ROSSET, Clément. Le principe de cruauté. Paris: Éditions de Minuit, 1988.
Não há provavelmente pensamento sólido, nem obra sólida de qualquer gênero, fosse comédia ou ópera-bufa, senão no registro do impiedoso e do desespero, entendido não como disposição melancólica, muito pelo contrário, mas como disposição absolutamente refratária a tudo o que se assemelhe a esperança ou expectativa.
Tudo o que visa atenuar a crueldade da verdade e as asperezas do real tem por consequência inevitável desacreditar o mais genial dos empreendimentos e a mais estimável das causas, como atesta, por exemplo, o cinema de Charlie Chaplin.
Justa é a observação de Ernesto Sábato no romance Abaddón, o exterminador: deseja-se ser seco e nada embelezar, pois uma teoria deve ser impiedosa e se volta contra seu criador se este não se trata a si mesmo com crueldade.
A reflexão sobre essa questão levou a indagar se seria possível evidenciar princípios que regem essa “ética da crueldade” (éthique de la cruauté), cujo respeito ou desrespeito qualifica ou desqualifica toda obra filosófica; tal ética pode resumir-se em dois princípios simples, o “princípio de realidade suficiente” (principe de réalité suffisante) e o “princípio de incerteza” (principe d'incertitude), cuja exposição constitui o objeto deste livro.
Figuram em apêndice três textos anteriores à redação deste estudo: o primeiro relativo ao primeiro capítulo, o segundo e o terceiro ao segundo capítulo.