VETÖ, Miklos. De Kant à Schelling: les deux voies de l’idéalisme allemand. Grenoble: J. Millon, 1998.
1. Schelling foi instruído nas ciências na época em que, preceptor de dois jovens nobres, os acompanhava aos cursos da Universidade de Leipzig. É ainda em Leipzig que publica as Ideias para uma Filosofia da Natureza e A Alma do Mundo, e no espaço de quatro anos terá conseguido romper com as interdições críticas, elaborando verdadeira metafísica da natureza.
a Naturphilosophie quer fazer justiça a um domínio insuficientemente tratado por
Kant, maltratado por
Fichte. No início não ambicionava senão apresentar uma reflexão sistemática e detalhada sobre a natureza a partir do ponto de vista transcendental. Em seguida, estabelece a autarquia metafísica da natureza, terminando por erigir esse pendant da filosofia ideal em sistema total do saber
2. A Naturphilosophie tem dupla origem. De um lado, as intuições radicais do jovem Schelling que, tendo estabelecido a continuidade e a identidade essenciais entre espontaneidade teórica e liberdade prática, acaba por fazer saltar os ferrolhos entre o eu e a natureza. A vida não é senão o esquema da liberdade, e a liberdade exerce uma causalidade na natureza da qual o eu é senhor.
de outro lado,
Schelling se inspira na conquista fichteana. A Wissenschaftslehre quer dar conta da representação das coisas exteriores, vendo-se obrigada a atribuí-la a uma atividade inconsciente do próprio eu. Assim, o mundo exterior se torna o outro próprio da consciência, um outro produzido como que à sua revelia, que, sob a pena de
Schelling, se tornará o passado do eu
a causalidade da liberdade na natureza preconiza uma continuidade por assim dizer horizontal entre a natureza e o eu, enquanto a tese da produção inconsciente da representação, lida como o passado inconsciente da consciência, lança os fundamentos de uma verdadeira história transcendental da natureza
3. Schelling começa sua reflexão dentro dos limites estritos da posição transcendental, e se quer simples exegeta e comentador de Kant. A analítica transcendental, que constitui em sua maior generalidade o pensamento da natureza, é a parte geral da filosofia teórica que importa agora completar com uma filosofia teórica aplicada.
a filosofia da natureza não faz senão elaborar a conquista da dedução transcendental, querendo prosseguir o trabalho esboçado pelos Primeiros Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza. Quer estabelecer os princípios e as leis transcendentais da natureza. A natureza não é um mundo sui generis, expõe apenas, através de suas figuras, a força pura do espírito
as coisas que conhecemos não são senão produtos de nossa reflexão, e a questão principal, o objetivo essencial de uma filosofia da natureza, consiste em explicar a gênese da ideia de natureza e de seus elementos em nosso espírito
a natureza não é senão obra de nossa autoconsciência, e suas formas podem e devem ser deduzidas a partir da gênese da própria consciência.
Schelling se vê como exegeta e continuador de
Kant, pensando que as principais leis e forças da natureza devem ser expostas como explicitação dos conceitos da razão pura
a natureza se situa na esfera da inteligência teórica; se as Ideias e A Alma do Mundo apresentam algo de novo, não é senão o desdobramento e a elaboração dos resultados da Crítica
Schelling ainda está de acordo com
Fichte, que explica e deduz a natureza a partir do eu, mas a amplitude de seus desenvolvimentos, a abertura de novos horizontes, o levam a valorizar melhor o caráter orgânico e harmonioso do universo que estuda
leitor de
Fichte,
Schelling se inspira na teoria das duas séries. A natureza seria a série real, a consciência a série ideal, e, se as duas séries dependem do mesmo eu e possuem o mesmo conteúdo, têm, cada uma, sua unidade e sua autonomia
4. Schelling acaba por já não considerar a natureza senão como um momento imanente do eu. O eu deixa de ser a totalidade do objeto da reflexão filosófica e se vê oposto à natureza. Nesse momento, o de seu florescimento, de sua maturidade, a Naturphilosophie se define como o pendant do idealismo transcendental, isto é, da filosofia do eu.
já nas Ideias,
Schelling insiste na identidade fundamental entre as coisas fora de nós e as coisas em nós. Em virtude da metafísica genética, vê-se o nascimento necessário da série das representações a partir de nosso espírito
a natureza é então compreendida como a face objetiva, real, daquilo cuja face subjetiva e ideal a autoconsciência ou o eu representa. Imperceptível e sub-repticiamente, através de um deslizamento gradual da linguagem e do pensamento, a natureza se posiciona como o outro simétrico do eu, tornando-se indiferente começar a reflexão a partir da natureza ou a partir do eu
a dedução pode partir das condições da autoconsciência ou das funções da matéria, do objeto ou do sujeito, do visível ou do invisível e, finalmente, da natureza ou da liberdade
5. Chegado a esse estágio, o schellingismo se vê obrigado a romper com o que já não é senão ficção, a saber a fidelidade à Crítica e à Wissenschaftslehre. A natureza deixa de ser uma função da subjetividade transcendental e se torna realidade autônoma.
6. Com o florescimento da filosofia absoluta, a autonomia da natureza se torna incondicionada. Schelling fala da autossuficiência da natureza, da natureza como ideia criadora e produtora. Nesse momento, ao filósofo resta apenas discernir e seguir a direção que a própria natureza tomara.
isso significa — e isso antes e independentemente da virada ontológica — que a filosofia tem por tarefa libertar a natureza das estruturas mecânicas impostas de fora, purificá-la de toda irracionalidade e de toda dependência, e “recolocá-la em seu próprio desenvolvimento livre”
7. Restituir desse modo a natureza à sua própria dinâmica, fazê-la aparecer em sua gênese imanente, poderia ter expressado apenas uma posição fichteanizante, em que o idealista discerne e reconstitui o movimento próprio da série real. Ora, o destino da Naturphilosophie é recusar cada vez mais resolutamente o equívoco subjetivista e endurecer a autonomia da natureza num panaturalismo que rapidamente se torna uma ontologia, transpondo a natureza em ser, em identidade absoluta, e a filosofia teórica aplicada em idealismo absoluto.
8. Em seu necrológio a Kant, Schelling define os Primeiros Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza como a parte “real” da Crítica. Quanto à Naturphilosophie, já não é filosofia teórica, mas a própria filosofia vista de um ponto de vista teórico.
o órgão da filosofia da natureza é a intuição intelectual, que permite uma visão genética da natureza, mas ainda é preciso fazer abstração do sujeito que intui. Assim, encontramo-nos no ponto de vista “teórico”, que nos faz acessar o “conceito do puro sujeito-objeto (= a natureza)” e que, em seguida, nos eleva “até o sujeito-objeto da consciência (= o eu)…”
essas frases, redigidas imediatamente antes da Exposição de Meu Sistema, anunciam a superação definitiva da posição crítica. O sujeito-objeto puro é a própria natureza, que goza de prioridade e primazia em relação ao eu. Há dois idealismos, um idealismo da natureza e um idealismo do eu, sendo o primeiro originário, o segundo apenas derivado
9. O sistema da identidade absoluta consagra o apagamento do eu. Declara que o princípio de todo erro em filosofia é o “eu penso”: não sou eu quem pensa, é a razão que pensa em mim. Ora, a razão é a natureza.