Stéphane Toussaint. Les Formes de l’invisible. Essai sur l’ineffabilité au quattrocento
O verdadeiro rosto de Pico della Mirandola permanece inacessível — sua aparência física e sua própria alma dividem os testemunhos.
O presente livro não pretende vender amor nem beleza, mas esboçar temas e a estrutura de um raciocínio que um estudo mais sólido virá consolidar.
O pensamento de Pico traz propostas essenciais aos debates da época, e sua novidade foi ora exagerada, ora amortecida pelos intérpretes.
O Commento é um testemunho notável e merecia ser tirado do esquecimento em que jazia à sombra de obras mais celebradas.
Entre o otimismo idealista de Ficino e o profetismo místico de Savonarola, Pico propõe uma autêntica alternativa ideológica — e isso o distingue dos intelectuais de sua geração.
A reflexão de Pico revelou-se determinante para identificar, em termos precisos, o equilíbrio entre continuidade e descontinuidade do visível e do invisível, do dizível e do indizível.
PIC DE LA MIRANDOLE, Jean. Neuf cents conclusions philosophiques, cabalistiques et théologiques. Tradução: Bertrand Schefer. 4e éd ed. Paris: Éditions Allia, 2017
Giovanni Pico della Mirandola nasceu em 24 de fevereiro de 1463, no castelo dos condes de Mirandola e de Concordia, entre Parma e Perusia. O dia de seu nascimento, via-se desde o quarto no qual veio ao mundo uma bola de fogo que atravessou o céu, parou alguns instantes nos ares e desapareceu. Concluiu-se que o brilho do meteoro indicava uma vida breve: Pico morreu em 13 de junho de 1493, com trinta anos de idade. Aos dezessete anos, já tinha renunciado a uma carreira jurídica começada três anos antes em Bolonha, estudou a escolástica em Ferrara, Aristóteles e o averroísmo em Pádua, aprendeu a ler o hebreu, o árabe e os textos caldaicos, e compôs sonetos. Aos vinte e um anos, retornou à Florença, se associou em seguida com Lourenço de Médicis e Marsílio Ficino, que exortou a traduzir Platão. Depois de uma estada em Paris de cerca de um ano, junto aos teólogos e mestres da Sorbonne, regressou à Florença e redigiu em algumas semanas as “900 Conclusões Filosóficas, Cabalísticas e Teológicas”, conjunto de teses filosóficas sobre temas diversos, como lógica, física, metafísica, matemáticas, mas também doutrinas desconhecidas, interpretações inéditas mágicas e cabalísticas. A escritura e o estilo se inspiram abertamente dos “filósofos de nosso tempo”, os escolásticos latinos. Pico recusa toda forma de eloquência e de aplica em empregar a linguagem “amarga mas verdadeira” da filosofia. Parte para Roma em 8 de maio de 1486 na esperança de aí sustentar suas teses durante a epifania no curso da grande disputa (disputatio) pública sob a égide do papa. Em 7 de dezembro de 1486, o texto definitivo das 900 Conclusões foi impresso. O livro foi recebido com entusiasmo em Florença. O mestre da Academia platônica em pessoa se propôs a aditar, a título de elogio, uma conclusão suplementar a este monumento de erudição para demonstrar que toda ciência é reminiscência “pois, diz Marsílio Ficino, é bem evidente que sustentar na sua idades tão facilmente e também corretamente problemas tão numerosos e tão importantes, decorre mais da reminiscência que de um conhecimento adquirido”. Em Roma, a audácia do jovem filósofo desagradou e sua reputação causou rancores. Julgando algumas conclusões heterodoxas e outras duvidosas, em 4 de agosto de 1487, Inocente VIII publicou a bula Etsi ex iniuncto nobis, que condenava as 900 Conclusões. o Livro foi interditado. Declarado herético, Pico foi excomungado. Em 1491, um decreto do papa ordenou a destruição das 900 Conclusões. Os volumes foram queimados em Veneza na praça pública durante duas semanas.