A origem do mundo pode ser compreendida como milagre integral porque a própria criação não decorre de uma causalidade exterior, mas da irrupção originária do ser enquanto começo.
O mistério do mundo coincide com o mistério do ser como eterno começo, cuja doação integral se realiza ao separar-se de si e acolher-se novamente no outro de si mesmo.
A diferença entre divindade, Deus e mundo não designa substâncias distintas, mas momentos do mesmo movimento de autodiferenciação e retorno.
O eterno começo não é análogo à eternidade, mas a própria eternidade enquanto ato de dar começo.
A diferença ontológica aparece, assim, como duração criadora: ser é vir a ser mediante separação de si, acolhimento e retorno a si.
A criação assume a estrutura concreta de um nascimento, de um dar à luz em que a divindade aparece em si mesma ao começar juntamente com um outro.
A vida não se define por produzir simplesmente algo igual ou diferente, mas pela força de devir que exterioriza o interior e faz emergir a luz a partir da obscuridade.
A “semente eterna de Deus” exprime a criação como duração criadora na qual o começo do mundo é simultaneamente o começo de Deus enquanto manifestação da própria divindade.
A criação é o dar-se a conhecer da divindade no co-nascimento de Deus e mundo, processo pelo qual a existência se configura progressivamente como individuação.
O movimento criador vai do indeterminado ao determinado, do grande ao pequeno e do caos à ordem.
A individuação não rompe com a origem, mas é a forma pela qual o começo se concretiza em existência.
A ordem não constitui a origem absoluta das coisas, pois repousa sempre sobre um fundo obscuro e irredutível de desordem que permanece como base da realidade.
A criação enquanto individuação não deve ser reduzida nem a uma fecundação externa nem a uma fabricação demiúrgica, pois individuar significa separar-se do centro sem perder o vínculo com ele.
A individuação é um desprendimento que conserva, na própria distância, a continuidade com o começo.
O indivíduo não é o produto isolado de uma origem abandonada, mas a duração concreta dessa origem em sua diferenciação.
As concepções dogmáticas de criação como fecundação ou fabricação pressupõem uma ruptura absoluta entre criador e criado e, por isso, tornam a criação exterior ao próprio devir divino.
A imagem da fecundação reduz a criação à produção de algo essencialmente diverso por um princípio exterior.
A imagem demiúrgica amplia essa exterioridade ao representar Deus como artesão que realiza um modelo previamente concebido.
Em ambas, o mundo aparece como efeito separado e hierarquicamente subordinado, em vez de manifestação interna da própria vida divina.
Essas concepções tornam o mundo simples não-Deus e comprometem a integralidade do divino, enquanto a criação como individuação preserva a divindade de Deus precisamente na diferença.
A individuação revela a identidade entre Deus e mundo porque a separação não destrói o elo originário, mas o torna visível na própria distância.
Mostrar-se exige distanciamento, e o outro criado constitui justamente o espaço em que Deus aparece ao separar-se de si.
O fora de si permanece junto a si, de modo que a criação deve ser compreendida como revelação.
Revelar significa mostrar-se no contrário, aparecendo ao mesmo tempo que se retrai e pressupondo sempre um velamento.
O velamento não é uma etapa simplesmente abandonada em favor da luz, mas a própria condição permanente da revelação, pois o outro no qual algo aparece é repercussão da mesma essência e não encarnação de uma essência distinta.
A revelação conserva sempre um “entre” emergente, uma distância interna pela qual o separado manifesta o elo primordial com aquilo de que se separou.
A existência é, assim, revelação da própria essência enquanto duração e repercussão de seu começo.
O caráter dinâmico dessa individuação é designado por
Schelling como personalidade, para indicar não um indivíduo acabado, mas a própria constituição da existência a partir do desprendimento da totalidade divina.
A identidade entre divino e humano é pessoal, não substancial, pois o divino não se transforma em outra essência, mas torna-se visível através da natureza humana.
A divindade revela-se numa personalidade, teologicamente exemplificada na pessoa do Filho, mas a filosofia deve preservar sua própria tarefa ao tratar a revelação como problema filosófico antes de convertê-la em conteúdo dogmático.
A filosofia pode preparar uma disposição para a transcendência mediante o desprendimento, mas não garantir nem possuir seu conteúdo.
A experiência do sagrado exige inclusive abandonar a vontade de apropriar-se de Deus como objeto de conhecimento.
Numa época marcada pelo abandono dos deuses, torna-se ainda mais necessário compreender filosoficamente a revelação como individuação da própria divindade, sem reduzi-la à afirmação ou negação voluntarista de Deus.
A revelação como individuação articula separação e retorno, fazendo da criação um movimento em que Deus se distancia de si para reencontrar-se no mundo.
A finalidade da criação não é um propósito exterior antecipado, mas o próprio retorno de Deus à sua divindade através da manifestação.
O mundo constitui o limite no qual o ilimitado se torna visível e, por isso, funciona como marco e sentido da vida divina.
Existir é o movimento pelo qual o ilimitado configura limites sem deixar de permanecer além deles.
Esse movimento de separar-se para reunir-se exprime a liberdade e encontra no logos sua forma originária, pois a palavra é a reunião viva que preserva a distância necessária à nova união.
A identidade entre ser e palavra deve ser pensada a partir desse começo, contra a separação nominalista entre linguagem e ser.
A palavra é ressonância do ser, e a linguagem nasce da mesma liberdade de diferenciar-se e reunir-se que estrutura a criação.
O tempo dessa revelação é um permanecer passando, em que o movimento para fora coincide com o retorno para dentro.
Essa duplicidade de direção prepara a compreensão da vontade como tendência vital, distinguindo vontade de existência e vontade do fundamento.
A vontade deve ser pensada a partir da liberdade própria da revelação, isto é, da abertura pela qual o ser se manifesta sem perder sua possibilidade de fechamento e retorno.
A vontade do fundamento é a tendência pobre que nada busca fora de si porque contém em si toda possibilidade, mas justamente por isso só retorna a si separando-se novamente.
A vontade de existência é esse movimento de exteriorização em que a diferença se afirma como coisa e determinação.
Como ambas pertencem ao mesmo processo, a existência inteira tende de volta ao fundamento, e o ser de cada coisa revela-se como ser para a totalidade.
A distinção entre vontade do fundamento e vontade de existência permite compreender a criação como vir a ser da totalidade no mundo, razão pela qual
Schelling pode afirmar que a vontade é ser originário; a investigação da vontade deve, portanto, partir da estrutura ontológica do devir para alcançar também os limites próprios da vontade.