Conhecimento e Ser – Prólogo

FRANK, Simon. La connaissance et l’être. Paris: Aubier, 1937

ADVERTÊNCIA DO AUTOR

A obra que aqui se oferece à atenção do leitor francês é a tradução abreviada de um livro publicado em Petrogrado em 1916. No anteprefácio desta última edição, escreveu-se:

No presente trabalho, propõe-se estudar o objeto do conhecimento: trata-se, por conseguinte, de uma tentativa para resolver o problema essencial da epistemologia, o da natureza do conhecimento e de suas condições de possibilidade. Esse problema é, em nossa opinião, inseparável de outro, ainda mais antigo, o do valor e dos limites do conhecimento que se exprime em conceitos. A esse conhecimento, era outrora usual dar o nome de conhecimento pelo entendimento, a partir do nome da fonte psicológica que se lhe supunha, em oposição ao conhecimento pela razão; preferir-se-á qualificá-lo em termos puramente lógicos e nomeá-lo conhecimento nocional.

À primeira vista, pode parecer que o problema da natureza do conhecimento não possui mais relação com o problema do valor e dos limites do conhecimento nocional do que com qualquer outro problema de lógica. Todo o presente estudo propõe, ao contrário, estabelecer que se trata apenas de dois aspectos diferentes de uma única e mesma questão, que o conhecimento não pode deixar de incidir sobre o objeto, que ele revela à nossa consciência conteúdos do objeto enquanto ser independente de nossa relação cognitiva com ele, e que, apesar de todas as tentativas para eludir ou deformar essa concepção, é ela que deve ser mantida.

Assim entendido, o conhecimento é necessariamente precedido por essa relação primordial de posse virtual do objeto, sem a qual todo conhecimento seria impossível, da mesma forma que o seria a busca consciente de um fim sem a antecipação deste, ou ainda a manipulação de um objeto que estivesse fora de nosso alcance. Tenta-se demonstrar que essa posse primordial do objeto, precedendo toda fixação da consciência sobre ele, só é possível sob a condição de que o sujeito e o objeto do conhecimento estejam enraizados, não, como se crê geralmente, em uma consciência ou conhecimento qualquer, mas no ser absoluto, unidade absolutamente primeira, imediata e necessariamente presente em nós e diante de nós, e a única capaz de tornar possível a dualidade da consciência e de seu objeto. Eis a conclusão da primeira parte do estudo.

Resta que, na medida em que, no conhecimento já realizado, guarda-se a distinção entre, por um lado, o próprio objeto e, por outro, o conteúdo do conhecimento referente ao objeto, embora esse conteúdo conhecido seja de fato o conteúdo do próprio objeto, discerne-se evidentemente e, por conseguinte, conhece-se o objeto enquanto diferente de seu conteúdo. Isso seria absolutamente impossível, e até contraditório, se não houvesse lugar para distinguir dois gêneros de conhecimento: aquele que incide sobre o objeto e aquele que é idêntico à posse realizada do próprio objeto. É nesse momento que se descobre que o conhecimento, expresso em juízos e por meio de conceitos, o que se acaba de denominar conhecimento nocional, possui sempre seu objeto fora de si; que, embora atinja os conteúdos do próprio objeto, não é, contudo, a verdadeira posse do objeto, mas uma reprodução secundária deste, na esfera inferior e refletida dos conceitos. Quanto ao objeto, por oposição ao conhecimento sobre ele, revela-se como o Um, cuja posse intuitiva é a condição e o ideal, inacessível, mas normativo, do conhecimento nocional. É ao estudo dessa relação que se dedica a segunda parte do livro.

Na terceira parte, o estudo das relações entre o conhecimento e o ser é completado pelo esclarecimento da noção do ser enquanto Um concreto e transtemporal, enquanto unidade do não temporal e do devir, ou do ideal e do real. Isso demonstra que o grau supremo da intuição só pode ser o conhecimento-vida, no qual o sujeito não mais se opõe ao objeto, mas o conhece porque está fundido com ele em seu próprio ser, onde ser e conhecer não são mais do que uma só e mesma coisa.

Assim, portanto, a solução do problema epistemológico da relação entre o conhecimento e o ser só é possível por meio de uma análise da noção de ser, revelando esse excesso de unidade, de potência, de plenitude e de realidade que distingue o ser do conhecimento-sobre-o-ser; e, por aí, a solução coincide com a revelação dos fundamentos e dos limites do conhecimento nocional. A controvérsia do idealismo com o realismo reduz-se à do racionalismo com o intuicionismo; não se pode justificar o realismo senão apreendendo o que há de falso no racionalismo.

Essa reforma, por nós esboçada, da teoria do conhecimento, encontrou confirmação na evolução do pensamento filosófico dos últimos vinte anos; em particular, a tese fundamental sobre a primazia da ontologia encontrou uma expressão marcante nos trabalhos dos filósofos alemães Nicolai Hartmann e Martin Heidegger, que seguem, por outro lado, caminhos diferentes dos nossos. Inversamente, nada se encontrou na filosofia nova que obrigue a revisar a fundo as presentes ideias.

A doutrina filosófica que se propõe, e que coincide parcialmente com certas tendências bem marcadas da filosofia contemporânea, possui, parece-nos, um valor muito superior ao de um simples ensaio de aperfeiçoamento da filosofia sistemática. A exemplo dos pensadores russos do século XIX, Kireievski, Khomiakov e Vladimir Soloview, e do mais eminente dos pensadores contemporâneos, Bergson, aos quais se deve muito, apesar das numerosas divergências de ideias, coloca-se no centro da consciência filosófica o momento da intuição primordial da vida enquanto revelação do Ser vivo. Por meio disso, tenta-se superar a ameaça que sempre pesa sobre a filosofia, a de uma ruptura entre ela e a realidade concreta, pois é por causa dessa ruptura que tanto os homens da vida prática quanto os representantes da ciência positiva e os espíritos religiosos se unem em um preconceito hostil à filosofia.

Com efeito, não se desfigura nem se humilha a filosofia ao admitir o princípio: Primum vivere, deinde philosophari, desde que se veja nele não uma sentença moral, miserável e estéril, nem uma profissão de fé que atente contra a autoridade suprema da pura e soberana verdade, mas, ao contrário, o que há de ontológica e epistemologicamente primordial para a própria consciência filosófica. Por essa afirmação, coloca-se sob a condução não do pragmatismo ou do relativismo moderno, mas da grande tradição do platonismo e do pensamento cristão que nele se inspira. É em Platão, em Plotino, em Santo Agostinho e em Nicolau de Cusa que se pode e se deve buscar as verdades que, ao mesmo tempo que enriquecem a concepção religiosa da vida, são de primeira importância para o aprofundamento e o desenvolvimento, verdadeiramente imparcial e fecundo, do pensamento filosófico.