A retração obedece à lei de “não cobiçar o ser”, pois o devir só preserva sua possibilidade quando a vontade de existência é negada por uma vontade mais originária, a vontade do fundamento, que abandona a fixação no ser para permanecer aberta ao poder-ser.
A vontade designa, em
Schelling, a pura tendência anterior a qualquer finalidade determinada e, por isso, só pode ser compreendida a partir da retração que preserva a possibilidade diante de toda configuração.
A não-vontade, Unwille, não significa simples ausência ou deficiência, mas a positividade de um não que doa ao impedir a fixação da possibilidade.
Termos como Ungrund, Unwesen e Unwille conservam vestígios de uma positividade originária do não que a história moderna progressivamente converteu em negatividade.
A transformação linguística do não acompanha a própria história metafísica da vontade e torna-se decisiva para compreender a possibilidade de superar o voluntarismo.
A história das palavras revela possibilidades históricas do próprio homem, de modo que a negatividade moderna atribuída ao não não elimina sua positividade vital; a formulação rilkeana da paciência diante do devir permite entrever, na não-vontade, uma retração que acolhe em vez de impedir.
A expressão rilkeana “sem intolerância” emprega uma dupla negação para retirar da vontade sua força de resistência e fazê-la aparecer positivamente como paciência, espera e deixar-ser.
A vontade originária não força o devir nem antecipa seus frutos, mas acolhe o surgimento espontâneo daquilo que vem a ser.
A passividade aparente da espera exprime, assim, uma atividade mais originária do que a deliberação e o propósito.
A positividade da não-vontade consiste precisamente em negar o voluntarismo, a precipitação e a pretensão de determinar previamente o curso do devir.
A resistência pertence necessariamente ao devir, porque este somente pode realizar-se ao atravessar configurações de ser que simultaneamente o sustentam e limitam.
A não-vontade não elimina essa resistência, mas a integra numa tensão entre impulso de ser e espera.
O “não cobiçar o ser” exprime a necessidade de constituir formas sem permanecer aprisionado nelas.
A vontade torna-se então alegria de transformação, pois viver significa superar-se continuamente no outro sem fixar-se definitivamente em nenhuma realização.
A vontade da não-vontade age resistindo à resistência que o ser determinado oferece ao devir, e essa ação constitui, para
Schelling, o ato radical do começo; sua retração assume duas formas fundamentais, êxtase e serenidade.
O êxtase designa o movimento pelo qual o devir somente permanece sendo ao sair continuamente de toda configuração em que se realiza.
Resistir ao ser não significa eliminá-lo, mas atravessá-lo preservando nele a possibilidade de novo devir.
O êxtase exprime esse colocar-se para fora de si, abandonar cada lugar conquistado e conservar a existência aberta à transcendência.
Diante do absoluto, o eu precisa abandonar sua posição de sujeito e colocar-se fora de si, pois somente pela abnegação da pretensão de ocupar o lugar de fundamento pode abrir-se àquilo que não pode ser convertido em objeto.
A abnegação do eu própria ao êxtase rompe com a metafísica do sujeito sem cair em irracionalismo, pois não elimina o sujeito arbitrariamente, mas o reconduz à condição ontológica de possibilidade da qual ele próprio emerge.
O sujeito representa uma resistência interna ao devir e não algo simplesmente exterior a ele.
O êxtase procura libertar o começo da predeterminação subjetiva, permitindo que o poder-ser apareça como princípio mais originário que qualquer causa ou fundamento previamente constituído.
O êxtase possui sentido ambíguo porque todo deslocamento de um lugar pode conduzir tanto à abertura legítima quanto à perda desordenada de si, dependendo de o lugar abandonado pertencer ou não propriamente à existência.
Como expressão do próprio devir, o êxtase é o movimento pelo qual algo vem a ser abandonando continuamente os lugares que assume, preservando o não-ser no interior de cada nova configuração de ser.
Colocar-se para fora e abandonar um lugar significa simultaneamente fundar um novo lugar, de modo que o devir, embora ilimitado, é justamente aquilo que produz limites e concretizações.
A experiência, Erfahrung, explicita esse caráter extático como percurso no qual se entra no ser e se assume um limite sem perder o impulso de retornar ao princípio anterior a toda determinação.
Fazer experiência significa, portanto, ingressar numa configuração de ser preservando nela a força de ultrapassagem que impede sua transformação em término definitivo.
O êxtase só permanece fiel ao devir quando a entrada no ser é simultaneamente abertura para sua superação, e essa convivência entre vontade de existência e vontade do fundamento constitui a serenidade.
Gelassenheit designa o deixar que reúne ambas as vontades sem coerção.
A unidade originária não nasce da absorção de uma vontade pela outra, mas do abandono recíproco mediante o qual vontade e ser podem encontrar-se sem apropriação.
A serenidade exprime a permanência paciente na tensão entre ser e não-ser e possui primazia porque devolve continuamente o êxtase à possibilidade de recomeçar.
Não significa imobilidade ou acomodação, mas a calma que, em toda saída de si, conserva aberta a possibilidade do retorno.
O surgimento verdadeiramente livre é aquele que consegue desprender-se do que já surgiu para preservar a própria força de surgimento.
Como a retração precede ontologicamente toda realização, a existência possui caráter radicalmente inesperado, pois não pode ser deduzida da possibilidade como resultado necessário.
O inesperado não designa surpresa ocasional, mas o fato de que a própria possibilidade possa vir a existir.
A espera do inesperado é a serenidade na qual a existência pode surgir sem ser previamente determinada.
A liberdade manifesta-se, assim, como poder-ser que inclui a possibilidade de não-ser.
A liberdade integral é um nada somente porque nada deseja ou exige para sua realização, mas é simultaneamente tudo porque toda força e toda possibilidade procedem dela.
A existência anuncia-se originariamente a partir de um não que não significa ausência absoluta, mas retração do fundamento para que a possibilidade possa realizar-se livremente.
O fundamento não deseja a existência como aquilo que lhe falta, pois ele próprio é a totalidade de sua possibilidade.
A vontade do fundamento é, portanto, abundância que se retrai e não carência que procura completar-se.
Sua pobreza consiste em nada cobiçar porque já é a totalidade de onde todas as determinações podem surgir.
O mais elevado não necessita apropriar-se de propriedades ou determinações, pois sua grandeza consiste justamente na efusão sem cobiça; a vontade pobre é soberana porque, possuindo tudo em si como possibilidade, nada precisa buscar fora de si.