5.2 Fundamento do saber

FRANK, Manfred. Der unendliche Mangel an Sein: Schellings Hegelkritik und die Anfänge der Marxschen Dialektik. München: W. Fink Verlag, 1992.

A questão do fundamento do saber — o ordo inversus da reflexão

1. Deve-se investigar primeiramente se saber e conhecimento absoluto não colidem e se Schelling consegue esclarecer satisfatoriamente a relação entre ambos.

2. O saber, a reflexão, assim mostrara Schelling, é, na medida em que lhe pode ser atribuída realidade, a autorrevelação da posição absolutamente indivisível e idêntica, mas a reflexão, como eco dessa unidade, arrasta para dentro da identidade um antagonismo ao menos latente, uma alteridade potencial, que sem isso seria apenas como puro uno.

3. Se alguma vez deveria ocorrer uma separação das potências no campo do real, essa diferenciação era necessária no conceito do absoluto, mas dificuldades surgem prontamente quando Schelling determina a autorrevelação da essência em si mesma ao mesmo tempo como o positivo, a existência, o ser, e como o autoconhecimento imediato daquela igualdade eterna ou intuição intelectual.

4. Uma série de concessões escondidas em orações subordinadas mostra que Schelling estava consciente do problema, e a elas é comum reconhecer realmente como reflexão a reflexão-do-absoluto-em-si-mesmo duplicada em essência e forma e ainda distingui-la do positivo, com o que, sem que se diga expressamente, fica suspensa a autonomia da intuição intelectual, que recai ela mesma no status de mera manifestação da ideia.

5. De fato, nenhuma afirmação pode fazer desaparecer a reflexividade da formulação que permite à essência ganhar conhecimento de si somente na posição de sua forma, pois o fundamento permanece sempre separado de seu resultado, e a pura identidade do sujeito só se medeia consigo mesma através de seu outro.

6. A solução oferecida pelas famosas preleções de Schelling do inverno de Erlangen de 1821 não é correção, mas demonstração da pensabilidade daquela exigência abstratamente formulada em 1802 nas Apresentações ulteriores, de que o eu cessasse de se comportar como sujeito contra seu próprio fundamento e assim o alienasse como objeto.

7. Naturalmente, o esclarecimento de Schelling sobre a função da autoevidência imediata seria mal compreendido se fosse descrito como prestação de contas sobre a cognoscibilidade da identidade absoluta, pois ela permanece também aqui pressuposição, como cujo mero esquema originário o saber pode valer e que é reivindicada justamente pela tese de que sujeito absoluto e consciência estão na relação do rapport, da correlação, da reflexão, portanto sob a lei da unidade originária.

A questão do fundamento do ser

8. Simultaneamente à justificação transcendental de uma reivindicação do inapreensível, e nisso se insistiu adiante, esclareceu-se o sentido de ser obscurecido por equívocos.

9. Nos escritos da filosofia da identidade podia-se demonstrar uma preferência inequívoca pela atribuição do conceito de ser ao de essência, pois se dizia ser positivo, realidade absoluta, etc., enquanto ao conhecimento ou à forma só se concedia realidade na indiferença com aquela.

10. Uma inversão mais completa do significado de essência em relação ao da filosofia da identidade é impensável, pois de um golpe se revela como exatamente aquele néant o que ali fora enfaticamente trazido à baila como o positivo, o qual sob títulos variáveis, como reflexão, forma ou existência abstrata, fora dele nitidamente distinguido.