Faz-se aqui uma pausa para apreender o passo decisivo dado além do simples Sim e do simples Não. O movimento do Não ao Sim foi acolhido como natural, sem perguntar que palavra-origem, correspondente ao Sim e ao Não dos dois primeiros passos, guiava esse terceiro passo.
O Sim-origem (Ur-Ja) era a palavra da posição originária e, como tal, em cada palavra, o participante silencioso dos negócios que a palavra faz no todo da frase. O Não-origem (Ur-Nein) era eficaz na frase não enquanto essa palavra é asserção, mas enquanto é objeto de asserções, e por isso seu lugar mais próprio é junto ao sujeito.
Enquanto o Sim con-firma a palavra individual, isto é, assegura seu valor “duradouro” e permanente, independente da posição que ocupa na frase em relação às outras, o Não se refere justamente a essa posição. Como “não-de-outro-modo” ele loca-liza (localise) o lugar da palavra singular, que lhe permite im-por (im-poser) seu caráter próprio frente às demais: não um caráter “duradouro”, mas um que depende do conjunto da frase, dos “outros” elementos.
Tomem-se dois casos extremos: para o Sim, o nada-senão-asserção (die Nichts-als-Aussage), o adjetivo predicativo; para o Não, o nada-senão-objeto-de-asserção (der Nichts-als-Aussagegegenstand), o sujeito substantivo. A palavra “livre” tem sentido determinado, não ligado ao seu emprego em “o homem é criado livre, ele é livre” ou em “o homem não é criado para ser livre”: esse sentido imóvel é obra do Sim secreto. A palavra “homem” é algo totalmente distinto, ao se dizer que é cidadão de dois mundos, ao menos quando se o chama animal político; essa diferença, criada a cada vez pelos demais membros da frase postos diante desse sujeito único, é obra do Não secreto.
Um exemplo nada extremo: a palavra “até” significa sempre a conclusão de uma grandeza pensada em sucessão, mas em “até amanhã” remete a um lapso de tempo futuro, ao passo que em “até as estrelas” remete a uma distância espacial.
A aparência, facilmente despertada, de que o “Sim secreto” deveria preceder na realidade o “Não secreto”, e não só na sequência conceitual, de modo que o Não seria menos originário, desaparece quando se considera que essas significações “duradouras” e fixas só são extraídas de seus encadeamentos na frase e não são adquiridas de antemão no caso particular: todo novo encadeamento da frase em que entra uma palavra muda seu caráter “duradouro”, e a língua se renova sem cessar no discurso vivo.