O espírito do mundo mítico, em que Deus se torna um Deus vivo, tira sua força do fechamento, resultado da natureza acabada desse conceito de Deus. Sua fraqueza repousa também nesse fechamento e nesse gênero de acabamento, que nada produz, mas tem a natureza de um produto. Por ora importa insistir em sua força.
Até seu declínio nas religiões do Oriente Próximo e da Europa, o mítico dominou por toda parte como etapa da evolução: não significa uma forma inferior, mas superior às “religiões do espírito” do Oriente. Não é acaso que a Revelação, ao sair pelo mundo, tenha tomado o caminho do Ocidente e não o do Oriente: os “deuses da Grécia”, vivos, eram adversários mais dignos do Deus vivo que os fantasmas do Oriente asiático.
As divindades da China e da Índia são edifícios enormes arrancados aos blocos dos tempos ancestrais; como monolitos, irrompem ainda em nossa época nos cultos dos “primitivos”. O Céu da China é o conceito da potência divina elevado a ponto de englobar o mundo; sem se derramar sobre a essência divina para assumir a figura da vida divina, essa potência integrou o universo inteiro na esfera enorme de seu arbítrio dominante: o universo não é coisa outra, mas algo que ela contém em si, que a “habita”. Em parte alguma o sentido expressivo do pensamento da imanência se torna tão evidente quanto nessa divinização chinesa da abóbada celeste, fora da qual só há o nada.
Como o Deus chinês se esgota na passagem do nada à potência que engloba Tudo, assim o da Índia no caminho que vai do nada ao silêncio puro e perpassante da essência, da natureza divina. No círculo mudo do Brahma nunca penetrou o som da liberdade divina, e ele permanece morto, embora preencha toda vida e a aspire para si.
Vistas a partir das figuras vivas dos deuses do mito, essas divindades são regressões ao elementar; “deidade” (Gottheit) é a palavra de todos os que fogem, diante do rosto do Deus vivo, para as brumas da abstração. Uma vez iniciada, essa marcha regressiva não se detém antes de atingir quase seu limite extremo: o nada.