8 Dialética das potências

GABRIEL, Markus. Der Mensch im Mythos: Untersuchungen über Ontotheologie, Anthropologie und Selbstbewußtseinsgeschichte in Schellings “Philosophie der Mythologie”. Berlin; New York: Walter de Gruyter, 2006. (Quellen und Studien zur Philosophie, Band 71).

I. A unidade de ser e pensamento na «Introdução Filosófica à Filosofia da Mitologia»

§8. A dialética das potências como autossuperação do pensamento na intuição do ser absoluto

1. Até aqui se mostrou, primeiro, que a razão tem um conteúdo para si, o ente como complexão de três momentos, cuja sucessão noética é regulada, em segundo lugar, pelo princípio de contradição.

2. Seu movimento que se eleva ao princípio é chamado por Schelling de indução, no sentido de uma condução do puro pensamento ao absoluto, ou de método dialético, para o que ele invoca uma passagem central da alegoria da linha de Platão na República, que traduz do seguinte modo: aprende agora o que chamo a outra seção do inteligível, aquela que a própria razão toca, formando-se por força da faculdade dialética suposições que não são princípios, mas verdadeiramente meras suposições, como acessos e aproximações, para por meio delas ir até o que não é mais suposição, até o início de tudo, princípio do todo, e, apreendendo este, e novamente se ligando ao que a este se liga, descer até o fim, sem se servir de modo algum de algo sensível, mas partindo apenas dos conceitos puros, avançando através dos conceitos, terminando em conceitos.

3. Para sua própria dialética são centrais sobretudo dois conceitos platônicos fundamentais da dialética: primeiro o anhypotheton, o sem pressuposto ou incondicionado, que a própria razão toca; depois o conceito das hypothéseis a serem suprassumidas no desempenho da dialética, nas quais ele vê os elementos absolutamente simples de todo ser e de todo conhecimento, sujeito, objeto e sujeito-objeto, as três potências.

4. As categorias aristotélicas mostram que as simples conexões da predicação não podem elas mesmas ser verdadeiras nem falsas, como homem, branco, corre, vence, de modo que os elementos simples da predicação não podem por sua vez ser acessíveis apenas na predicação, mas devem poder ser apreendidos previamente por uma faculdade pré-predicativa, o que leva à famosa distinção entre pensamento noético e dianoético em Aristóteles e já em Platão.

5. Por exemplo, vejo algo a certa distância e dele afirmo que é um homem, proferindo assim o juízo de que este X ali é um homem.

6. A tentativa do puro pensamento de estabelecer as pressuposições que devem estar satisfeitas para que possam existir relações determinadas entre entes mostra que o milieu proposicional do algo como algo só pode se abrir quando o que pensamos e fazemos se apresenta como resultado de um movimento dialético.

7. Como se efetua, porém, a suprassunção das pressuposições em seu telos, que se revelará ao mesmo tempo como seu fundamento?

8. Para que a possibilidade do todo do ente se torne real, é necessária uma dinâmica que ela não pode extrair de si mesma, pois a possibilidade já está movida, como mostra sua reconstrução, que Schelling designa como experiência do pensamento.

9. Enquanto as potências distendem o conjunto de todos os conteúdos quidditativos, isto é, a omnitudo realitatis, que representa uma multidão de predicados que devem sempre valer para mais de uma entidade, o ente mesmo ou o ser-o-ente não pode ele mesmo ser nenhum quê, mas deve, como efetividade que ultrapassa todo pensamento, ir além da ideia, isto é, da ousia como resumo da determinidade.

10. Na dissertação sobre a fonte das verdades eternas, Schelling cita tanto Platão quanto Aristóteles como precursores de sua própria doutrina da primordialidade do ser no tecido dinâmico da unidade de ser e pensamento.

11. Já o Schelling do escrito sobre a liberdade vê seu projeto filosófico essencialmente como ampliação do conceito transcendental de liberdade para um conceito de dimensão ontológica.

12. Por isso Schelling repete incansavelmente sua doutrina das potências e em sempre novas formulações, para tornar plausível seu pensamento de que o juízo não pode ter a última palavra na questão fundamental da metafísica, por que há em geral algo e não antes nada.