1.3 Liberdade e negação

PAREYSON, Luigi. Ontologia della libertà: il male e la sofferenza. Torino: G. Einaudi, 1995.

1. Tendo considerado no outro dia a liberdade como início, início absoluto, passo agora a considerar a liberdade como escolha, partindo de uma análise do ato absoluto e arbitrário da liberdade.

2. A liberdade é, entre outras coisas, o poder de tornar indiferente aquilo que em si não é de modo algum indiferente, isto é, apresenta-se a ela como indiferente aquilo que não é indiferente: apresenta-se como uma igual possibilidade de fazer uma coisa ou outra, de proceder a uma afirmação de si ou a uma negação de si; uma igual possibilidade de fidelidade e traição; uma igual possibilidade de escolher o ser ou o não ser, o bem e o mal.

3. Reconhece-se aqui o ato instantâneo, imperioso da liberdade. Nesse sentido, o ato de liberdade é início, autoposição, criação de si por si, passagem do não ser ao ser, mas de modo que a liberdade possa também pôr-se como não ser.

4. Assim o ato da liberdade é o ser da alternativa, o início se torna por si mesmo uma escolha, o começo absoluto se torna um dilema, o ato que parecia único apresenta-se afinal em dois termos.

5. A liberdade é tão livre que é uma autoposição e se realiza com seu próprio ato, que está sempre em ato e não pode estar em potência. Uma liberdade potencial não existe; aliás, é tão livre que é livre de não ser livre, que se afirma e se realiza não só no ato em que precisamente se afirma e se realiza, mas também no ato em que se nega.

6. Essas duas possibilidades contempladas pela liberdade se realizaram historicamente, não no sentido da história temporal, mas no sentido da história da liberdade, que é história enquanto presente e idêntica à liberdade.

7. Há, em contrapartida, a liberdade que se afirma e que, ao afirmar-se, pretende apenas realizar-se; e além disso não só realizar-se, mas também reafirmar-se, confirmar-se, assegurar-se na liberdade; que se põe e quer manter-se nessa sua autoposição, que, saindo do não ser, não apenas o derrota, mas lhe impede de instituir-se como um nada, como um nada real, como o nada real.

8. Eis como se verificou, como se realizou a duplicidade da liberdade. Há liberdade positiva e liberdade negativa, mas propriamente não são duas liberdades, e sim uma só, que pode ser positiva ou negativa.

9. Não se me oponha, como já se me opôs, que a liberdade negativa não é liberdade, e que por isso não deveria falar de “liberdade negativa”. Certamente, ela não é liberdade, pois é supressão da liberdade: autodestruiu-se. Mas é a própria liberdade que se nega como liberdade, e é sempre um ato de liberdade aquele pelo qual, mediante a escolha negativa, a liberdade suprimiu a si mesma.

10. E aqui é preciso notar um fato: não há equipolência nem equivalência entre a liberdade positiva e a liberdade negativa. A duplicidade da liberdade (que, como liberdade, pode ser negativa ou positiva) apresenta-se sempre sobre o pano de fundo do primado do positivo: é a positividade que predomina.

11. Explica-se assim a realidade do mal, o mal como realidade. O negativo só pode existir como realidade “positiva”, como positividade do negativo, como negatividade positiva, como realidade negativa animada pela mesma afirmação da liberdade.

12. A concepção que proponho não é uma acentuação da negatividade ou da liberdade negativa (o que seria puro pessimismo), mas é um sublinhar da ambiguidade e da duplicidade da liberdade (com o que fica excluído o otimismo).

13. São livres tanto o homem quanto Deus. Mas o homem escolheu a liberdade negativa; Deus escolheu a liberdade positiva. O homem escolheu o mal; Deus escolheu o bem. Entendamo-nos, porém, sobre o que significa essa escolha!

14. Dito em termos histórico-narrativos, o ato da liberdade é o seguinte. No homem a primeira escolha foi uma escolha negativa; em Deus a primeira escolha foi uma escolha positiva.

15. Chamamos “Deus” e “existência de Deus” a positividade, a escolha positiva. Deus é a liberdade que escolhe a liberdade; é o ser, o bem, a verdade, mas não enquanto tais.

16. E se Deus tivesse escolhido o mal? E se o homem tivesse escolhido o bem? São problemas mal colocados, pois de fato essas possibilidades não ocorreram e por isso é inútil demorar-se a examiná-las; farei, porém, uma menção.

17. De toda essa análise que fiz até aqui, queria que resultasse isto: que a liberdade é ao mesmo tempo poder de origem (e portanto início absoluto) e escolha negativa ou positiva, e isso em absoluto, onde quer que haja liberdade.

18. Examinaremos agora o problema do mal. O mal como realidade e o mal como possibilidade.

19. O mal em sua realidade se encontra no mundo histórico-humano, onde foi realizado pelo homem. Mas se pode realmente atribuir ao homem tanta criatividade, tanta capacidade inventiva a ponto de inventar o mal?

20. A escolha do bem se identifica sem resíduo com o repúdio do mal e com a derrota do nada, e em Deus o mal e o nada permanecem como possibilidades postas de lado, inatuais, inoperantes, adormecidas, dormentes, latentes, mas nem por isso menos inquietantes.

21. O mal é instituído como possibilidade no próprio ato em que é vencido. A vitória sobre o mal só pode configurar-se como relegação do mal à possibilidade.

22. Admito que essas afirmações são um tanto fortes, mas, se olharmos para a essência do mal no homem, veremos que é justamente a resposta a esse desafio divino com um desafio, que é o do orgulho humano diante de Deus.

23. Assim também Dostoiévski: o homem em seu orgulho não pode deixar de querer ser Deus; o homem não pode reconhecer Deus sem querer pôr-se em seu lugar. Não há outro reconhecimento além da revolta, o próprio reconhecimento já é uma revolta, já é uma rebelião.

24. Estamos aqui, naturalmente, não no nível da mediocridade humana, a mediocridade tanto no bem quanto no mal: aquele mal tão pequeno que nem chega a ser mal, aquele bem tão pequeno que nem chega a ser bem, em que vive a maior parte da humanidade — estamos aqui naqueles pontos de altíssima elevação em que o mal é satânico, em que o bem é o de um santo.

25. A própria positividade divina é, portanto, um estímulo à rebelião, e foi isso que ocorreu no pecado original: com sua queda, o homem despertou de novo, na positividade divina, aquela negatividade que, vencida e subjugada, ali permanecia adormecida.

26. É, portanto, o homem quem desperta de novo o mal. E dessa maneira creio ter dito o essencial do que queria dizer, dizendo apenas que o discurso sobre a negatividade não estaria completo sem falar do sofrimento; mas, como o sofrimento não é só negatividade, mas uma reviravolta tal na realidade que converte o negativo em positivo, falarei dele na próxima lição, pois isso já faz parte daquela tragédia cosmoteândrica que é a história universal.