SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Les âges du monde: fragments dans les premières versions de 1811 et 1813. Tr. et postface Pascal David. Paris: Presses Univ. de France, 1992.
O sistema dos tempos e a questão do sistema
1. Propõem as Idades do Mundo desdobrar, ou antes deixar desdobrar-se diante de nossos olhos, um “sistema dos tempos”, questionando-se por que os tempos devem desdobrar-se num sistema, o que entende Schelling por “sistema” em 1811, e se seria ainda aquele “sistema da liberdade” evocado em 1795 (1796) pela VII das Cartas sobre o dogmatismo e o criticismo.
2. Consideram-se na versão de 1811 diversas definições possíveis de sistema, como se a questão do tempo levasse a repropor a questão do sistema: “conjunto de proposições enunciando todas um ser fixo e estacionário”, ou “conjunto de proposições coerentes das quais cada uma tem também uma verdade isolada e em si mesma”, sendo, na primeira hipótese, a “história natural” — cujo título de história é usurpado — o modelo de todos os sistemas, e, na segunda, talvez a geometria o único e exclusivo sistema, não podendo porém nem a história natural nem a geometria pretender, segundo Schelling, ao título de sistema, sendo justamente por ser demonstrada ordine geometrico que a Ética de Espinosa não é um sistema.
3. Lembra-se, porém, que a questão do sistema, ao ser abordada por Schelling na versão de 1811 das Idades do Mundo, já possuía todo um passado em seu próprio itinerário, começando as Conferências de Stuttgart, contemporâneas da preparação das Idades do Mundo em 1810 mas mais exotéricas dadas as circunstâncias de sua redação, por abordar a questão do sistema, perguntando em que medida um sistema é em geral possível, e respondendo que já havia um sistema muito antes de o ser humano cogitar fazer um — o sistema do mundo —, sendo encontrá-lo a verdadeira tarefa, não podendo o verdadeiro sistema ser inventado (erfunden) mas apenas encontrado (gefunden) como sistema já subsistente em si, a saber no entendimento divino.
4. Permite a continuação da abertura das Conferências de Stuttgart compreender por que as Idades do Mundo se apresentam de bom grado como “obra de um autor desconhecido”: não sendo a maioria dos sistemas filosóficos senão obra de seus autores — obra de melhor ou pior fatura — quase semelhante a nossos romances históricos, como o leibnizianismo, sendo obra de um autor desconhecido não por modéstia de autor, mas por zelo em satisfazer rigorosamente à exigência do sistema, cuja própria ideia é incompatível com toda assinatura e chega a interditar todo “eu sei”, pois dizer “eu sei” é ainda não saber o que é o saber, rebaixando a universalidade do saber à particularidade de um Eu.
5. Farão as Idades do Mundo justiça ao “autor do sistema da harmonia preestabelecida”, ainda que a versão de 1811 vincule seu projeto mais explicitamente a Espinosa que a Leibniz, sendo de fato já desde o período de Leipzig (1796-1798) que a importância de Leibniz parece ter suplantado a de Espinosa aos olhos de Schelling, dizendo ele em 1797 que “chegou o tempo de compreender Leibniz”, tendo assim Schelling retornado de Espinosa a Leibniz, que fora seu iniciador em filosofia.
6. Primeiro, o contexto polêmico da recepção da filosofia de Espinosa, ligado à “querela do panteísmo” desencadeada em 1795 por Jacobi em suas Cartas ao Sr. Moses Mendelssohn sobre a doutrina de Espinosa, e, por consequência, o caráter polêmico da simples menção do nome de Espinosa, que aqui vale como elogio.
7. Segundo, a interpretação insólita que, já desde a VIII das Cartas sobre o dogmatismo e o criticismo, Schelling dá de Espinosa, situando-o já não na tradição do ateísmo — “autor sutil mas ímpio”, dizia Leibniz — mas numa tradição mística dos estados passivos, não sendo Espinosa, no trecho citado da versão de 1811, louvado pelo que demonstrou, mas pelo que “sentiu” (gefühlt).
8. Terceiro, enfim e sobretudo, o fato de que o “tempo originário” (Urzeit) do qual Espinosa teve o sentimento é aqui retrabalhado por dentro em termos mais leibnizianos que espinosistas, de “forças” — força de expansão e força de contração.
9. Ao propor-se Schelling elaborar um “sistema dos tempos”, deve-se entender por “sistema” a conexão orgânica do todo vivo, não equivalendo porém esse “sistema dos tempos” a organizar sistematicamente um objeto, por certo de envergadura — ein grosser Gegenstand, diz Schelling — mas que nada teria em si mesmo de orgânico, sendo antes o próprio tempo, em si mesmo, orgânico — ist die Zeit… organisch —, sendo precisamente por isso que o sistema dos tempos é encontrado e não inventado, vendo Schelling nesse caráter orgânico reconhecido ao tempo a profunda originalidade, isto é, o poder de apagamento diante da própria coisa, de sua concepção e doutrina do tempo, e a singularidade do projeto das Idades do Mundo, coexistindo os frutos dos diferentes tempos num só e mesmo tempo, reunindo-se em posição concêntrica em torno de um mesmo centro como as folhas e os órgãos de uma só e mesma flor.
10. Distingue-se assim a concepção do tempo exposta pelas Idades do Mundo tanto da “contagem humana habitual do tempo” quanto da doutrina kantiana do tempo como “simples forma de nossas representações”, devendo por isso a Estética transcendental ser relida à luz da ideia de organismo desenvolvida na terceira Crítica, nada sendo aliás mais conforme ao modo como Schelling lê as três Críticas, podendo ele dizer, é verdade que bem mais tarde, da Crítica da faculdade de julgar ser ela “a obra mais profunda de Kant, aquela que sem dúvida teria dado outra orientação à sua filosofia se, em vez de terminar por ela, tivesse podido começar por ela”.
11. Podendo assim haver sistema dos tempos porque o próprio tempo é um todo orgânico, devendo necessariamente, na medida em que o tempo é um todo orgânico, uma filosofia do tempo apresentar-se sob a forma de um sistema, conexão orgânica do todo vivo, sendo essa estrutura orgânica do tempo o que se passa agora a interrogar, a fim de apreender o caráter próprio da doutrina do tempo exposta pelas Idades do Mundo, em contraste com o modo como os escritos anteriores de Schelling abordam a questão do tempo.