PARROCHIA, Daniel. La forme des crises: Logique et épistémologie. Seyssel: Champ vallon, 2008.
A palavra “crise” surgiu em francês no final do século XIV. É o latim médico crisis, emprestado do grego krisis, decisão, que vem do verbo krinein, discernir. Naquela época, a palavra crise designava, na história de uma doença, um momento de clímax, um instante crucial ou um ponto de inflexão que se traduzia por uma mudança repentina no estado do doente, para melhor ou para pior. Esse momento da doença em que se manifesta a “crise” é chamado de momento crítico (do latim crisimus ou mesmo criticus). É exatamente nesse sentido que Sêneca a utiliza (Cartas a Lucilius, 83,3), pois a velhice, observemos, não é uma doença, assim como a perda dos dentes na primeira infância.
No entanto, os romanos da época posterior não mais usarão a palavra crisis fora do âmbito médico. Para designar os momentos decisivos nos negócios (rerum) ou na guerra (belli), eles usarão antes a noção de discriminem-inis, que deriva de crimen, ponto de separação, e deu origem, em francês, a “discriminant” e “discrimination”. Inicialmente, a palavra “discriminação” designa a faculdade de discernir ou distinguir (sem a ideia de transformar essa distinção em preferência ou hierarquia qualitativa, ao contrário do que sugere a expressão “discriminação racial” ou a mais recente “discriminação positiva”). Quanto a “discriminante”, que vem da mesma raiz, significa propriamente “que estabelece uma separação entre dois termos”. Derivado da mesma palavra latina discrimen, caráter distintivo, serviu para nomear, em álgebra, essa função bem conhecida dos coeficientes de uma equação de segundo grau que permite discutir a equação e saber se ela admite ou não soluções reais e quantas.
O ambiente semântico da palavra “crise” é, portanto, muito rico. Vamos estudar aqui seus diferentes significados em relação aos outros conceitos (conflito, transação) com os quais desejamos confrontá-la.