O Deus verdadeiro é o Deus vivo porque possui em si mesmo a força de emergir, diferenciar-se e mover-se a partir de seu próprio ser, de modo que retirar-lhe essa potência equivaleria a negar sua própria vitalidade.
A vida divina implica que Deus possa dispor de seu próprio ser tornando-se outro de si mesmo, e essa capacidade de desprender-se de si para reencontrar-se na própria diferença constitui o sentido absoluto de sua liberdade.
O devir de Deus transforma o próprio conceito de fundamento: este deixa de ser uma causa exterior e imóvel para tornar-se o movimento pelo qual o ser se diferencia internamente e se realiza no outro de si mesmo.
Admitir um fundamento de Deus significa reconhecer que o outro divino não é exterior a Deus, mas pertence ao próprio devir de sua vida, de modo que o fundamento deve ser compreendido como um ser-em Deus no qual alteridade e negatividade adquirem sentido positivo.
O ser-em não designa uma relação espacial de interioridade, mas uma modalidade ontológica de existência vinculada a habitar, familiarizar-se e permanecer junto a algo, como mostra a interpretação heideggeriana de sua significação originária.
O ser-em constitui uma conquista existencial na qual o ser permanece junto a si mesmo precisamente ao abrir-se para uma diferença interna, revelando uma junção originária entre ser e não-ser.
O terceiro excluído pode receber sentido positivo quando deixa de significar apenas impossibilidade lógica e passa a indicar aquilo que, no interior da oposição, torna possível a diferenciação e a exteriorização.
A causalidade fundada na separação entre termos pressupõe uma junção mais originária, pois somente aquilo que inicialmente pertence junto pode posteriormente incluir-se ou excluir-se.
O fundamento em Deus consiste numa junção eterna entre ser e não-ser que nunca se encerra definitivamente, pois o próprio devir divino depende de conservar aberta a possibilidade de separar-se e reunir-se novamente.
O não presente no fundamento corresponde à pura possibilidade do devir divino e, por isso, pode ser designado como eterna liberdade, ultradivindade, ser imemorial ou fundamento, expressões distintas para uma mesma dimensão anterior às determinações efetivas de Deus.
A eterna liberdade situa-se além da oposição simples entre Deus e não-Deus, pois o absoluto só é absoluto enquanto desprendimento que conserva em si a diferença e aprofunda continuamente sua própria indeterminação.
Um conceito positivo do fundamento precisa compreender o indefinível não como aquilo que jamais pode assumir determinação, mas como aquilo que permanece capaz de definir-se sem esgotar sua própria infinitude.
A positividade do não somente pode ser pensada no horizonte da possibilidade, onde liberdade significa poder assumir uma determinação e também poder ultrapassá-la sem permanecer definitivamente preso a ela.
O infinito não é ausência de forma, mas capacidade de assumir configurações sem esgotar-se em nenhuma delas, revelando sua inapreensibilidade justamente ao superar cada forma que assume.
A liberdade absoluta exige a possibilidade da não-liberdade, pois uma liberdade incapaz de vincular-se a qualquer limite estaria ela mesma limitada por essa incapacidade e deixaria de ser verdadeiramente absoluta.
Ao definir o fundamento como possibilidade ou poder-ser,
Schelling substitui a compreensão causal e lógica do fundamento por uma compreensão ontológica, segundo a qual Deus somente pode ser começo do mundo porque é simultaneamente começo de si mesmo.
O começo do mundo pertence ao próprio devir de Deus e manifesta sua eternidade como um começar incessante, no qual cada realização preserva em si a possibilidade originária de um novo começo.
O começo divino é interior ao próprio ser de Deus e, por isso, eterno: Deus não começa uma única vez, mas encontra-se continuamente no ato originário de colocar-se como ser.
O fundamento como força de ser significa que o mundo não é um efeito exterior produzido por Deus, mas o âmbito em que a possibilidade divina se realiza e deixa Deus ser Deus.
A diferença decisiva entre causalidade e possibilidade está em que a primeira produz algo distinto de si, enquanto a segunda realiza o próprio ser.
Nesse sentido, o fundamento possui a estrutura de um deixar-ser, pela qual algo pode realizar plenamente aquilo que é.
O fundamento entendido como deixar-ser recupera também o sentido existencial da noção grega de causa e orienta a interpretação schellinguiana das quatro causas aristotélicas a partir da possibilidade como condição de realização do ser.