Jean-Pierre Séris
A tecnologia não deve ocultar as técnicas de nós. Ela deveria, na verdade, ajudar-nos a compreendê-las melhor. Invertendo a fórmula de Kant, o homem de hoje diria de bom grado, quando chamamos sua atenção para uma técnica como a queima de matagais, as «técnicas do corpo» (M. Mauss) ou a preparação do azeite de oliva: “isso não é tecnologia, é apenas saber-fazer (querendo dizer com isso: “isso não é ciência, é apenas técnica”). C. Lévi-Strauss desfez o preconceito (etnocêntrico) que qualifica de “atrasadas” as técnicas das sociedades tradicionais. A sobrevivência no ambiente ártico (esquimós) não pode, evidentemente, ser dissociada de uma surpreendente adaptação das técnicas às condições climáticas. A farmacopeia e a medicina à base de ervas, a agricultura cerealífera desde seus primórdios, seja na Mesopotâmia ou entre os astecas, representam realizações de alta tecnicidade, independentemente do fato de não se basearem em conhecimentos prévios de botânica, fisiologia ou genética. Seria errado usar esse último fato como argumento para afirmar que as técnicas (devido ao seu “baixo” desenvolvimento) desempenhavam um papel mais secundário nessas sociedades do que na nossa, onde finalmente ocupam o centro das atenções, ou que eram objeto de um investimento menor, não apenas econômico, mas também cultural, político e social em geral. (La Technique)