7.2 Naturphilosophie

VETÖ, Miklos. De Kant à Schelling: les deux voies de l’idéalisme allemand. Grenoble: J. Millon, 1998.

1. Schelling foi instruído nas ciências na época em que, preceptor de dois jovens nobres, os acompanhava aos cursos da Universidade de Leipzig. É ainda em Leipzig que publica as Ideias para uma Filosofia da Natureza e A Alma do Mundo, e no espaço de quatro anos terá conseguido romper com as interdições críticas, elaborando verdadeira metafísica da natureza.

2. A Naturphilosophie tem dupla origem. De um lado, as intuições radicais do jovem Schelling que, tendo estabelecido a continuidade e a identidade essenciais entre espontaneidade teórica e liberdade prática, acaba por fazer saltar os ferrolhos entre o eu e a natureza. A vida não é senão o esquema da liberdade, e a liberdade exerce uma causalidade na natureza da qual o eu é senhor.

3. Schelling começa sua reflexão dentro dos limites estritos da posição transcendental, e se quer simples exegeta e comentador de Kant. A analítica transcendental, que constitui em sua maior generalidade o pensamento da natureza, é a parte geral da filosofia teórica que importa agora completar com uma filosofia teórica aplicada.

4. Schelling acaba por já não considerar a natureza senão como um momento imanente do eu. O eu deixa de ser a totalidade do objeto da reflexão filosófica e se vê oposto à natureza. Nesse momento, o de seu florescimento, de sua maturidade, a Naturphilosophie se define como o pendant do idealismo transcendental, isto é, da filosofia do eu.

5. Chegado a esse estágio, o schellingismo se vê obrigado a romper com o que já não é senão ficção, a saber a fidelidade à Crítica e à Wissenschaftslehre. A natureza deixa de ser uma função da subjetividade transcendental e se torna realidade autônoma.

6. Com o florescimento da filosofia absoluta, a autonomia da natureza se torna incondicionada. Schelling fala da autossuficiência da natureza, da natureza como ideia criadora e produtora. Nesse momento, ao filósofo resta apenas discernir e seguir a direção que a própria natureza tomara.

7. Restituir desse modo a natureza à sua própria dinâmica, fazê-la aparecer em sua gênese imanente, poderia ter expressado apenas uma posição fichteanizante, em que o idealista discerne e reconstitui o movimento próprio da série real. Ora, o destino da Naturphilosophie é recusar cada vez mais resolutamente o equívoco subjetivista e endurecer a autonomia da natureza num panaturalismo que rapidamente se torna uma ontologia, transpondo a natureza em ser, em identidade absoluta, e a filosofia teórica aplicada em idealismo absoluto.

8. Em seu necrológio a Kant, Schelling define os Primeiros Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza como a parte “real” da Crítica. Quanto à Naturphilosophie, já não é filosofia teórica, mas a própria filosofia vista de um ponto de vista teórico.

9. O sistema da identidade absoluta consagra o apagamento do eu. Declara que o princípio de todo erro em filosofia é o “eu penso”: não sou eu quem pensa, é a razão que pensa em mim. Ora, a razão é a natureza.