Primeira, função prática, de afastamento: a imagem serve para recusar o real, afastá-lo, e é operatória nas situações de urgência, quando se enfrenta uma realidade que deve, sob pena de crise grave, ser imediatamente evacuada ou deslocada; a brutalidade do evento é amortecida pelo espetáculo de sua interpretação: há A, mas esse A não significa só A, significa mil outras coisas.
A história de Édipo, em Sófocles, ilustra esse mecanismo de relegação da coisa em seu reflexo: Édipo matou o pai e casou com a mãe, é parricida e incestuoso, é o que A diz, mas Édipo acrescenta que o que se lê em A é caricatura do que lhe aconteceu, significando, como se verá, não que a imagem deforme o real, mas que o real é caricatura de sua imagem, retorno de sentido que é a habitual denegação do real operada pela mediação do duplo.
Ao saber que um oráculo predissera que mataria o pai e casaria com a mãe, tomou todas as providências para evitar que se cumprisse, mas, por infeliz erro sobre a identidade real dos pais, tomou providências que coincidiam tragicamente, sem que ele soubesse, com as que tomaria quem se decidisse a matar o pai e violentar a mãe; conclui-se que, na realidade, matou o pai e casou com a mãe, enquanto Édipo busca em vão palavras e razões, desejoso de fazer aparecer diferença entre o destino predito e o que foi de fato o seu.
Há aqui um curioso tremor do real, uma espécie de ensaio fantasmático de dissolver o princípio de identidade, dissociar o evento real do que poderia ou deveria ter sido (seu duplo): o oráculo dizia que mataria o pai e casaria com a mãe, o evento diz que matou e casou; a realidade faz outra coisa que confundir-se consigo mesma?
O evento tal como se realizou parece dotado de significação perversa que contradiz a verdade anunciada pelo oráculo, pois Édipo cometeu parricídio e incesto, mas não sabia; o oráculo, porém, não dissera que devia saber, dissera só que mataria o pai e casaria com a mãe de qualquer modo, isto é, de qualquer modo de uma certa maneira, como diria Lowry, e é o que aconteceu: Édipo cumpriu seu destino como o Cônsul, ao mesmo tempo somehow e anyhow.
Era matar o pai e casar com a mãe de maneira qualquer, mas determinada, e Édipo sai-se muito bem: a maneira como cumpre a predição é a mais simples e direta, pois mal soube os termos do oráculo lança-se de corpo perdido às estradas, cruza o rei de Tebas, seu pai, que mata depressa, e entra em Tebas para casar logo com a viúva do rei, sua mãe, liquidando a tarefa da maneira mais elegante, como um problema de matemática resolvido em três linhas enquanto outros enchem quatro páginas de razões.
Subsiste o sentimento de que Édipo foi enganado pelo oráculo, de que o A que realizou não coincide com o A que lhe fora anunciado: entre o evento anunciado e o realizado surgiu o fantasma do Duplo, e admite-se o evento por ocorrer de qualquer modo, mas não por poder ocorrer de maneira qualquer (notadamente a que de fato ocorre): o anyhow é admitido, o somehow é riscado, graças ao duplo que faz cintilar no horizonte da coisa a infinidade de suas duplicações possíveis.
O que acontece a Édipo é “idiota”, como tudo o que acontece, entendendo o termo em todas as acepções: estúpido, sem razão, como a infinidade dos possíveis, mas também simples, único, como a totalidade do real; Macbeth, em Shakespeare, sofre infortúnio semelhante, pois a profecia se realiza, isto é, mostra-se-lhe um real que não pode deixar de coincidir consigo mesmo, toda possibilidade de duplo afastada (“a floresta de Birnam marcha sobre Dunsinane”), e ele tira a lição: “A vida é uma história contada por um idiota.”