Concepção “clássica” implícita em Newton, Descartes, Locke, Hume: tempo como sucessão de partes (instantes) mutuamente independentes.
Em Descartes: “a natureza do tempo é tal que suas partes não são mutuamente dependentes”. Uma vida é uma série de instantes independentes.
Problema: como explicar a continuidade (duração) se as partes são radicalmente independentes?
Solução cartesiana: a continuidade é produzida por uma causa externa e transcendente (Deus), que preserva (recria) a substância a cada instante. Preservação = criação repetida.
Pontos de concordância de Whitehead com Descartes:
1. Abordagem discreta do tempo (partes, segmentos, atos).
2. Ideia de que a continuidade é uma conservação, e esta conservação é uma criação.
Ruptura de Whitehead: recusa deslocar o problema para Deus ou buscar uma causa externa. Mantém-se no plano do “devir” e o reinterpreta.
A Espessura Temporal das Entidades Atuais: Passado, Presente, Futuro
Passado: corresponde à “diversidade disjuntiva”. É composto por todas as entidades atuais que atingiram satisfação (objetos com “imortalidade objetiva”).
Definição relativa: só tem sentido em relação a um processo de individuação de referência.
Função: fornece “dados” (matéria, potencialidade real) para novas individuações.
Não há exterioridade entre passado e nova entidade: esta inclui, via preensões, a totalidade do que a compõe.
Futuro: não é um momento a vir, mas a “tendência” ou “movimento interno ao ser”. Identifica-se com o “alvo subjetivo” (subjective aim) da entidade, sua causa final imanente.
É o que dirige ativamente a individuação, sem emergir do passado.
Presente: é o ponto preciso de interação onde os dois poderes (passado ativo e futuro passivo) se encontram. É a concrescência mesma, a preensão.
Reúne todo o passado, colocando-o em comunicação com o atual através de uma finalidade que não dele emerge.
Caráter tríplice de uma entidade atual (PR 87):
1. Caráter “dado” pelo passado.
2. Caráter subjetivo visado em seu processo de concrescência (alvo).
3. Caráter superjetivo: valor pragmático de sua satisfação específica, qualificando a criatividade transcendente (seus efeitos sobre futuras individuações).
A Teoria Épocal do Devir: Descontinuidade e Continuidade
Proposição central: “Há um devir da continuidade, mas não uma continuidade do devir” (PR 35).
“Não há continuidade do devir”: afirma a natureza atômica do tempo; os átomos (devires) são limitados e carecem de continuidade entre si.
“Há um devir da continuidade”: problema a ser pensado: como a continuidade surge?
Análise dos paradoxos de Zenão sobre o movimento.
Bergson: paradoxo resulta da espacialização do tempo pelo intelecto. Solução: aprofundar a duração contínua, simpatizar com a mobilidade original.
Whitehead: concorda com o diagnóstico da espacialização, mas recusa que seja uma necessidade inerente ao intelecto. É um caminho possível, não exclusivo.
Diferença crucial na solução: Whitehead não faz da continuidade a dimensão primária do real.
Reconfiguração do problema:
Premissa 1: Em um devir, “algo” (res vera) se torna. Devir e individuação são a mesma coisa.
Premissa 2: Todo ato de devir é divisível em seções anteriores e posteriores que são elas mesmas atos de devir.
Paradoxo surge ao substituir o possível pelo real: porque uma totalidade pode ser dividida, conclui-se que ela está de fato dividida.
O movimento como “rota” (route): série de transmissões de heranças, repetições, onde cada parte herda a anterior e passa adiante. Isto permite escapar do paradoxo.
Crítica à noção clássica de tempo como “serialidade única”: “O avanço criativo não deve ser interpretado no sentido de um avanço unicamente serial” (PR 35). A física moderna abandonou essa noção.
A Distinção entre os Dois Fluxos: Transição e Concrescência
“Descoberta” meio realizada pelos filósofos dos séculos XVII-XVIII: a distinção implícita entre dois tipos de fluxo.
Em Hume (precursor inconsciente):
Primeiro fluxo (Transição): fluxo da experiência do sujeito, passagem (transition) de uma percepção/ideia a outra. É um movimento perpétuo de elementos distintos. “A mente é uma espécie de teatro…”
Segundo fluxo (Síntese): constituição de cada parte, unificação de experiências. São as “sínteses” (hábito, imaginação) que formam unidades a partir de impressões simples. “Uma pensamento persegue outro…”
Transformação whiteheadiana dos termos humeanos para a filosofia especulativa:
“Transição” (transition): passagem de um existente particular a outro. É o “perecimento perpétuo” (Locke).
“Concrescência” (concrescence): a unificação interna, “a constituição interna real de um existente particular” (Locke).
A mente (Hume) ou a alma são substituídas pelas frases “a entidade atual” e “a ocasião atual”.
Ritmo criativo: “O processo criativo é rítmico: oscila da publicidade de muitas coisas à privacidade individual; e oscila de volta do indivíduo privado à publicidade do indivíduo objetificado” (PR 151).
Primeira oscilação: concrescência (do público/múltiplo ao privado/uno).
Segunda oscilação: transição (do privado/uno ao público/objetificado).
A temporalização é feita de “pedaços descontínuos de continuidade”. “Não pode haver continuidade do devir. O que pode haver é um devir da continuidade, uma continuidade formada, pouco a pouco, a partir da descontinuidade” (Wahl).