ROSA, Hartmut. Resonanz: Eine Soziologie der Weltbeziehung. Berlin: Suhrkamp Verlag, 2016. (Tradução inglesa: Resonance: A Sociology of Our Relationship to the World. Cambridge: Polity Press, 2019).
Introdução: esferas de ressonância, reconhecimento e os eixos de nossa relação com o mundo
1. A ressonância é um modo específico de relação com o mundo, entendido como abrangendo outras pessoas, artefatos, objetos naturais e totalidades percebidas, como a natureza, o universo, a história, Deus, a vida e até o próprio corpo e as próprias emoções, de modo que as relações ressonantes variam conforme o segmento de mundo envolvido e podem ser distinguidas em horizontais, que incluem amizades e relações familiares, amorosas e políticas, diagonais, referentes ao mundo das coisas, e verticais, referentes à vida, à existência ou ao mundo como totalidade situada acima ou além do indivíduo, na qual o próprio mundo conserva sua voz.
2. Toda sociedade ou formação social define-se pelo modo como forma e preestrutura essas três maneiras de relacionar-se com o mundo, estabelecendo culturas, esferas ou espaços específicos de ressonância nos quais seus membros podem descobrir e construir eixos de ressonância mais ou menos individuais, e as diversas esferas de ressonância próprias da modernidade podem ser examinadas, de modo exploratório e necessariamente incompleto, quanto a seu potencial de produzir ressonância ou alienação em cada um desses aspectos.
3. Nos eixos horizontais de ressonância da família, da amizade e da política, os fenômenos ressonantes estão estreitamente ligados aos processos de reconhecimento, a ponto de se poder dizer que o reconhecimento é a forma da ressonância nas relações sociais, visão defendida por Axel Honneth em seus estudos sobre a teoria do reconhecimento, que ele procura estender ao mundo das coisas, argumentando que as atitudes reificantes repousam no esquecimento ou na repressão de que o reconhecimento social precede toda cognição, inclusive da natureza e dos objetos.
4. A compreensão das relações com a arte, a natureza e as coisas, e das necessidades, desejos e experiências a elas ligados, em termos de uma teoria do reconhecimento é insuficiente, pois, ao decidir passar férias nas montanhas, no mar ou numa região histórica de castelos, o reconhecimento social obtido pela distinção desempenha papel limitado diante das aspirações a experiências ressonantes da natureza e da história, o mesmo valendo para a música, a literatura e as práticas religiosas ou espirituais, de modo que a suposição de que os seres humanos buscam apenas reconhecimento e evitam o desprezo é unilateral e a teoria da ressonância supera a do reconhecimento em potencial explicativo, por abranger também essas necessidades e a alienação experimentada fora da esfera social.
5. Mesmo nas relações sociais, ressonância e reconhecimento não coincidem, pois o reconhecimento é relacional, concedido ou retirado competitivamente, um bem em certa medida escasso pelo qual se pode lutar, já que reconhecer o vencedor no amor ou na competição implica quase necessariamente desconsiderar o perdedor, razão pela qual a obra de Honneth se intitula com justiça Luta por reconhecimento, ao passo que não poderia haver uma luta por ressonância, que não é distribuída competitivamente, enquanto o reconhecimento pode ser exigido e implementado institucionalmente, inclusive, no caso do reconhecimento jurídico, como relação muda e reificada com o mundo.
6. A ressonância é sempre um acontecimento dinâmico, expressão de uma relação responsiva vibrante que se vê talvez melhor quando os olhos de alguém se iluminam, e, deixando de lado a questão debatida desde Hegel sobre se o reconhecimento pode ser conferido unilateralmente, o reconhecimento e o desprezo aplicam-se a indivíduos, enquanto a ressonância é sempre algo que acontece entre dois ou mais sujeitos, de modo que o amor como experiência ressonante se refere não ao fato de amar ou ser amado, mas aos momentos de encontro mútuo, transformador, fluido e comovente, e a ressonância, ao contrário do reconhecimento, não exige um terceiro termo mediador, como normas e valores compartilhados, à luz do qual os sujeitos possam reconhecer-se.
7. A diferença entre reconhecimento e ressonância vê-se também na amizade, pois os amigos importam não apenas, e talvez nem principalmente, por nos reconhecerem e valorizarem, mas por poderem responder-nos e afetar-nos e por podermos alcançá-los, sendo ao mesmo tempo primeiro e segundo diapasão, e nos grupos, em que o momento de entendimento num debate intenso, quase hipostasiado por Jürgen Habermas, se compreende melhor como processo coletivo de transformação alcançado pela capacidade mútua dos participantes de se alcançarem e se modificarem, quando a sala de repente começa a crepitar e a troca de argumentos se converte num acontecimento coletivo em que todos se sentem interpelados, saindo transformados de um modo muito diferente da experiência de impor-se, defender interesses ou convencer.
8. A diferença é ainda mais clara na efervescência coletiva descrita por Émile Durkheim, os momentos de arrebatamento coletivo num estádio de futebol ou num show de rock, que não são reconhecimento coletivo, mas acontecimentos ressonantes nos quais a atenção e as emoções dos participantes convergem e se reforçam mutuamente, como nas transmissões públicas de jogos da Copa do Mundo ou do Campeonato Europeu, oásis sociais de ressonância que, num mundo fragmentado e individualizado, captam e dirigem a atenção de milhares de pessoas e ampliam a efervescência pela consciência de estar ligado a pessoas do mundo inteiro que presenciam o mesmo evento, experiência que não depende da participação da própria seleção, embora a luta por reconhecimento de identidades nacionais tenha seu papel, de modo que reconhecimento e ressonância designam domínios fenomênicos adjacentes, mas não coextensivos.
9. Se a ressonância é o critério central de uma vida bem-sucedida e o reconhecimento um requisito essencial da formação bem-sucedida da identidade, como sustentam com razão Axel Honneth, Charles Taylor e outros, a teoria da ressonância deve incorporar as pretensões da teoria do reconhecimento, o que é possível porque as experiências de reconhecimento são decisivas para desenvolver as expectativas de autoeficácia sem as quais as relações ressonantes são impossíveis ou unilaterais, enquanto o desprezo social gera experiências constitutivas de alienação, sendo o escárnio, a zombaria e a desvalorização formas das mais dolorosas de repulsão e a invisibilidade diante de um mundo social indiferente capaz de consequências graves, como na morte social, numa relação alienada, muda e reificada de ausência de relação.
10. Isso fere sobretudo quando as expectativas de ressonância já foram de algum modo ativadas, pois o olhar de alguém contém sempre um convite tácito à ressonância, e não respondê-lo implica uma repulsão latente, e, como essas expectativas também podem ser geradas social e discursivamente e até ativar o sistema neural num modo ressonante de abertura empática, sua frustração produz uma experiência de alienação extrema, como quando aqueles com quem se acreditava estar ligado por eixos de ressonância respondem inesperadamente com frieza, indiferença ou hostilidade.
11. O romance psicológico Anton Reiser, de Karl Philipp Moritz, do fim do século XVIII, oferece um exemplo literário instrutivo dessa conexão entre desprezo e alienação, pois o protagonista, já numa posição precária no mundo, visita em Hannover um comerciante que costumava olhar para outra pessoa que não aquela com quem falava, e, quando este, olhando para Reiser, convida outro presente para jantar e Reiser recusa educadamente o convite que julgava dirigido a si, ouve secamente que não era com ele, frase que o faz desejar afundar na terra, o persegue por toda parte e faz sua voz tremer sempre que precisa falar com superiores, sem que seu orgulho jamais a supere completamente.
12. Reiser interpreta a frase como censura por ter acreditado que alguém o convidasse para jantar e, nesse instante, parece a si mesmo tão insignificante, rejeitado e nulo que o rosto, as mãos e todo o seu ser se lhe tornam um fardo, permanecendo ali na mais tola das figuras e sentindo essa tolice com mais intensidade do que qualquer outro.
13. Se Reiser tivesse alguém verdadeiramente interessado em seu destino, tais encontros talvez não o ferissem tanto, mas seu destino estava ligado ao interesse dos outros por fios tão frágeis que a aparente ruptura de um deles o fazia temer a ruptura de todos, vendo-se então como um ser que já não despertava o interesse de ninguém e a quem nenhuma consideração era dada, pois a vergonha é uma emoção tão forte quanto qualquer outra, e surpreende que suas consequências não sejam por vezes fatais.
14. Anton experimenta claramente desprezo e alienação, embora seja difícil dizer em que consiste exatamente o desprezo, e vive a ativação, ao sentir-se interpelado, e a subsequente frustração de sua expectativa de ressonância como uma alienação com efeito existencial sobre a relação consigo e com o mundo, pois o próprio corpo se lhe torna estranho e pesado, sente-se tolo e rejeitado, e o narrador interpreta esse estado paradigmático de lançamento no mundo como insuficiência dos fios que o ligam ao mundo e aos outros, de modo que a frustração o leva a temer o emudecimento de todos os seus eixos de ressonância, sobretudo porque a interação fracassada mina suas já frágeis expectativas de autoeficácia, fazendo-o temer a invisibilidade e a morte social.
15. A manifestação mais grave do desprezo ocorre nas condições sociais que desvalorizam a própria experiência de ressonância, como nas sociedades homofóbicas, em que a ressonância homoerótica é desprezada e os homossexuais são forçados a suprimir toda experiência ressonante, inclusive em relação ao próprio corpo, aprendendo a temer e odiar aquilo mesmo que lhes fala ou fala neles, numa forma paradigmática de autoalienação destruidora da ressonância.
16. Como as experiências de reconhecimento e desprezo são decisivas para a capacidade de desenvolver e manter relações ressonantes com o mundo, a crítica das relações de ressonância deve incluir também uma crítica das relações de reconhecimento.
17. Cabe examinar como e sob que formas as esferas de ressonância foram institucionalizadas na sociedade moderna, isto é, como os sujeitos procuram estabelecer eixos de ressonância, que experiências ressonantes têm nessas esferas e quais são as potenciais fontes de perturbação e alienação, sendo as fronteiras entre as esferas quase sempre algo artificiais, já que muito do que vale para a família vale para a amizade e em áreas como o trabalho e a escola estão em jogo relações horizontais, verticais e diagonais, talvez em todos os eixos, pois os mundos subjetivo, objetivo e social estão sempre envolvidos e o conceito de ressonância resiste, metafórica e conceitualmente, à divisão da relação entre eu e mundo.
18. Como a sociedade moderna é funcionalmente diferenciada, cada eixo de ressonância tem um ponto de referência primário e cada esfera de ação diz respeito sobretudo a um modo particular de relação com o mundo, de modo que no trabalho remunerado as relações horizontais se estabelecem apenas por meio do trabalho comum com colegas, clientes ou pacientes, tornando-se amizades quando deixam de girar em torno da ocupação, enquanto as práticas religiosas se enraízam primariamente na ressonância vertical, na conexão entre os seres humanos e Deus ou o reino dos ancestrais, à luz da qual se estabelecem depois as relações horizontais com a comunidade de fiéis e diagonais com o pão e o vinho ou com lugares sagrados e templos.
19. A divisão das esferas de ressonância deve ser entendida apenas como recurso heurístico para examinar o potencial de ressonância e de alienação nas relações com o mundo cultural e institucionalmente estabelecidas da modernidade e nas correspondentes estratégias de vida e de ação de seus sujeitos.