Eis o diálogo que Schopenhauer imagina entre ele mesmo e a consciência ingênua:
Ora, o “se eu quero” assume em Schopenhauer um significado totalmente alienante. Pois precisamente, vou escolher apenas o que terá decidido minha vontade. A vontade (que designa, em Schopenhauer, pulsão, afeto, desejo, instinto, paixão) torna-se o lugar de minha servidão. Para escolher diferentemente, precisaria que eu fosse outro, ou seja, meus afetos, meus desejos, minhas paixões fossem diferentes. E Schopenhauer continuou sua reflexão: “São seis da tarde, meu dia de trabalho acabou. Agora posso dar um passeio ou ir ao clube. Também posso subir na torre para ver o pôr do sol. Também posso ir ao teatro, posso visitar este amigo ou aquele outro. Posso até escapar pelo portão da cidade, lançar-me para o meio do vasto universo e nunca mais voltar … Tudo isto só depende de mim, tenho plena liberdade de agir a meu gosto; no entanto, não nada disto farei, mas pelo menos voltarei voluntariamente para casa para minha esposa (Ibid). “Este homem certamente acredita ser livre quando ele em nada o é, pois agindo de tal ou tal maneira, ele simplesmente não fará senão traduzir a motivação mais forte que o conduzirá no seio de sua vontade. Ora, é impossível para este trabalhador das seis horas da noite agir fora de sua vontade. E Schopenhauer toma uma imagem, a do curso d'água. Ele pode fluir tranquilamente ou elevar-se em ondas. Isto depende do vento. Para a água é preciso uma causa, para o homem motivos. Na verdade, como observa Schopenhauer, o homem só pode decidir após uma escolha, a escolha de sua vontade. Não há nenhuma intervenção de livre arbítrio aqui, mas o jogo de um conjunto de tendências e de desejos que se lançaram em combate e do qual o homem foi, de certa forma, o mero espectador. O desejo mais violento prevalece hoje, mas desaparecerá no dia seguinte frente a outro. Nesta perspectiva, a própria vontade, tomada no sentido tradicional do termo, não é mais do que uma paixão como qualquer outra. Alguns homens têm uma forte vontade, outros não. Todos estes afetos constituem um “dado” que o homem não escolheu, assim como nem sua saúde nem a cor de seus olhos. O jogo complexo de tendências opostas que se confrontam nele constitui, segundo Schopenhauer, o caráter, a soma de todas as vontades. “Esta natureza especial e individualmente determinada da vontade, em virtude da qual, sob a influência de motivos idênticos, a reação difere de um homem para outro, constitui o que se denomina o caráter de cada um (Ibid)”. E Schopenhauer multiplica os exemplos para sublinhar a servidão do homem ao seu caráter, que é “invariável” porque “o homem mesmo jamais muda” (Ibid).