criam a ilusão de existência fraca embora possam valer mais que as instauradas diariamente, sendo o caso-limite uma existência absolutamente efêmera que nunca seria vista duas vezes.

49. Restaria perguntar se a própria identidade carece de base e precisa ser garantida, questão alheia a esta investigação que só poderia ser respondida pela evocação de uma invariância primordial ligada a certa perfeição.

50. Há grande diferença entre os seres do ponto de vista de sua estabilidade e solidez.

51. Um ser parece eminente por sua persistência e solidez privilegiadas, o corpo próprio, a ponto de por vezes se reservar o nome de existência a esse tipo ôntico.

52. O privilégio do corpo como intermediário necessário entre o eu e o mundo vem de que ele pode ser deduzido a partir do fenômeno, pela constância perspectiva que determina um ponto do eu, por sua oposição e homogeneidade antitípica com os outros corpos e por sua evasão dinâmica no mundo, constituindo um ponto de apoio do fenômeno no cosmos reico e a primeira obra-prima infantil do estágio em que se deixa de ser simples fenômeno.

53. Explicar essa superioridade é em parte negá-la, pois a existência do corpo próprio exprime sobretudo a obrigação de uma existência psíquica de segui-lo em suas aventuras terrestres, quase pertencendo à existência solicitudinária, embora a coerção seja forte demais para contestar a positividade desse ôntico praticamente privilegiado.

54. Inversamente, há entidades frágeis e inconsistentes, os fantasmas, quimeras e fadas da imaginação, os seres de ficção, cujo estatuto existencial é posto em questão.

55. O corpo não é uma fata morgana, está firmemente inserido como coisa física no cosmos, mas há corpos fictícios nos sonhos e devaneios, incorporados em cosmicidades ilusórias.

56. O mundo dos imaginários ocupa tradicionalmente na filosofia uma posição estratégica para o problema existencial.

57. Considerá-los sustentados apenas pelo pensamento é supor que o pensamento possa pôr arbitrariamente seres totalmente dependentes dele, e sua semelhança com certos seres lógicos, como o bode-cervo de Aristóteles, arrisca estender esse estatuto puramente psicológico às entidades racionais.

58. Por outro lado, é embaraçoso conceder um modo de ser a esses seres espectrais e acósmicos, expulsos um após outro de todo cosmos ôntico controlado, desgraça comum que os reúne sem constituí-los em pleroma.

59. Caracterizá-los existencialmente por não corresponderem a objetos ou corpos está fora de questão, pois isso pertenceria a um problema de segundo grau e seria puramente negativo.

60. Os imaginários só existem à sua maneira se tiverem um existir positivo, e eles o têm.

61. Os imaginários são positivos a ponto de serem estudados com espírito objetivo, como nas investigações de artistas sobre a anatomia do anjo ou do centauro, no orçamento de Lovelace estabelecido por Napoleão, nas contas de Jean Valjean feitas por Hugo durante sua ausência do romance e na controvérsia entre Russell e MacTaggart sobre a realidade dos tempos imaginários.

62. Cada romance e cada quadro é um microcosmo, e todos esses microcosmos compõem uma espécie de grande cosmos literário e artístico no qual certos tipos clássicos, como Don Juan, têm uma existência inumerável e no entanto essencial e idêntica.

63. Esse mundo tende de um lado a uma existência sindóxica, social e positiva, um universo de discurso literário, mas em sua outra fronteira se dissipa e esgarça, sem lógica de aparição nem leis de identidade, como as quimeras nascidas do terror que desaparecem assim que tomam forma ou as aparições vagas entrevistas nas margens do poético.

64. Os imaginários devem sua situação dialética a esse caráter transitivo e transitório, pois em suas melhores regiões têm estatuto ôntico, um cão imaginado participando do ôntico do cão, mas nessa direção tendem a tornar-se puros entes de razão e na outra a dissipar-se em puros fenômenos dos quais tomam toda sua realidade existencial.

65. Os imaginários, suspensos num fenômeno de base, participam de seu condicionamento de realidade, distinto ou vago, intenso ou fraco, opondo-se aos seres da percepção, cuja consistência depende de um conjunto de determinações cósmicas, e estendendo-se a tudo o que depende de sentimentos e emoções.

66. Os imaginários pertencem a uma classe existencial mais extensa, a dos seres que existem com uma existência fundada no desejo, na preocupação, no medo, na esperança ou na fantasia, proporcionalmente à importância que têm.

67. Há, assim, emocionais, pragmáticos e atencionais, uma existência solicitudinária, parcialmente estudada por Heidegger sem ver que não se trata de revelação mas de base existencial, cuja característica é ter na intensidade da atenção ou preocupação o polígono de sustentação de seu monumento, existências precárias que desaparecem com o fenômeno de base e às quais faltam ubiquidade, consistência e equilíbrio reico, pseudorrealidades reais mas contrafeitas por imitarem formalmente o estatuto reico sem sua matéria.

68. Uma segunda característica dos ônticos dessa classe é que não têm, mas imitam o estatuto reico.

69. O possível é apenas uma variedade do imaginário, o que aumenta muito a importância deste.

70. Isso é claro nos pseudopossíveis, inteiramente apoiados nas sugestões do medo ou da esperança e nas tentativas da previsão.

71. Mais sutil é a não-impossibilidade bergsoniana, ausência de obstáculo que indica uma incorporação ao real, como no exemplo da loteria, em que sonhar ganhar é ontologicamente o mesmo com ou sem bilhete, mas sem bilhete o sonho modifica o real e é impossível, e com bilhete nada modifica e há possibilidade, de modo que a possibilidade exprime apenas uma certa capacidade do imaginário de adaptar-se ao real.

72. O caso mais interessante é a possibilidade absoluta, segundo a qual algo é possível em si independentemente do atual, como o fauno anatomicamente possível e o centauro impossível, embora nenhum tenha existido.

73. A possibilidade absoluta significa apenas conformidade a certas leis morfológicas, uma estruturação gratuita e excessiva do imaginário segundo uma cosmologia dada, sendo a estilística própria do imaginário.

74. Isso explica por que o possível parece mais real ou mais próximo da existência que o imaginário em geral, embora não o seja, sendo subvariedade do imaginário, ele mesmo variedade do modo ôntico, que simula bem outras variedades.

75. O modo de existência específico do imaginário reside em sua dependência total do fenômeno de base, embora suas simulações possam avançar até a cosmicidade e organizar universos discursivos de positividade social, como certos mitos estudados por Sorel nas Reflexões sobre a violência, que então deixam de ser imaginários puros e se investem em outro gênero de existência.

76. Cabe avançar um passo.

77. Ligado e dependente da existência fenomenal, o imaginário, com seu subproduto, o possível, é feito de uma certa matéria positiva, psicológica, a matéria de que são feitos os sonhos.

78. Pergunta-se se há um modo de existência sem matéria alguma, cortado num tecido de puro nada.

79. Tal é a existência virtual.

80. Esse ponto, já tratado longamente em outra obra, será apenas resumido no essencial.

81. Existir virtualmente não é não existir nem ser possível, mas ser condicionado por alguma realidade sem ser incluído ou posto por ela, completando-se para fora no vazio de um puro nada, como o arco interrompido de uma ponte delineia a parte que falta ou as ogivas quebradas delineiam a pedra angular ausente, numa abaleidade em que o acabamento não é necessário nem presente.

82. Esboços e indicações interrompidas delineiam um jogo caleidoscópico de seres e monumentalidades que jamais existirão, determinados às vezes com precisão perfeita em sua matéria de nada, num modo de existência rico em presenças que são ausências e econômico, pois a garra do leão basta para a existência virtual do animal inteiro.

83. A vida interior abunda em presenças desse tipo, e seus tesouros mais preciosos pertencem ao seu mundo.

84. A intenção fenomenológica é apenas um caso particular, marcado de logicismo e psicologismo, em que a virtualidade se materializa numa vecção rumo ao acabamento, pois a ponte quebrada que ninguém tenta reconstruir delineia o arco tanto quanto a ponte em construção, e a ponte em que ninguém pensa, mas cujos materiais e forma estão determinados como única solução de um problema, tem existência virtual mais positiva que a ponte iniciada e tornada impossível por um defeito.

85. Há intenções que não podem realizar-se e não se juntam a nenhuma existência virtual, pois esta exige uma lei de harmonia que feche o ser implicado sobre si mesmo arquitetonicamente, razão pela qual a alma é antes de tudo uma harmonia, e a alma que se poderia ter forma-se virtualmente pela harmonia que dispõe em acordes os contornos interrompidos de uma melodia interior.

86. Vive-se numa floresta de virtuais ignorados, alguns admiráveis e adequados à própria realização, para os quais nem se olha senão em sonhos, enquanto as intenções se dirigem a fins absurdos e inatingíveis, a monstros.

87. A diferença no seio da intencionalidade entre o que pode e o que não pode ser realizado, não por falta de força, mas por absurdidade ou autodestruição da empresa, é onde reside a realidade do virtual e o que faz dele um modo de existência.

88. A existência virtual é de extrema pureza e espiritualidade, uma espécie de purificação do imaginário, mas conserva a abaleidade que a deprecia, pois precisa de um ponto de referência, sendo um condicionamento condicionado dependente de um fragmento de realidade alheio a seu ser, sua fórmula evocatória.

89. Pergunta-se se se pode ir mais longe e conceber uma existência absolutamente desmaterializada, feita de condicionamentos incondicionados, livre de toda dependência de uma realidade evocadora.

90. O problema é importante e remete aos seres puramente racionais ou lógicos, às formas imateriais, às essências e sobretudo à existência noumenal à maneira kantiana.

91. A expressão é paradoxal, pois etimologicamente os noumena são coisas pensadas e dependeriam de realidades psíquicas, diferindo dos imaginários apenas por seu caráter abstrato e geral, como imaginários do entendimento.

92. Se, ao contrário, se tenta libertá-los dessa inerência e pô-los como absolutamente transcendentes, deixa-se de poder falar deles, pois só são postos separadamente na medida em que o pensamento não os toca.

93. Kant indicou uma saída para o dilema, pois se os noumena são apenas desconhecidos por falta de uma intuição intelectual, bastaria pô-la problematicamente como potencial ou encontrar indícios indiretos dela, como a entidade matemática revelada pelas coerções que exerce, as entidades ultramicroscópicas detectáveis por uma técnica mais delicada ou o Deus noumenal equiparado ao Deus sentido pelos místicos.

94. O Alto kantiano perderia então seu valor, e um navegador mais ousado, ao grito nietzschiano de embarcai, filósofos, poderia sempre partir para as Ilhas Afortunadas de Gaunilo, não descobertas, mas não indescobríveis, à espera de que uma nova faculdade desperte.

95. Essa perspectiva sedutora de ampliação do pensamento permanece insuficiente, pois só faria os noumena entrarem no universo do discurso como existências problemáticas, o que não é um gênero de existência, mas apenas a abertura de um problema existencial.

96. Ao pensar no isolamento possível de condicionamentos ônticos fora de toda presença vivida e fenomenal, pensa-se em algo inteiramente diferente das existências problemáticas, em essências independentes de toda existência.

97. É errado censurar o argumento ontológico por uma passagem indevida da essência à existência, pois se trata no máximo de um retorno, já que há passagem da existência à essência em toda consideração dos noumena.

98. Partindo do fenômeno, passa-se às organizações ônticas, dos corpos às construções técnicas das ciências, depois aos imaginários e aos virtuais, até que as representações do entendimento exijam afastar-se resolutamente da costa do fenômeno, e cortadas essas amarras seria preciso encontrar-lhes um novo gênero de existência, havendo entretanto pura e simples privação de existência.

99. Essa privação pode apresentar-se de várias formas, como a supressão ou colocação entre parênteses de um atributo, se a existência for predicado, segundo a tese de Leibniz.

100. Se a existência não é predicado mas a própria posição da coisa, como em Kant, suprimi-la é recusar pôr a coisa, e tratá-la como afirmação de que o universo do discurso não é nulo é substituí-la por um símbolo lógico, restando como resíduo final a lexis pura, enunciado de um sistema de relações considerado independentemente do ato que o afirma ou nega.

101. Pode-se perguntar se um novo gênero de existência poderia ressuscitar esses fantasmas exangues, como o sangue dado por Ulisses aos mortos, mas entre seu desaparecimento e seu renascimento a impressão de que subsistem por um momento em si, no intermundo da existência, é apenas a ilusão de um momento-limite.

102. A existência tal como foi inicialmente abordada desaparece aqui completamente, pois se atingiram os limites do mundo ôntico explorado em primeiro lugar.