Pico della Mirandola

Toussaint

Stéphane Toussaint. Les Formes de l’invisible. Essai sur l’ineffabilité au quattrocento

O verdadeiro rosto de Pico della Mirandola permanece inacessível — sua aparência física e sua própria alma dividem os testemunhos.

  • Um retrato o descreve belo, outro o descreve feio.
  • Lorenzo de Médici, o Magnífico, escreveu a Lanfredini em 1489, após a comoção causada pelo Heptaplus: “Costui è instrumento da sapere fare il bene e il male” — “Ele pode ser o instrumento do bem como do mal.”
  • Pico oscila entre os extremos como toda a sua época — luta ou paz, ação ou contemplação, ciência ou amor.
  • Como todo o Quattrocento, sua grandeza nasce de um equilíbrio.

O presente livro não pretende vender amor nem beleza, mas esboçar temas e a estrutura de um raciocínio que um estudo mais sólido virá consolidar.

  • Amor e beleza são temas cuja fascinação é tão forte que é preciso roçá-los como Ulisses evitou as Sereias.
  • O Commento fala por si mesmo com voz alta o suficiente para ser ouvido.
  • O propósito foi esboçar temas e esquissar a estrutura de um raciocínio, não esgotar o assunto.

O pensamento de Pico traz propostas essenciais aos debates da época, e sua novidade foi ora exagerada, ora amortecida pelos intérpretes.

  • Sua novidade foi exagerada pelo pós-kantismo.
  • Foi suavizada e domesticada por certos intérpretes modernos, como de Lubac.
  • Somente o grande Eugenio Garin soube reconhecê-la, mas sem jamais enfrentar completamente o ponto aqui considerado capital — a contribuição pichiana ao neoplatonismo.

O Commento é um testemunho notável e merecia ser tirado do esquecimento em que jazia à sombra de obras mais celebradas.

  • O Heptaplus e a Oratio são justamente celebrados pela crítica e permaneceram sempre em plena luz.
  • O Pico que se revela no Commento rompe abertamente com o pensamento ficiniano para formular exigências novas, até então latentes ou implícitas.
  • Tudo se passa como se, diante do extremismo espiritual de Savonarola, Pico tivesse tentado dar à filosofia um rumo decididamente mais místico e mais radical.
  • O Heptaplus de 1489 — um ano antes do pleno florescimento do gênio profético savonaroliano — realiza uma síntese vigorosa de temas em parte neoplatônicos em torno de uma divindade que não tem mais nada do “sol” ficiniano.
  • Um sonho de coesão espiritual e de ascetismo se manifesta no Heptaplus, e Savonarola o retomará em tom inteiramente diferente.
  • Estão provados empréstimos de Girolamo ao Discurso contra a Astrologia do Mirandolano, embora conjunções mais amplas não devam ser aventadas sem cautela.

Entre o otimismo idealista de Ficino e o profetismo místico de Savonarola, Pico propõe uma autêntica alternativa ideológica — e isso o distingue dos intelectuais de sua geração.

  • A hesitação entre Ficino e Savonarola não era novidade para os intelectuais da geração de Pico ou de Benivieni.
  • Girolamo Benivieni — que morreria quase centenário, após ter escrito o poema de amor platônico cuja tradução é oferecida neste livro — teve, como savonaroliano convicto, escrúpulos piedosos a respeito do Commento.
  • Biagio Buonaccorsi, colega de Maquiavel, soube fraudulentamente arrancar de Benivieni a edição de 1519 — a primeira do Commento —, cuidadosamente expurgada de todos os ataques dirigidos contra Ficino.
  • Pico se distingue desses navegadores incertos perdidos nos redemoinhos nascidos do esfacelamento do neoplatonismo.
  • Sua escolha, eminentemente pessoal, não é, como para os outros humanistas, uma escolha política entre o astro que empalidecia dos Médici e a invencível aurora savonaroliana.
  • Vindo de outros horizontes — do humanismo vêneto-lombardo, essencialmente aristocrático —, Pico, se fosse um filósofo político, teria se despedaçado contra o humanismo burguês de Florença e contra o populismo inspirado dos “piagnoni”.
  • Seu mérito está em outro lugar — em ter feito triunfar a dialética sobre a análise, a abstração sobre a representação, e em ter refinado, até os limites do inefável, a aproximação do divino.

A reflexão de Pico revelou-se determinante para identificar, em termos precisos, o equilíbrio entre continuidade e descontinuidade do visível e do invisível, do dizível e do indizível.

  • A partir dessa identificação, buscou-se tornar sensível a presença desse equilíbrio nos fenômenos intelectuais e estéticos do final do Quattrocento.
  • O objetivo foi, por meio desse esboço de uma filosofia das forças espirituais, lançar alguma luz sobre o universo mental dessa época admirável.

Schefer

PIC DE LA MIRANDOLE, Jean. Neuf cents conclusions philosophiques, cabalistiques et théologiques. Tradução: Bertrand Schefer. 4e éd ed. Paris: Éditions Allia, 2017

Giovanni Pico della Mirandola nasceu em 24 de fevereiro de 1463, no castelo dos condes de Mirandola e de Concordia, entre Parma e Perusia. O dia de seu nascimento, via-se desde o quarto no qual veio ao mundo uma bola de fogo que atravessou o céu, parou alguns instantes nos ares e desapareceu. Concluiu-se que o brilho do meteoro indicava uma vida breve: Pico morreu em 13 de junho de 1493, com trinta anos de idade. Aos dezessete anos, já tinha renunciado a uma carreira jurídica começada três anos antes em Bolonha, estudou a escolástica em Ferrara, Aristóteles e o averroísmo em Pádua, aprendeu a ler o hebreu, o árabe e os textos caldaicos, e compôs sonetos. Aos vinte e um anos, retornou à Florença, se associou em seguida com Lourenço de Médicis e Marsílio Ficino, que exortou a traduzir Platão. Depois de uma estada em Paris de cerca de um ano, junto aos teólogos e mestres da Sorbonne, regressou à Florença e redigiu em algumas semanas as “900 Conclusões Filosóficas, Cabalísticas e Teológicas”, conjunto de teses filosóficas sobre temas diversos, como lógica, física, metafísica, matemáticas, mas também doutrinas desconhecidas, interpretações inéditas mágicas e cabalísticas. A escritura e o estilo se inspiram abertamente dos “filósofos de nosso tempo”, os escolásticos latinos. Pico recusa toda forma de eloquência e de aplica em empregar a linguagem “amarga mas verdadeira” da filosofia. Parte para Roma em 8 de maio de 1486 na esperança de aí sustentar suas teses durante a epifania no curso da grande disputa (disputatio) pública sob a égide do papa. Em 7 de dezembro de 1486, o texto definitivo das 900 Conclusões foi impresso. O livro foi recebido com entusiasmo em Florença. O mestre da Academia platônica em pessoa se propôs a aditar, a título de elogio, uma conclusão suplementar a este monumento de erudição para demonstrar que toda ciência é reminiscência “pois, diz Marsílio Ficino, é bem evidente que sustentar na sua idades tão facilmente e também corretamente problemas tão numerosos e tão importantes, decorre mais da reminiscência que de um conhecimento adquirido”. Em Roma, a audácia do jovem filósofo desagradou e sua reputação causou rancores. Julgando algumas conclusões heterodoxas e outras duvidosas, em 4 de agosto de 1487, Inocente VIII publicou a bula Etsi ex iniuncto nobis, que condenava as 900 Conclusões. o Livro foi interditado. Declarado herético, Pico foi excomungado. Em 1491, um decreto do papa ordenou a destruição das 900 Conclusões. Os volumes foram queimados em Veneza na praça pública durante duas semanas.