Pode-se indagar as razões do pavor diante do não necessário, que autoriza a renúncia da própria liberdade em proveito de uma ordem imposta: a recusa do gratuito é só um aspecto da recusa do real, um dos múltiplos mecanismos de defesa que entram em jogo quando o real é percebido como cruel.
Nem sempre se pode negar radicalmente o real, decidir que o que se percebe é falso e não existe: via da loucura e das neuroses graves, que não está aberta a todos (“não é louco quem quer”, divisa do Dr. Ey).
Tampouco se pode sempre aceitá-lo a título provisório, continuando a negá-lo em profundidade, decidindo que o que se percebe é verdadeiro mas não pode durar: via da “neurose do homem normal”, espécie de “neurose branca”, com duas variantes, a rosa e a cinza.
Variante rosa: tudo isso não durará, pois vai se arranjar, graças, por exemplo, a melhor organização das coisas e das pessoas, tarefa a que se dedica de repente; empenho suspeito, pois não há modo mais seguro de desacreditar a vida que vê-la cor-de-rosa, e quem trabalha pela melhoria da condição humana geralmente deixou há muito de querer bem a quem quer que seja.
Variante cinza: tudo isso não durará, pois vai piorar e desembocar necessariamente, cedo ou tarde, em alguma catástrofe final, no desaparecimento geral de todas as coisas; encontra-se alívio no pensamento de um fim do mundo iminente, que se anuncia aos vizinhos meio alegre, meio consternado.
Essas vias implicam ódio do real e divórcio definitivo dele, embora se continue a levá-lo em conta, ao contrário da loucura verdadeira; há porém maneira mais suave de pôr o real de lado: aceitá-lo sob condição, com a reserva de que apareça como portador de significação.
Não há aqui rejeição, mas disfarce e deslocamento, e o véu do sentido determina um espaço protetor entre o homem e o real; o sentido permite apresentar versão do real adoçada, aliviada de certos caracteres indesejáveis, como a gratuidade do infortúnio, e oferece corrimão de proteção aos que, sem destino assinalado, não saberiam aonde ir.
É isso que apavora de antemão os devotos, e com eles todos os homens enquanto suscetíveis de devoção, isto é, de medo: existir sem necessidade, agir sem caução, ir à aventura num mundo em que nada está previsto nem decidido, em que nada é necessário mas tudo é possível.
Essa realidade percebida em estado bruto é como um vinho forte demais, e para torná-la agradável de beber costuma-se cortá-la com a água do sentido; por isso o real não está ordinariamente aqui, mas um pouco mais longe, no horizonte, e a insignificância, que diz ao mesmo tempo sua plenitude e sua idiotia, é não percebida, mas remetida para mais longe e mais tarde: à vista sem dúvida, mas ainda não presente, sempre “por vir”.