TILLIETTE, Xavier. L’absolu et la philosophie: essais sur Schelling. Paris: PUF, 1987.
1. Se o termo “última filosofia” ou “filosofia tardia” de Schelling designa unicamente, como agora é uso entre os críticos, o bloco das obras póstumas, isto é, dos cursos lecionados em Munique e Berlim, fica claro estar ali exorcizada a ideia do Deus em devir (werdender Gott), dizendo respeito o desenvolvimento, o devir, a História, unicamente ao “outro de Deus”, à criação.
não se passando o mesmo a montante da última filosofia, sendo preciso, ao incluir nela em sentido lato os preparativos — o escrito sobre a liberdade, As Idades do Mundo, o panfleto contra Jacobi, as conferências de Stuttgart e Erlangen —, modificar a perspectiva e admitir uma história interna de Deus: um Deus que se engendra a si mesmo, entra em movimento, se temporaliza ou ao menos assume uma “eternidade sucessiva”
segundo Jürgen Habermas, o paradoxo de uma história divina em pleno sentido teria feito estourar o projeto prometeico das Idades do Mundo, contrastando o título de sua brilhante dissertação, que infelizmente não quis divulgar, “O Absoluto e a História”, com o escolhido depois pelo teólogo Walter Kasper, “O Absoluto na História”, que se refere explicitamente à Heilsgeschichte e aos magnalia Dei, de um lado, à Encarnação, de outro
2. Por mais que se regrida na produção de Schelling, encontra-se ali, a princípio acidental, depois cada vez mais insistente, a preocupação histórica herdada de Herder e Lessing, vendo-se a Natureza na sucessão das formas, como morfogênese, e no poderoso movimento de sua evolução, não sendo apenas Naturlehre mas Naturlauf e Naturgeschichte.
do mesmo modo, no lado do Espírito, o desenvolvimento é escalonado, ritmado em épocas, obedecendo o sistema idealista transcendental ao esquema fichteano da “história pragmática”, isto é, de uma teleologia ordenada
tratando-se aí antes de quadros para a representação, não estando porém a História propriamente dita ausente da reflexão schellingiana: no final do Sistema do Idealismo Transcendental, um esboço de periodização testemunha uma organização da história humana que se distingue qualitativamente do tempo indiferenciado da Natureza
não comprometendo seriamente essa tendência nem mesmo o reino da Identidade ou do Hen Kai Pan, espécie de pleroma prematuro do pensamento schellingiano, não caindo certamente a “filosofia absoluta” nos instrumentos do tempo, mas estando o sincronismo do zumal e a “verdadeira teogonia transcendental” da Natureza naturante prontos a derivar para a diacronia das dimensões temporais e para a gênese e a transitividade da finitude
expondo a rapsódia de Filosofia e Religião quase ingenuamente, com o auxílio do filosofema do Abfall, o hiato e a fragilidade daí resultante para o sistema, sendo a transição ainda mais notável no escrito mais célebre de todos, Investigações sobre a Liberdade Humana, que aliás pouco modifica o esquema histórico antes usado no Sistema do Idealismo Transcendental
observando com justeza Jean-François Marquet que “a filosofia da Identidade contém em germe toda a teogonia que mais tarde desabrochará nas Idades do Mundo”, ainda que dissimule a inspiração “historicista”, de modo que “a história, o drama da criação” só intervém “no seio do sistema como elemento recalcado e por assim dizer misterioso”
3. Conduzindo os Weltalter ao limiar da última filosofia sensu stricto, constituindo empresa audaz e gigantesca permanecida em estado de “fragmento”: não tendo sido integralmente redigido, dos três livros projetados, após grande quantidade de rascunhos e versões, senão o livro do Passado, tendo-se especulado muito sobre a interrupção ou mesmo o fracasso dos Weltalter.
talvez seja preciso, porém, desdramatizar a impotência inesperada de
Schelling: não tendo o projeto sido verdadeiramente abandonado, mudando antes com as estações da idade e realizando-se, mais ou menos irreconhecível, no imponente edifício dos cursos de Munique e Berlim
formando os eons ou Weltalter espécie de imenso enclave na eternidade antes que esta se feche e se detenha sobre o “Deus tudo em todos”, ou antes sendo a própria eternidade que se entreabriu, escapou, e deu origem ao presente, sua imagem criada e móvel, estando o passado “que jamais foi presente” sempre adossado à eternidade, e participando também o futuro da eternidade
equivalendo isso a dizer que o Eterno ou Deus se torna presente, manifesto, que Ele tem uma história sem que sua eternidade nisso se perca
para perscrutar o passado de Deus, o Imemorial (das Unvordenkliche),
Schelling põe em obra especulação complicada, tomados a maioria de seus traços a Jacob Boehme, sendo o filósofo teutônico quem, na Aurora, descreveu de modo flamejante a luta dos princípios no cerne da divindade inicial
sendo porém a obsessão pelo “profundo outrora”, pelo passado imemorial, constante do
Romantismo e, mais geralmente, da poesia, antecipando estranhamente William Blake, no primeiro livro de Urizen, a pungente Paixão do Único (atenuada na terceira versão) dos Weltalter, utilizando Josef
Görres, com prolixidade épica, todos os recursos de um imaginário arcaico e mítico em busca do mistério da ascendência das coisas
4. Servindo-se porém a anamnese atormentada das Idades do Mundo, “recolhendo dos destroços do passado todo vestígio”, em busca do começo absoluto, finalmente pouco da mitologia, penetrando uma intuição adivinhatória, Mit-wissenschaft der Schöpfung, até a origem, que evoca com auxílio de metáforas, citações bíblicas, e sobretudo de uma gnose trinitária, na qual Schelling não deixa de se embaraçar.
estando a teogonia dos Weltalter, com efeito, ligada à relação conflituosa do Pai e do Filho (Pater in Filio), sendo este o Libertador do Pai e como seu Redentor — ideia alquímica cujo rastro tenaz alcança os confins da Filosofia da Revelação
não indo porém a história divina aqui esboçada além da decisão de criar, devendo pedir-se ao eon do presente, portanto à Mitologia e à Revelação, os aspectos de uma teologia da História
5. Tendo influenciado em seu tempo a primeira filosofia de Schelling, por seu ecumenismo e seu senso do sagrado, a Escola católica de Landshut em torno de Michael Sailer, exercendo mais tarde, unida às perspectivas novas do escrito sobre a liberdade e aos fragmentos do ensino do grande empirismo que colportavam os ouvintes, grande ascendência sobre a Faculdade católica de Tübingen, Drey, Kuhn, Staudenmaier, Möhler, logo colega de Schelling em Munique, traçando boa monografia de Thomas O'Meara essa influência.
permanecendo porém a última filosofia, póstuma e precedida de vivas polêmicas, praticamente sem eco nem alcance, salvo talvez junto a teólogos protestantes isolados como Julius Müller e August Dorner
sendo no século XX que reencontrou audiência que vai além de simples curiosidade, e antes de tudo com Paul Tillich, tendo
Schelling, tão ciumento de sua autoridade, cortado de antemão os prolongamentos possíveis de seu pensamento teológico, seja criticando o líder protestante dos “idealistas tardios”, Christian Hermann Weisse — que tentava reconciliar intelectualmente os dois irmãos inimigos,
Hegel e
Schelling —, seja fulminando anátema contra o padre católico vienense Anton Günther, culpado de mau plágio
6. Valendo em todo caso a Spätphilosophie mais do que sua antiga reputação, percebendo-se isso ao examiná-la, ainda que de ponto de vista limitado: a teologia da história, a cristologia kenótica, algumas perspectivas abertas, ainda timidamente, à reflexão teológica atual.
I — Teologia da história
7. Sendo a única história digna da atenção do filósofo uma história providencial, na qual Deus intervém nomeadamente: sendo essa a “história superior”, a “verdadeira história”, tendo Gabriel Marcel um dia destacado passagem da Filosofia Especial da Revelação referente à Ressurreição: sendo a Ressurreição de Cristo o Fato decisivo de toda essa história superior, incompreensível certamente do ponto de vista ordinário, sendo fatos como a Ressurreição de Cristo como relâmpagos pelos quais a história verdadeira, interior, fura a simples história exterior e nela se introduz, parecendo a História sombria, vazia e morta, despojada de todo conteúdo divino, quando privada de sua relação com essa História interior, divina, transcendente, única verdadeiramente a verdadeira história, a história por excelência.
8. Sendo essa uma história dos grandes feitos de Deus, de suas façanhas, não sendo exatamente sobreponível à história humana “cheia de ruído e fúria”, que não se preocupa nem com ela, que não busca ler nem decifrar seus arcanos — história oculta e transcendente ao mesmo tempo, confundindo-se exatamente com a Heilsgeschichte.
não querendo nada ter em comum com as duas grandes “teodiceias da História” paralelas, a de
Hegel e a de Friedrich
Schlegel, engajadas ambas sob o signo da sentença schilleriana de que “a História do mundo é o Juízo Final”
reprovando
Schelling ironicamente a
Hegel seu Deus condenado aos trabalhos forçados a perpetuidade, que recomeça sem cessar o que já fez, por ser incapaz de levar a termo o que começou, Deus da “rotação” e do eterno retorno: suplício da Roda, calvário das figuras cujo incansável desfile expira aos pés de seu trono
erigindo Fr.
Schlegel, com as mesmas premissas transcendentes de
Schelling, uma história trágica de tonalidade bem diferente, sendo a História o campo fechado onde se enfrentam as potências do Bem e do Mal, sendo a Igreja a garantia da assistência divina, suspenso o Juízo final como veredito sobre a história universal, sendo esta inteiramente polarizada pela sentença do Soberano Juiz
9. Tendo Schelling, em suma, contentado-se em definir a origem e o fim, se é permitido parafrasear título de Jaspers, não se encontrando, mesmo na “filosofia puramente racional” — é verdade que inacabada —, que serve de prelúdio profano à filosofia religiosa, o traço dos grandes acontecimentos, servindo a figura de Prometeu de emblema para a aventura extradivina da humanidade.
aparecendo a expressão hegeliana de “razão na história”, mas não havendo filosofia schellingiana dos tempos históricos, devendo-se ater ao esboço muito rápido das Lições sobre o Método dos Estudos Universitários, completado por passagem da Filosofia da Arte, igualmente sobre o contraste do mundo antigo e do mundo cristão
desdobrando-se o panorama da história humana, como nos outros resumos dispersos, por grandes massas, num deserto de acontecimentos, indo a predileção de
Schelling ao tempo pré-histórico ou relativamente histórico, por estar imobilizado e sem incidência sobre a atualidade
sugerindo o Sistema do Idealismo Transcendental história providencial em três períodos, concebida como totalidade e como revelação contínua e gradual do Absoluto
tornando-se esse esquema, em Filosofia e Religião, idade de ouro e identidade solar, geração superior e espíritos protetores da infância da humanidade — queda e “deterioração progressiva da terra”, Ilíada da história, educação, origem das artes e ciências — Odisseia da história e escatologia
apresentando as Investigações sobre a Liberdade, com algumas variantes: tempo da inocência ou da inconsciência, primeira criação, idade de ouro, tempo dos deuses, espíritos protetores e aproximação do tempo da Culpa, domínio do Mal — tempo da salvação, dos sinais e prodígios, aparição do Mediador, crise da Turba Gentium, segunda criação
não acrescentando as Lições de Stuttgart nada de importante, constatando-se, ao recolher outras indicações esparsas na obra intermediária — como o tempo heroico ou tempo dos gigantes (Weltalter), que decerto provém de Vico e que também fascinou Fr.
Schlegel, o afundamento e a queda do Império Romano sob pesado temporal, o advento do Labarum e da era constantiniana, as invasões bárbaras, as Cruzadas — que, no limiar da filosofia positiva,
Schelling possuía filosofia da história estruturada, embora lacônica
10. Interditava-se, porém, toda profecia, particularmente sobre o tempo iminente, ao contrário do caçula Schlegel, guardando “a epopeia que medita o Espírito de Deus” ciosamente seus segredos de composição.
voltando-se por isso a arte divinatória de
Schelling quase exclusivamente para um passado suficientemente extinto e distante para que o presente não lhe modifique a imagem, sendo nesse tempo obscuro, χρóνος ἄδηλξος, da mitologia, perdido na memória ancestral, que
Schelling ordena retrospectivamente o plano divino da salvação, sua primeira fase “pré-histórica”, correspondente à memória pagã
dizendo respeito a história “interna”, verdadeira, antes de tudo à anamnese mitológica, não estando esta aliás inteiramente desligada da história antiga propriamente dita, remetendo-se a origem e portanto as migrações dos povos, a divisão etnográfica e geográfica dos grupos humanos, a uma crise espiritual interna, como a mitologia
11. Sendo a mitologia história interna em sentido próprio, isto é, que se desenrola no interior, na consciência da humanidade pré-cristã, e apenas ali, sendo a consciência humana o lugar e o teatro do politeísmo sucessivo.
sendo por conseguinte a mitologia história “extática”, tal como a consciência é enfeitiçada pelo deus, sendo presa de suas representações necessárias, sendo o “estado extático” da consciência mitológica espécie de pesadelo desperto
não sendo por isso menos uma “teogonia real… um devir real de Deus na consciência”, sendo a “teogonia subjetiva” também objetiva
12. Constituindo a gênese do monoteísmo por lenta extinção do politeísmo — não sendo Schelling muito explícito nesse ponto — a biografia de Deus, como diz Hegel, não estando sem relação declarada com a história dos historiadores, mas, sabe-se, não tendo Schelling desenvolvido em detalhe senão o grande tema de Babel, a crise maior da divisão das raças e dos povos, não se reduzindo a isso a história arcaica, mas não se prestando os indícios esparsos na Filosofia da Mitologia a longos esclarecimentos, condenando-se a esboços globais toda história exclusivamente religiosa do mundo antigo e do paganismo.
13. Mostrando-se em particular manifesto o embaraço de Schelling quando se trata da “aurora da filosofia grega” e do hiato que se instala entre o fim presumido da consciência mitológica e o advento dos Mistérios como eutanásia dos deuses e espera próxima do Messias desconhecido.
sendo apesar de tudo longos séculos marcados pela efervescência do gênio helênico, que se desenrolam entre os relatos de Homero e a eclosão do culto eleusino, sendo esses séculos tão ricos historicamente estagnados por estar a aventura religiosa em ponto morto
estando desde há muito efetuadas a anamnese mitológica, a genealogia dos deuses, mas entre esse passado revolto, extático, e o acontecimento de Cristo, não se preenchendo o intervalo com nada, estando a história vazia; não cumprindo suas promessas na filosofia de
Schelling a era de Prometeu, proclamada por
Marx
14. Havendo porém algo mais grave — passando-se da Filosofia da Mitologia à Filosofia Especial da Revelação: tendo o privilégio concedido ao paganismo despojado Israel de seu direito de primogenitura, tendo Deus de certo modo deserdado preventivamente os judeus, sendo o paganismo o verdadeiro Antigo Testamento da Revelação, sem o qual o cristianismo é incompreensível, constituindo a “verdadeira filosofia da História” o contraste entre paganismo e cristianismo, parecendo paradoxalmente supérflua a Revelação bíblica.
permitindo de fato a Introdução à Filosofia da Mitologia matizar essa constatação, valorizando-se ali o vigor do monoteísmo judaico — ao passo que o curso sobre o monoteísmo não é franco a esse respeito e ocupa-se sobretudo em preservar a transição politeísta —, sendo nitidamente semítico o clima da Revelação ali descrito
sendo em contrapartida apenas negativo o capítulo da Filosofia da Revelação, não havendo “salvação pelos judeus” e provindo do paganismo os elementos válidos do judaísmo — algo disso já se incubava em Lessing, apesar de seu preconceito prossemita
seja como for, encontrando-se o estatuto de Israel deslocado ou em falso, compreendendo-se melhor o embaraço de
Schelling diante do judaísmo ao saber-se não ser para ele Cristo o Messias judeu, mas a “Luz dos pagãos”, Lumen gentium
II — Cristologia
15. Sendo o Cristo preexistente — a única preexistência admitida por Schelling, pois não há geração eterna do Filho — o princípio cósmico e natural do paganismo, levando no interior do processo mitológico vida latente e subterrânea, que se traduz numa tipologia figurativa retirada do Antigo Testamento mas análoga às primeiras representações do mistério cristão: Héracles, Osíris, Prometeu, Dioniso e suas metamorfoses, entre os quais se intercala o Servo sofredor de Isaías, sendo na realidade a segunda potência do processo, aquela que assume sempre o papel mediador.
16. Tendo Schelling mantido, senão “a Encarnação desde toda a eternidade”, ao menos o Cristo “cume e fim do mundo dos deuses antigos”, das Lições Universitárias, sendo já a intuição de Hölderlin que Cristo, o último e o maior dos deuses, o único, misturada a estranho sentimento de servilidade e humilhação que evoca a kênosis.
orientando-se sobre ele o processo mitológico, do qual é a mola e a enteléquia, tendo percorrido o calvário da consciência, curvado sob a maldição e a necessidade de ferro, ao longo de existência surda, implícita, encravada no mundo, saudando os Mistérios, em seu termo, uma criança, consumando Cristo a mitologia, e desaparecendo os deuses
17. Vendo porém nele os Estudos Universitários, como pessoa simbólica, a manifestação perfeita do Absoluto sem assinalar seu rebaixamento, pondo em relevo a Filosofia da Revelação a recusa da glória pagã, não vindo Cristo presidir o Panteão, sendo o termo antes que o cume, não gravitando o coro dos deuses em torno dele, tendo o senhor do cosmos se feito homem e não deus.
enxertando
Schelling, sobre essa rejeição da terceira tentação, teoria original da exinanição, tão original que escapou aos kenotistas protestantes do século XIX, mencionando Walter Kasper apenas de leve seu teor estranho
sendo até o momento da Encarnação híbrido o sujeito do processo, μορϕὴ θεοῦ, nem celeste nem terrestre, significando a kênosis a renúncia à glória pagã, à beleza olímpica
sendo a Encarnação exinanição, sendo a exinanição idêntica à Encarnação: tornar-se homem e não deus, consistindo nisso a kênosis segundo
Schelling
lendo-se certamente na Filosofia da Mitologia ser a forma humana dos deuses necessariamente o fim do processo mitológico, sendo a figura humana o sinal da apoteose divina e da vitória sobre o princípio cego
revestindo porém o último dos deuses a forma humana sem apoteose nem brilho, disfarçando sua aparência, tomando a “forma de escravo” e exilando-se na Judeia, não escapando nem mesmo sua misteriosa germinação no seio de uma virgem judia de ser teste de sua humilhação
visando a exegese particular, inspirada em Lutero, à qual
Schelling submete o μορϕὴ θεοῦ do hino aos filipenses, retirar-lhe sua significação trinitária e interpretá-lo como despojamento do esplendor hierofânico e da “religião estética”
18. Sendo o Cristo nascido na Judeia, porém, o Messias dos pagãos, o vetor e a conclusão dos processos mitológicos: “em Cristo morreu toda a religião cósmica”.
sendo essa morte infamante do Filho do Homem — título preferido por
Schelling — necessária para que fosse aniquilado o princípio do paganismo, o portador do castigo e do ser-alienado, sendo preciso que morresse na Cruz (mors turpissima)
daí essas linhas singulares: chegadas as próprias coisas, desaparecem suas simples sombras, tendo diante de um Fato tão objetivo, ocorrido diante dos olhos do mundo desencantado, desaparecido toda a crença anterior e tornado-se fábula, embora não fosse a princípio pura ficção, mas fundada na verdade sobre certa necessidade subjetiva, sendo conhecido que a História, desde a aparição de Cristo, assume significação bem diferente da que antes tinha
19. Sancionando de fato a morte da Cruz o desaparecimento da religião pagã, pondo aliás essa morte punitiva termo a vida penosa, curvada sob o jugo da obediência, pois a kênosis é a Encarnação também nesse sentido de que um actus continuus de exinanição assegura por assim dizer a “manutenção” da existência humana de Cristo.
tendo sido vida forçada, sob as espécies e libré da alienação pagã, fazendo
Schelling, a propósito da morte, ouvir o lúgubre gemido do Grande Pã nas margens do Bósforo, no relato de Plutarco, tendo morrido com Cristo o Grande Pã
20. Tendo entretanto o tempo de Cristo iniciado a fase decisiva da história da salvação, sendo uma brecha, uma invasão de luz nas trevas, sendo raríssimas desde a criação as intervenções diretas e fulgurantes de Deus na História, concentrando-se quase todas nesse tempo fértil em milagres.
atravessando, durante o tempo de Cristo e da primeira comunidade cristã, a história salutar a história profana e inundando-a em torrentes, sendo o tempo das maravilhas e do maravilhamento
começando depois o curso do cristianismo, atento a guardar a memória que faz sua interioridade, enquanto Satã, verdadeiro princípio dinâmico da história, se atarefa em desafogar todas as possibilidades, em desimpedir todas as saídas
instituindo-se por outro lado, no seio da história universal, o tempo da Igreja, que obedece a movimento dialético profundo, tendo
Schelling elaborado a teoria das três Igrejas, petrina (católica), paulina (protestante) e joanina, unidas como concatenação das potências — teoria que vivamente impressionou os contemporâneos
estando a terceira Igreja, dedicada ao apóstolo João, ainda por vir, sendo a Igreja do porvir, da verdadeira religião filosófica
21. Sendo interno e subjetivo o princípio da História, tendo apenas por algum tempo se mostrado objetivamente, em carne e osso, em Cristo, sendo Cristo a Revelação em sentido objetivo, o conteúdo e o objeto da Revelação, sendo a própria Revelação.
sendo esse ponto de vista de todo ortodoxo, mas acarretando a concentração cristológica quase pretérição do Jesus histórico, fixando-se Cristo na cristologia, apresentando dele
Schelling biografia toda dogmática, reduzida a proposições e teoremas — belo espécime de “cristologia idealista” reticente diante da firmeza da união hipostática
sendo outro traço marcante da cristologia schellingiana a “entrega do mundo ao Pai”, que consagra o Deus “tudo em todos”, não sendo o domínio do passado tal que extenue a fibra escatológica, reforçando-a antes, selando o “tudo em todos” a reunião dos eons
III — Aberturas teológicas
22. Não sendo a fraca ressonância passada da filosofia religiosa schellingiana veredito definitivo, sendo hoje o julgamento de W. Kasper surpreendentemente favorável, unindo-se à simpatia de Tillich, que a bem dizer se atém sobretudo ao Schelling da meia-idade.
tendendo o teólogo de Tübingen mesmo a apagar os aspectos escabrosos, fantásticos, da cristologia, por exemplo o papel insuficientemente eliminado de libertador do Pai, ou o modo quase gnóstico da Encarnação
tendo sido, não obstante, boa conselheira a indulgência, na medida em que Kasper sublinha a seriedade da cristologia schellingiana e afirma que essa filosofia “caminha para um pensamento dialógico”, precisamente por estar a ponto de superar “o abismo da razão”, a Transcendência vertiginosa que é a alternativa do diálogo
sendo assim
Schelling o precursor não confessado das teologias personalistas e, para estas, interlocutor tácito, sendo isso sem dúvida o que pressentira o leitor entusiasta de
Schelling e pensador existencial Franz
Rosenzweig, apesar de ter exibido gosto imoderado pelas Idades do Mundo
sendo esse o lugar de aproveitar, como faz Kasper, a admirável apóstrofe que assinala a transição à filosofia positiva, comentário da sentença “Person sucht Person”, e que, através dos anos, ecoa aquela outra sentença das Investigações sobre a Liberdade, “Nur Persönliches kann Persönliches heilen”: reclamando o sujeito o próprio Deus, Ele, que ele quer ter, o Deus que age, em quem há Providência, que, enquanto ele mesmo efetivo, pode opor-se à efetividade da queda, em suma que é o SENHOR do Ser, vendo-se apenas nele o Bem realmente supremo, não tendo o sentido da vida contemplativa jamais sido senão penetrar além do universal até a personalidade, pois a pessoa busca a pessoa
não conseguindo a colocação de Walter Schulz restringir o alcance desse ímpeto retórico, mas ímpeto do coração
23. Tomando estudo recente de Dietrich Korsch o viés inverso e examinando como o cristianismo, e singularmente a cristologia, preenchem função sistemática na construção do sistema, tendo passado por ali a fascinação da obra de W. Schulz, que destina em suma os conteúdos positivos, permanecendo porém a integração de dados existenciais, históricos e religiosos num sistema, desde a Fenomenologia do Espírito de Hegel, obstáculo crítico não fácil de superar.
24. Não estando a reabilitação teológica de Schelling, tentada e conseguida por Walter Kasper contra tradição desfavorável, porém perfeitamente assegurada, dando-se como prova disso a dissertação teológica de Walter Schoepsdau, à qual não se prestou atenção suficiente, correspondendo do ponto de vista teológico ao que a dissertação filosófica de Jürgen Habermas realizara outrora, uma crítica em profundidade.
resultando a insatisfação que emana da obra de
Schelling, segundo Schoepsdau, da amálgama operada entre o Deus final (am Ende) e o Deus do começo, entre o Motor imóvel e o Deus revelado, o Deus criador, não conseguindo a cristologia romper o feitiço que retém cativo o Deus transcendente
devendo ter sido o Filho o Redentor do Pai, sendo e permanecendo o Deus sofredor, sem autêntica Ressurreição, encontrando aqui a teologia de improviso o crítico das ideologias (F. Schmidt): sendo o mundo o Salvador crucificado, não estando ainda ressuscitado, para
Schelling, o Cristo
não tendo
Schelling finalmente conseguido superar o ponto morto de sua problemática, a doutrina da queda, o “por que não há antes o nada?”, sendo estranho ter
Schelling acrescentado à pergunta de
Leibniz o predicado significativo “desesperada”
tendo apesar de tudo
Schelling se esforçado constantemente por superar o abismo entre o em-si e o para-si, entre a idealidade e a realidade, não tendo jamais terminado com o “mundo dos fatos”, segundo Schoepsdau, mas tendo sido enfim até o Cristo-Logos impotente diante do Deus solitário, exigido pela crise da ciência racional, sendo aqui que fracassa o empreendimento de uma teologia filosófica
tendo Adolphe Lèbre outrora zombado dela como “filosofia apócrifa do cristianismo”, veredito que atingiria melhor, e em cheio, a tentativa hegeliana de repatriar todas as representações no abrigo do conceito
25. Não se lhe podendo, porém, retirar o sentido vigoroso da “economia divina”, base da especulação teológica da Filosofia da Revelação, insistindo Karl Rahner por sua vez na preordenação da Trindade “essencial” (“eterna teogonia”) à Trindade “econômica”.
sendo essa a ideia de que a filosofia se abre à religião, tal como inversamente a religião busca a inteligência filosófica: desígnio retomado por Maurice
Blondel, que, instruído por seu amigo Victor Delbos, o aprendera entre outros com
Schelling
sendo verdade que a realização comprometeu a intenção, não tendo
Schelling, embora advertido do perigo hegeliano, podido evitar racionalizar os conteúdos de fé — não se enganaram
Baader e
Görres a esse respeito! —, sendo a regula fidei em última instância o consenso dos filósofos, o acordo de uma elite intelectual
conservando porém muitas explicações particulares interesse teológico: tendo a sofiologia, a teandria provado sua fecundidade com Khomiakov, Soloviev e o pensamento eslavófilo; dominando o cristocentrismo, acompanhado da doutrina origeniana dos “estados” de Cristo, a reflexão teológica atual; não sendo menos vivo o senso da tradição: a pedra angular, o “fundamento posto para sempre”
bastando por fim a exortação veemente a elevar-se à altura dos pensamentos divinos, a superar a estreiteza de nossas concepções para aceder ao conhecimento do Deus sublime, desconcertante e oculto, e à compreensão de suas grandes façanhas, para indicar termos ainda o que reaprender com
Schelling, tendo assim a Spätphilosophie ainda dias bonitos pela frente