11 Mitologia

TILLIETTE, Xavier. L’absolu et la philosophie: essais sur Schelling. Paris: PUF, 1987.

1. Acompanhando a mitologia o itinerário de Schelling, desposando suas fases sucessivas, de modo que se poderia tomá-la como fio condutor do desenvolvimento, não sendo, porém, o propósito aqui servir-se da mitologia para avaliar a constância e a inconstância dessa “filosofia em devir”, pressupondo-se antes um pensamento em movimento, atento ao seu rastro, voltando-se o olhar para um de seus conteúdos, tentando-se mais uma vez surpreender Schelling em trabalho, às voltas com um mundo de conhecimentos a ordenar e a dominar.

2. Estando a mitologia no princípio da formação intelectual de Schelling, atestando sua primeira publicação, De prima malorum humanorum origine (1792), e a seguinte, o artigo dos Memorabilien “Sobre os mitos, as lendas históricas e os filosofemas do mundo primitivo” (1793), bem mais que um interesse escolar de aluno muito dotado.

3. Inserindo-se assim, facilmente, na linha de um desenvolvimento precoce, o famoso “Programa Sistemático do Idealismo Alemão”, cuja atribuição a Schelling permanece muito provável, não tendo a adesão fervorosa ao fichteanismo recalcado as preocupações anteriores, sendo precisamente o Programa um díptico das tendências, transcendental e estética, que se dividem o ímpeto do filósofo nascente.

4. Permanecendo a ideia de nova mitologia como espécie de motivo e emblema sobre as próximas obras de Schelling, mas estando ali votada, por causas examinadas alhures, a lenta extinção, estando Schelling a ponto de esquecê-la quando enuncia a seu confidente August Wilh. Schlegel que vai começar “com a mitologia” — com a antiga mitologia, entenda-se, a única que vale.

5. Permanecendo muito esquemáticas as belas evocações mitológicas ao final de Bruno e do artigo controverso “Sobre a relação da filosofia da Natureza com a filosofia em geral”, contentando-se do mesmo modo as Lições sobre o Método dos Estudos Universitários com um panorama das religiões do velho e do novo mundo, o helenismo e o cristianismo.

6. Omitindo-se a comparação com o cristianismo e sua mitologia, bem como o revezamento da mitologia pela filosofia, e depois a questão da nova mitologia relançada pelo sucesso da física, ressaltando dois traços que fazem pressagiar o desenvolvimento ulterior.

7. Entrando esse esboço, como o resto, na grande latência do pensamento de Schelling, latência característica de sua “mutação”, estando o vasto projeto que medita, amadurece e esboça depois do escrito sobre a liberdade, a saber a bíblia laica das Idades do Mundo, votado ao aborto, redigindo-se (mas não publicando-se) apenas o Livro do Passado.

8. Tendo também aqui a mitologia acompanhado e mesmo precedido o curso das coisas, sendo com efeito o primeiro sinal de uma inflexão decisiva — no seio da grande mudança à qual se prende o nome dos Weltalter — a conferência “sobre as divindades de Samotrácia”, dada sem hesitar como “apêndice dos Weltalter” e publicada com notas carregadas de erudição.

9. Rivalizando com os eruditos em seu terreno (correndo o risco de atrair, com Creuzer, a zombaria de Goethe), adotando Schelling a ideia creuzeriana de Ursystem, de um sistema primitivo do mundo e do pensamento humano, que depois se teria fragmentado e disperso nas diversas culturas.

10. Pertencendo a Filosofia da Mitologia, aparentemente completa e fechada sobre si mesma, a um grande conjunto inacabado, do qual constitui uma das asas principais, estando ligada à “filosofia geral” (Trindade e Criação) pelo filosofema da queda, e conectando-se à “filosofia especial” da Revelação pela doutrina dos mistérios.

11. Permanecendo não obstante a Filosofia da Mitologia largamente autônoma, império dentro de um império, tendo Schelling tido o sentimento fundado de fazer obra original, particularmente no quadro das teorias da mitologia, explicando-se ele próprio longamente na Introdução Histórico-Crítica.

12. Não sendo essa filosofia da mitologia de modo algum uma filosofia extraída da mitologia (como se os mitos envolvessem filosofia rudimentar), nem tradução ulterior da mitologia em conceitos filosóficos, como praticaram os neoplatônicos após a decadência dos mitos — mesmo que numa dada época as noções filosóficas tenham começado a crescer sobre a vegetação mitológica.

13. Podendo, apesar dessas precauções, surpreender a expressão: não sendo a regra de interpretação, dessa vez oficialmente, a tautegoria? Entregar a mitologia à investigação filosófica não seria infringir a tautegoria? Como pode a mitologia explicar-se a si mesma e ter por chave a teoria das potências?

14. Sendo falso, porém, apesar dos sarcasmos prodigalizados por Baader e outros, que Schelling tenha interpretado a mitologia à base de ideias preconcebidas, tendo-se as potências formado e moldado ao contato, não sendo a mitologia analisada fruto de a priori, mas a amálgama de uma documentação já elaborada (não se apresentando a mitologia em estado selvagem) e de uma indução heurística.

15. Sendo o axioma gerador da explicação que a chave da mitologia está nela mesma, precisando essa fórmula, porém, ser precisada: estando a chave na mitologia, mas retrospectivamente; abrindo-se depois do fato.

16. Sendo a figura tautegórica, arquetípica, da consciência mitológica Perséfone, celebrada no segredo dos Mistérios, aplicando-se todos os traços de sua doutrina à consciência originária.

17. Simbolizando Perséfone e Deméter, com efeito, a separação da consciência originária, faltando porém uma terceira causa pura ao processo subjetivo, interiorizado pelos Mistérios: sendo Dioniso, ele também “chave de toda a mitologia grega”, isto é, da mitologia por excelência, felicitando Schelling a Creuzer por tê-lo de certo modo reabilitado.

18. Contraindo-se assim, por essa insistência sobre o “segundo deus”, a mitologia, que veicula uma “real história divina”, “cada vez mais em história das paixões e ações do segundo deus”, pairando, porém, acima dos atores engajados no processo até sua extinção, as causas puras, geradoras, os deuses formais e causadores que dele são os agentes.

19. Tendo Schelling destacado sua interpretação da mitologia como processo teogônico da consciência, ou da humanidade, processo que se destaca de um tempo “não mitológico” de estagnação e torpor, um “movimento vivo”, uma sucessão, onde as mitologias como as figuras tiram sua significação de seu lugar no trajeto.

20. Sendo o processo uma teogonia, uma genealogia dos deuses, povoando gerações divinas, pouco a pouco, a noite sagrada do paganismo, até que se ilumine na assembleia alegre e multicolorida do panteão helênico.

21. Sendo a consciência, ao longo do processo, “alienada”, “infeliz”, “dilacerada”, por estar cativa de necessidade inelutável, que reforça ainda, em tal povo e tal religião, a resistência ao processo.

22. Sendo isso, em linhas gerais, a explicação interna, tratando a explicação externa do labor indutivo do filósofo, que produziu resultado afinal admirável, pela massa e pelo detalhe, independentemente mesmo da inserção no sistema schellingiano.

23. Não podendo evitar-se, nesse tipo de empreendimento, o perigo de sistematização, só se alcançando a coerência ao preço de uma escolha e uma eliminação, sendo porém, examinada sem prevenções, a mitologia de Schelling muito mais flexível, muito mais aporética, do que parece à primeira vista.

24. Erguendo-se, na construção terminada, trechos inteiros sem destinação arquitetônica, tendo o construtor tido de rejeitar muitas pedras de cantaria, sendo por isso falso, ou ao menos muito exagerado, ter Schelling feito da mitologia o mimodrama das potências e nada mais.