14 Filosofia positiva

TILLIETTE, Xavier. L’absolu et la philosophie: essais sur Schelling. Paris: PUF, 1987.

1. Se o termo “última filosofia” ou “filosofia tardia” de Schelling designa unicamente, como agora é uso entre os críticos, o bloco das obras póstumas, isto é, dos cursos lecionados em Munique e Berlim, fica claro estar ali exorcizada a ideia do Deus em devir (werdender Gott), dizendo respeito o desenvolvimento, o devir, a História, unicamente ao “outro de Deus”, à criação.

2. Por mais que se regrida na produção de Schelling, encontra-se ali, a princípio acidental, depois cada vez mais insistente, a preocupação histórica herdada de Herder e Lessing, vendo-se a Natureza na sucessão das formas, como morfogênese, e no poderoso movimento de sua evolução, não sendo apenas Naturlehre mas Naturlauf e Naturgeschichte.

3. Conduzindo os Weltalter ao limiar da última filosofia sensu stricto, constituindo empresa audaz e gigantesca permanecida em estado de “fragmento”: não tendo sido integralmente redigido, dos três livros projetados, após grande quantidade de rascunhos e versões, senão o livro do Passado, tendo-se especulado muito sobre a interrupção ou mesmo o fracasso dos Weltalter.

4. Servindo-se porém a anamnese atormentada das Idades do Mundo, “recolhendo dos destroços do passado todo vestígio”, em busca do começo absoluto, finalmente pouco da mitologia, penetrando uma intuição adivinhatória, Mit-wissenschaft der Schöpfung, até a origem, que evoca com auxílio de metáforas, citações bíblicas, e sobretudo de uma gnose trinitária, na qual Schelling não deixa de se embaraçar.

5. Tendo influenciado em seu tempo a primeira filosofia de Schelling, por seu ecumenismo e seu senso do sagrado, a Escola católica de Landshut em torno de Michael Sailer, exercendo mais tarde, unida às perspectivas novas do escrito sobre a liberdade e aos fragmentos do ensino do grande empirismo que colportavam os ouvintes, grande ascendência sobre a Faculdade católica de Tübingen, Drey, Kuhn, Staudenmaier, Möhler, logo colega de Schelling em Munique, traçando boa monografia de Thomas O'Meara essa influência.

6. Valendo em todo caso a Spätphilosophie mais do que sua antiga reputação, percebendo-se isso ao examiná-la, ainda que de ponto de vista limitado: a teologia da história, a cristologia kenótica, algumas perspectivas abertas, ainda timidamente, à reflexão teológica atual.

I — Teologia da história

7. Sendo a única história digna da atenção do filósofo uma história providencial, na qual Deus intervém nomeadamente: sendo essa a “história superior”, a “verdadeira história”, tendo Gabriel Marcel um dia destacado passagem da Filosofia Especial da Revelação referente à Ressurreição: sendo a Ressurreição de Cristo o Fato decisivo de toda essa história superior, incompreensível certamente do ponto de vista ordinário, sendo fatos como a Ressurreição de Cristo como relâmpagos pelos quais a história verdadeira, interior, fura a simples história exterior e nela se introduz, parecendo a História sombria, vazia e morta, despojada de todo conteúdo divino, quando privada de sua relação com essa História interior, divina, transcendente, única verdadeiramente a verdadeira história, a história por excelência.

8. Sendo essa uma história dos grandes feitos de Deus, de suas façanhas, não sendo exatamente sobreponível à história humana “cheia de ruído e fúria”, que não se preocupa nem com ela, que não busca ler nem decifrar seus arcanos — história oculta e transcendente ao mesmo tempo, confundindo-se exatamente com a Heilsgeschichte.

9. Tendo Schelling, em suma, contentado-se em definir a origem e o fim, se é permitido parafrasear título de Jaspers, não se encontrando, mesmo na “filosofia puramente racional” — é verdade que inacabada —, que serve de prelúdio profano à filosofia religiosa, o traço dos grandes acontecimentos, servindo a figura de Prometeu de emblema para a aventura extradivina da humanidade.

10. Interditava-se, porém, toda profecia, particularmente sobre o tempo iminente, ao contrário do caçula Schlegel, guardando “a epopeia que medita o Espírito de Deus” ciosamente seus segredos de composição.

11. Sendo a mitologia história interna em sentido próprio, isto é, que se desenrola no interior, na consciência da humanidade pré-cristã, e apenas ali, sendo a consciência humana o lugar e o teatro do politeísmo sucessivo.

12. Constituindo a gênese do monoteísmo por lenta extinção do politeísmo — não sendo Schelling muito explícito nesse ponto — a biografia de Deus, como diz Hegel, não estando sem relação declarada com a história dos historiadores, mas, sabe-se, não tendo Schelling desenvolvido em detalhe senão o grande tema de Babel, a crise maior da divisão das raças e dos povos, não se reduzindo a isso a história arcaica, mas não se prestando os indícios esparsos na Filosofia da Mitologia a longos esclarecimentos, condenando-se a esboços globais toda história exclusivamente religiosa do mundo antigo e do paganismo.

13. Mostrando-se em particular manifesto o embaraço de Schelling quando se trata da “aurora da filosofia grega” e do hiato que se instala entre o fim presumido da consciência mitológica e o advento dos Mistérios como eutanásia dos deuses e espera próxima do Messias desconhecido.

14. Havendo porém algo mais grave — passando-se da Filosofia da Mitologia à Filosofia Especial da Revelação: tendo o privilégio concedido ao paganismo despojado Israel de seu direito de primogenitura, tendo Deus de certo modo deserdado preventivamente os judeus, sendo o paganismo o verdadeiro Antigo Testamento da Revelação, sem o qual o cristianismo é incompreensível, constituindo a “verdadeira filosofia da História” o contraste entre paganismo e cristianismo, parecendo paradoxalmente supérflua a Revelação bíblica.

II — Cristologia

15. Sendo o Cristo preexistente — a única preexistência admitida por Schelling, pois não há geração eterna do Filho — o princípio cósmico e natural do paganismo, levando no interior do processo mitológico vida latente e subterrânea, que se traduz numa tipologia figurativa retirada do Antigo Testamento mas análoga às primeiras representações do mistério cristão: Héracles, Osíris, Prometeu, Dioniso e suas metamorfoses, entre os quais se intercala o Servo sofredor de Isaías, sendo na realidade a segunda potência do processo, aquela que assume sempre o papel mediador.

16. Tendo Schelling mantido, senão “a Encarnação desde toda a eternidade”, ao menos o Cristo “cume e fim do mundo dos deuses antigos”, das Lições Universitárias, sendo já a intuição de Hölderlin que Cristo, o último e o maior dos deuses, o único, misturada a estranho sentimento de servilidade e humilhação que evoca a kênosis.

17. Vendo porém nele os Estudos Universitários, como pessoa simbólica, a manifestação perfeita do Absoluto sem assinalar seu rebaixamento, pondo em relevo a Filosofia da Revelação a recusa da glória pagã, não vindo Cristo presidir o Panteão, sendo o termo antes que o cume, não gravitando o coro dos deuses em torno dele, tendo o senhor do cosmos se feito homem e não deus.

18. Sendo o Cristo nascido na Judeia, porém, o Messias dos pagãos, o vetor e a conclusão dos processos mitológicos: “em Cristo morreu toda a religião cósmica”.

19. Sancionando de fato a morte da Cruz o desaparecimento da religião pagã, pondo aliás essa morte punitiva termo a vida penosa, curvada sob o jugo da obediência, pois a kênosis é a Encarnação também nesse sentido de que um actus continuus de exinanição assegura por assim dizer a “manutenção” da existência humana de Cristo.

20. Tendo entretanto o tempo de Cristo iniciado a fase decisiva da história da salvação, sendo uma brecha, uma invasão de luz nas trevas, sendo raríssimas desde a criação as intervenções diretas e fulgurantes de Deus na História, concentrando-se quase todas nesse tempo fértil em milagres.

21. Sendo interno e subjetivo o princípio da História, tendo apenas por algum tempo se mostrado objetivamente, em carne e osso, em Cristo, sendo Cristo a Revelação em sentido objetivo, o conteúdo e o objeto da Revelação, sendo a própria Revelação.

III — Aberturas teológicas

22. Não sendo a fraca ressonância passada da filosofia religiosa schellingiana veredito definitivo, sendo hoje o julgamento de W. Kasper surpreendentemente favorável, unindo-se à simpatia de Tillich, que a bem dizer se atém sobretudo ao Schelling da meia-idade.

23. Tomando estudo recente de Dietrich Korsch o viés inverso e examinando como o cristianismo, e singularmente a cristologia, preenchem função sistemática na construção do sistema, tendo passado por ali a fascinação da obra de W. Schulz, que destina em suma os conteúdos positivos, permanecendo porém a integração de dados existenciais, históricos e religiosos num sistema, desde a Fenomenologia do Espírito de Hegel, obstáculo crítico não fácil de superar.

24. Não estando a reabilitação teológica de Schelling, tentada e conseguida por Walter Kasper contra tradição desfavorável, porém perfeitamente assegurada, dando-se como prova disso a dissertação teológica de Walter Schoepsdau, à qual não se prestou atenção suficiente, correspondendo do ponto de vista teológico ao que a dissertação filosófica de Jürgen Habermas realizara outrora, uma crítica em profundidade.

25. Não se lhe podendo, porém, retirar o sentido vigoroso da “economia divina”, base da especulação teológica da Filosofia da Revelação, insistindo Karl Rahner por sua vez na preordenação da Trindade “essencial” (“eterna teogonia”) à Trindade “econômica”.