La force majeure. Paris: Éditions de Minuit, 1983.
Pode-se dizer de todo grande autor, por analogia com a fórmula irônica aplicada aos Estados Unidos, que ele passa diretamente do desconhecimento público para uma celebridade deformadora, sem conhecer o estágio intermediário em que seria simultaneamente reconhecido e não traído.
A notoriedade implica necessariamente entrada no domínio público e exposição às deformações, injúrias e apropriações interpretativas que a acompanham.
Entre obscuridade e fama não haveria, portanto, espaço real para o ideal de uma “boa reputação” que preservasse intacta a obra.
Blanchot reconhece que a posteridade gloriosa pode converter-se numa espécie de inferno crítico no qual os intérpretes submetem os autores mortos a leituras invasivas.
Suas próprias páginas sobre Nietzsche demonstram certa lucidez quanto a esse risco, ainda que permaneçam orientadas por preocupações hegelianas estranhas ao pensamento nietzschiano.
Heidegger também denuncia com pertinência os intérpretes que pretendem saber mais sobre Nietzsche do que o próprio Nietzsche, embora não reconheça com a mesma clareza que sua própria interpretação possa incorrer no mesmo problema.
No caso de Nietzsche, podem distinguir-se duas grandes formas de traição póstuma, correspondentes a duas maneiras históricas de ignorar seu pensamento.
A primeira consiste em admitir que Nietzsche efetivamente pensou e escreveu alguma coisa, mas considerar esse conteúdo falso, incoerente, imoral, perigoso ou filosoficamente deficiente.
A segunda, mais recente, consiste em afirmar que Nietzsche propriamente não pensou nem escreveu coisa alguma determinada e que justamente nessa ausência de conteúdo residiria sua força filosófica.
Essa segunda leitura transforma Nietzsche em grande filósofo precisamente por não ser filósofo no sentido tradicional, repetindo paradoxalmente a lógica satirizada por Marcel Aymé na figura de alguém considerado pintor justamente por não pintar.
Foucault pode apresentar Nietzsche como grande intérprete porque não interpretaria nada, enquanto Klossowski pode valorizá-lo como grande pensador justamente por fracassar em pensar algo determinado.
Leituras de Bataille, Blanchot e Derrida tendem igualmente a assimilar Nietzsche às próprias preocupações teóricas de cada comentador, respectivamente a uma teologia do erotismo, ao destino moderno do hegelianismo e à interminável esquiva da verdade.
Essas apropriações tornam secundária a originalidade própria de Nietzsche e submetem seu pensamento a problemas que lhe são estranhos.
Mais ainda, tais preocupações podem cair sob a própria crítica nietzschiana, apresentando como pensamento de Nietzsche posições que, do ponto de vista dele, pertenceriam justamente àquilo que deveria ser superado.
A maneira moderna de ignorar Nietzsche, celebrando-o por não pensar ou por fazê-lo no interior de uma suposta modernidade pós-hegeliana, continua sendo uma forma de rejeição semelhante àquela dos antigos críticos que lhe reconheciam uma doutrina positiva, mas viciosa.
A persistência dessa recusa quase um século depois da morte de Nietzsche pode ser atribuída à dificuldade geral de aceitar um pensamento integralmente afirmativo.
Discursos fortemente afirmativos como os de Nietzsche, Lucrécio e Spinoza tendem historicamente a parecer inadmissíveis.
Essa resistência não se limitaria ao público amplo, mas seria particularmente forte entre os intelectuais.
A relação frequente entre pensamento e sofrimento, expressa por Klossowski como coincidência entre pensamento e dor, cria uma disposição espiritual incompatível com o estilo nietzschiano.
Uma consciência habituada a considerar a profundidade inseparável da aflição pode suportar inúmeras provações, exceto justamente a prova da despreocupação afirmativa.
Embora a modernidade filosófica e literária francesa invoque constantemente Nietzsche, quase nada lhe seria mais estranho do que o próprio pensamento nietzschiano.
O que há de propriamente moderno nessa recepção não está em Nietzsche, mas na maneira atual de transformá-lo em outra coisa que não ele mesmo.
A distância entre Nietzsche e seus comentadores recentes contrasta com a afinidade entre esses comentadores e uma sensibilidade moderna segundo a qual a grandeza de um pensador pode decorrer precisamente de ele não possuir um pensamento determinado.
A fórmula satírica de Marcel Aymé segundo a qual alguém seria tanto mais pintor quanto menos pintasse não exprime apenas um esnobismo passageiro, mas uma estrutura mais profunda da sensibilidade intelectual moderna.
De Bataille a Lacan, reaparece a tendência de pensar a presença como ausência, o objeto do desejo como aquilo que nunca coincide consigo mesmo e a realidade como algo sempre situado em outro lugar.
A afirmação de que a presença está perpetuamente ausente ou diferida, de que o objeto desejado deve ser procurado naquilo que ele não é e de que a realidade nunca está onde parece estar repete, em linguagem sofisticada, a mesma estrutura cômica da ideia de que alguém é pintor justamente porque não pinta.
Nietzsche só consegue então ser integrado à modernidade quando transformado em testemunha da alteridade e figura do vazio, em vez de ser considerado a partir do conteúdo afirmativo próprio de seu pensamento.