3 Idades do mundo

SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Les âges du monde: fragments dans les premières versions de 1811 et 1813. Tr. et postface Pascal David. Paris: Presses Univ. de France, 1992.

1. Questiona-se por que a genealogia do tempo exposta por Schelling se apresenta sob o título de Weltalter, Idades do Mundo, tendo-se avançado, quanto às fontes, o nome de Bengel, cujas obras figuravam na biblioteca do pai de Schelling, sendo porém a expressão corrente na época, encontrando-se em Fichte e Schiller, em Goethe e Fr. Schlegel, e ainda, no século XX, sob a pena de Heidegger sem referência particular a Schelling.

2. Fazendo, porém, a própria obra raramente alusão a seu título, que seu léxico parece quase ignorar, devendo Schelling ainda assim ter apreço por ele, uma vez que um curso de Munique é inaugurado em 1827 sob o título “Sistema dos Weltalter”, tendo sem dúvida Schelling querido dar à filosofia um monumento comparável ao que Dante deu à poesia, ou antes rivalizar com A Divina Comédia, poema que, segundo Schelling, abriu e mostrou o caminho à poesia moderna, e de cuja estrutura tripartite sublinha a importância, tal como no plano inicialmente previsto para as Idades do Mundo — rivalizar com A Divina Comédia a fim de dar a seu povo essa “recíproca fusão, à qual se inclina toda a época moderna” entre filosofia e poesia, parecendo esse ao menos o impulso que sustentou o projeto dos Weltalter, naquilo que permanecerá o sonho do “grandioso poema heroico que o próprio tempo dita”.

3. Trazendo, porém, um rascunho primitivo importante precisão sobre o sentido da expressão que dá título à obra: tomando ali Schelling esses três conceitos não, como em geral, como simples delimitações do tempo, mas como três tempos efetivamente diferentes uns dos outros, aos quais também se permite chamar idades do mundo.

4. Entendendo e designando assim Schelling por “idades do mundo” expressamente três tempos “enquanto efetivamente diferentes uns dos outros” — als drey wirklich von einander verschiedene Zeiten —, tratando-se bem, com esses três tempos, do passado, do presente e do futuro, mas já não como simples delimitações do tempo.

5. Somente a oposição a um passado torna assim possível um verdadeiro presente, isto é, um presente efetivamente diferenciado, cindido do passado: da oposição — Ent-gegen-setzung — ao passado nasce o presente — die Gegen-wart, estando-se aqui longe da concepção habitual do passado, do presente e do porvir como simples delimitações do tempo, concepção que se caracteriza pelo fato de nela nada ser, em sentido próprio, concebido.

6. Encontrando-se num projeto de introdução ao livro II uma passagem que não deixa de evocar a página famosa em que Hegel apresenta o botão como “refutado” pela flor, e o fruto como a “verdade” desta: escrevendo Schelling que o vivente, a planta, “se decide” (entscheidet sich) ou se desenvolve, sendo somente em virtude de tal Ent-scheidung (de-cisão) que nascem eternamente tempos wirklich ver-schieden, “efetivamente diferentes”, nascendo eternamente os tempos dessa crise no seio do próprio tempo.

7. Estando novamente desabrochados, em cada rosa que desabrochara naquela manhã seu manto de púrpura ao sol, passado, presente e futuro, acrescentando porém Schelling imediatamente que, se a planta, para desenvolver-se, “se decide” entre manhã e entardecer, isto é, cinde passado, presente e futuro, só eleva sua parte mais nobre ao ar e à luz na medida em que ao mesmo tempo enterra suas raízes nas profundezas, dizendo no mesmo sentido o belo diálogo intitulado Clara, provavelmente dos anos 1810-1811 e por isso talvez contemporâneo da primeira versão das Idades do Mundo, que a árvore que extrai da terra força, vida e seiva tem o direito de esperar erguer ao céu, cheio de flores, seu cume.

8. Residindo talvez aí a diferença essencial entre Schelling e Hegel na compreensão do processo próprio ao vivente, se é verdade que o próprio do pensamento de Schelling é experimentar uma tensão antagônica e como que uma antipatia originária ali onde Hegel só vê evolução, sendo o que Hegel interpreta superficialmente como Keim (germe), cujo próprio é abrir-se por si mesmo à existência, mais radicalmente Grund, fundo obscuro, cuja relação com a existência pode antes comparar-se à da pesantez com a luz, não sendo o próprio do fundo abrir-se como um germe, mas retirar-se sempre mais asperamente em si mesmo.

9. Reclamando-se Schelling, porém, precisamente desse cristianismo pouco ortodoxo — não o cristianismo tal como apareceu historicamente num dado momento, mas tal como é as old as creation — para pensar o engendramento eterno do Filho em sua resistência exercida contra a força do Pai: “se não houvesse resistência na força do Pai… tampouco haveria tempo, mas apenas eternidade absoluta”.

10. Aparecendo esse antagonismo, o do Sim e do Não quando reduzido à sua expressão mais simples (assim formulado em Boehme), nas Idades do Mundo como oposição da força de expansão e da força de contração, oposição da qual Balzac deu o romance com A Pele de Onagro, pertencendo à essência da força, quam Germani vocant Kraft, já dizia Leibniz, retomar-se e contrair-se, “recuperar-se”.

11. Vendo-se assim que os tempos que nos são familiares pertencem, na escala do tempo das idades do mundo, a um presente no qual (relativamente) nada há de novo sob o sol, não formando os três senão um elo do “grande tempo”, do que Schelling encontrará confirmação, ao final da XIV Lição da Filosofia da Revelação, no fato de a palavra grega αἰών designar tanto um tempo quanto o próprio mundo.

12. Vendo-se, por outro lado, que cada um dos “tempos humanos” corresponde a uma disposição diferente, respectivamente a nostalgia, a alegria e o amor, tendo cada uma dessas disposições estrutura temporal que lhe é própria, correspondendo a cada qual, por conseguinte, uma temporalidade diferente, sendo essas experiências do tempo, subjetivas na medida em que são humanas, e objetivas na medida em que nos põem em presença do tempo e de sua realidade, não sendo exclusivas de outras experiências da temporalidade, como a decisão, precisando todas elas juntas uma temporalidade humana que pode servir de fio de Ariadne.