64. A direção ontológica da ontologia como verificação de estruturas ônticas
ESHM
Constituição da direção ontológica como fundação da unidade originária
A direção ontológica da ontologia constitui-se como fundação ontológica da unidade originária, entendida como o horizonte primeiro e irredutível no interior do qual se torna possível qualquer articulação ulterior da direção ôntica.
Essa fundação não se configura como um acréscimo externo à investigação ontológica, mas como o momento em que se torna explícito o solo originário que sustenta a inteligibilidade das estruturas ônticas.
A unidade originária não é, portanto, um resultado da análise ontológica, mas sua condição prévia, sem a qual a multiplicidade das determinações ônticas permaneceria desarticulada e ambígua.
A fundação ontológica como verificação das estruturas metodológicas e ônticas
A fundação ontológica assume a forma de uma verificação ontológica das estruturas metodológicas e das estruturas ônticas que compõem a direção ôntica da ontologia.
O termo verificação não indica controle empírico nem confirmação lógica, mas a explicitação das condições ontológicas de possibilidade dessas estruturas.
Verificar ontologicamente significa, assim, reconduzir as determinações ônticas ao campo de sentido que as torna possíveis enquanto tais.
Sentido ontológico da noção de verificação
A verificação consiste na enucleação das condições ontológicas que tornam possível a validade e o funcionamento das estruturas ônticas.
Trata-se de um procedimento regressivo, que não funda a validade formal dessas estruturas, mas esclarece o horizonte ontológico no qual essa validade se constitui.
A verificação ontológica não cria nem modifica as estruturas ônticas, mas ilumina o campo de sentido no qual elas já operam de modo originário.
A fundação ontológica do conceito tradicional de adaequatio como exemplo paradigmático
Um exemplo decisivo desse procedimento é fornecido pela fundação ontológica do conceito tradicional de adaequatio.
Essa fundação não questiona a validade formal da concepção clássica de verdade, mas esclarece as condições ontológicas que permitem que a relação de adequação tenha sentido.
A adaequatio é assim reconduzida ao horizonte ontológico que a torna possível, sem que sua função ôntica seja por isso invalidada.
A verificação ontológica do princípio de não contradição
Heidegger procede igualmente à verificação ontológica da estrutura ôntica do princípio de não contradição.
Essa verificação não limita o princípio ao âmbito ôntico, mas esclarece a estrutura ontológica que lhe confere sentido.
Não se trata de fundar a validade formal do princípio, mas de iluminar o campo ontológico no interior do qual sua validade absoluta se constitui.
Fundar ontologicamente não significa fundar formalmente
A fundação ontológica do princípio de não contradição não equivale à fundamentação lógica de sua validade.
Ela consiste no esclarecimento das condições pelas quais o princípio se impõe como originariamente e absolutamente válido.
O esclarecimento do sentido do “pelo qual” coincide com o esclarecimento do sentido ontológico do próprio princípio.
A verificação ontológica do princípio de causalidade e a referência a Vom Wesen des Grundes
Heidegger fornece também a verificação ontológica da estrutura ôntica do princípio de causalidade.
É a esse princípio que, ainda que de modo indireto, se dirige o ensaio Vom Wesen des Grundes.
A investigação não visa a negar a validade do princípio, mas a esclarecer o horizonte ontológico que permite seu funcionamento.
A questão do condicionamento da direção ôntica pela fundação ontológica
A fundação ontológica do conceito de adaequatio e do princípio de causalidade leva Heidegger a sustentar que um procedimento conceitual orientado por tais princípios não pode funcionar adequadamente sem essa fundação prévia.
Tal posição sugere que a articulação da direção ôntica dependeria necessariamente da fundação ontológica correspondente.
Contudo, essa necessidade não se impõe de modo rigoroso na estrutura efetiva da filosofia heideggeriana.
A complementaridade entre direção ontológica e direção ôntica
A estrutura autêntica da filosofia de Heidegger não exige que a fundação ontológica condicione de modo impeditivo a articulação da direção ôntica.
Ao contrário, a articulação ôntica é não apenas permitida, mas solicitada como complementar à direção ontológica.
A relação entre ambas não é de subordinação rígida, mas de coimplicação estrutural.
A necessidade do condicionamento no âmbito do fundamento metodológico
A exigência de condicionamento não pertence propriamente à direção ontológica, mas ao fundamento metodológico.
No caso do princípio de causalidade, sem a delimitação originária do horizonte do primeiro certo, a construção especulativa que conduz à primeira causa permaneceria instável.
Persistiria sempre a possibilidade de que aquilo que foi deixado na sombra — a unidade originária como unidade da imanência — fosse, na verdade, a causa última.
A exigência de um primeiro ponto inconcusso
Toda investigação especulativa exige um primeiro ponto inconcusso de apoio.
Esse ponto não é fornecido pela conclusão da investigação, mas por sua delimitação inicial.
Sem essa delimitação, a construção especulativa permanece exposta à oscilação e à ambiguidade.
A confusão entre fundamento metodológico e condições ontológicas subjetivas
A íntima relação entre fundamento metodológico e condições ontológicas subjetivas gera uma confusão característica.
Essa confusão consiste em atribuir às condições ontológicas subjetivas a necessidade própria do fundamento metodológico.
Tal atribuição indevida obscurece a distinção entre os planos metodológico e ontológico.
O alcance metodológico limitado das condições ontológicas
Se às condições ontológicas pode ser concedida alguma portata metodológica, isso ocorre apenas em sua relação com o fundamento metodológico.
Elas não podem reivindicar validade metodológica quando consideradas isoladamente como determinações da direção ontológica.
À unidade extática pode ser concedida tal portata; à simples ecstaticidade ontológico-transcendental, não.
A determinação do objeto de Vom Wesen des Grundes
O ensaio tem como objetivo direto a investigação da essência da causa.
Indiretamente, refere-se ao princípio de causalidade.
O termo Grund é tomado em sua ambiguidade essencial: causa, fundamento, razão.
A distinção entre o problema do fundamento e o princípio de causalidade
A observação preliminar do ensaio estabelece a alteridade entre o problema do fundamento como tal e o problema do princípio de causalidade.
O princípio pode introduzir a questão do fundamento, mas não esclarece sua essência.
Na formulação tradicional, o princípio de causalidade pressupõe como evidente aquilo que deveria ser esclarecido.
A crítica à formulação tradicional do principium rationis
Na expressão Nihil est sine ratione, a essência da ratio não é determinada, mas simplesmente pressuposta.
A validade do princípio só pode ser plenamente compreendida após a elucidação da essência do fundamento.
O princípio depende, portanto, de uma determinação ontológica prévia que ele mesmo não fornece.
A relação entre princípio de razão suficiente e princípio de causalidade
Na formulação leibniziana completa, o princípio de razão suficiente e o princípio de causalidade aparecem vinculados.
Tomar essa vinculação como identidade rigorosa implica confundir ambos os princípios.
O princípio de causalidade mantém uma relação de dependência lógica em relação ao princípio de razão suficiente.
O princípio de razão suficiente como corolário do princípio de identidade
O princípio de razão suficiente deriva imediatamente do princípio de identidade.
O ente, enquanto não contraditório, exige aquilo sem o qual seria contraditório.
Essa exigência expressa a necessidade absoluta de uma razão suficiente.
A emergência do conceito de causa
O conceito de causa surge em um segundo momento, a partir do princípio de razão suficiente.
Causa designa aquilo sem o qual algo não pode subsistir.
A essência da causa encontra-se formalmente determinada nesse sentido.
A posição da investigação heideggeriana
A investigação de Heidegger não visa a uma suspensão da validade dos princípios lógicos clássicos.
Ela busca fornecer-lhes um sentido ontológico que não compromete sua derivação ôntica.
Quando Heidegger nega a derivação do princípio de causalidade a partir do princípio de não contradição, nega apenas a pretensão de que essa derivação substitua a fundação ontológica.