ORTEGA Y GASSET, José. El hombre y la gente. Madrid: Revista de Occidente, 1957.
Introdução
X. MEDITAÇÃO DA SAUDAÇÃO. O HOMEM, ANIMAL ETIMOLÓGICO. QUE É UM USO?
1. No contorno não há apenas minerais, vegetais, animais e homens, mas também, e de certo modo antes de tudo, os usos, que desde o nascimento envolvem por todos os lados, oprimem, comprimem, penetram e enchem quase até a borda, fazendo do homem por toda a vida seu prisioneiro e escravo, o que obriga a perguntar o que é o uso.
2. No dizer da gente, uso forma par com costume, mas a distinção entre ambos é arbitrária e o par perdura porque costume parece designar melhor o que vulgarmente se pensa ao dizer uso, um modo de comportamento habitualizado, um hábito social, isto é, uma conduta automatizada pela frequência em muitos indivíduos, como pensa Max Weber, o único sociólogo que se deu ao trabalho de analisar um pouco os fenômenos sociais elementares, e como pensa também Bergson onze anos depois, para quem o uso é costume e o costume um hábito, de modo que a frequência seria a substância do uso, realidade individual que só a coincidência de muitos tornaria fato social.
3. Muitos atos frequentíssimos não são usos, como respirar, que é reflexo, ou andar, que é voluntário, e há usos por essência infrequentes, como os ludi saeculares de Roma, aos quais os arautos convocavam como jogos que ninguém vira nem tornaria a ver, segundo Suetônio na Vida de Cláudio, definição briosa da absoluta infrequência de um uso que, além disso, era costume não deste ou daquele romano, mas de Roma, de um povo, de uma sociedade, o que sugere que os usos são da sociedade, e o saeculum mesmo, ideia etrusca, patética e misteriosa, não é a unidade métrica de cem anos com seus dois estúpidos zeros, mas uma unidade essencialmente imprecisa, como tudo o que é vida.
4. Partindo dos madrilenos hoje vivos, sobretudo os recém-nascidos, o saeculum é a duração de Madri até a morte do último deles, o continuum humano que pode ser vivido por quem mais viver, noventa, cem ou cento e vinte anos, limite flutuante como o da vida.
5. Trata-se da ideia de geração, uma geração humana dilatada até sua longevidade máxima, a unidade mais natural e concreta de medir o tempo por um acontecimento humano, a vida mais longa de um homem, e não pela geometria e pela aritmética.
6. Ver no uso um simples precipitado da frequência é indigno de uma mente analítica, pois não se deve confundir o fato de muitos usos, mas não todos, pressuporem para constituir-se que muitos façam muitas vezes a mesma coisa com o uso já constituído agir por sua frequência, e talvez resulte o inverso, que algo não é uso por ser frequente, mas se faz frequentemente por ser uso.
7. Perguntando à própria conduta, vê-se que não se dá a mão por ser frequente, pois nesse caso quem um dia não tivesse vontade de saudar simplesmente suprimiria o gesto sem consequência, mas sabe-se que deixar de saudar um conhecido irrita e acarreta danos, ao menos ser tido por mal-educado, talvez danos graves, o que já não é questão de frequência ou de hábito, mas de os demais, outro aspecto da gente, imporem a saudação com uma violência inicialmente moral, por trás da qual há sempre, em última instância, a eventualidade de uma violência física.
8. Ainda há poucos anos na Europa quem negava uma saudação recebia automaticamente uma bofetada e no dia seguinte tinha de bater-se em duelo à espada, sabre ou pistola, razão pela qual se trata de palavras maiores.
9. O uso aparece como a ameaça presente no espírito de uma eventual violência, coação ou sanção que os demais exercerão, e o curioso é que o mesmo ocorre a cada um deles, para quem o uso é ameaça dos demais, entre os quais o próprio eu se converteu sem saber.
10. Eis outro atributo do fato social, a violência ou ameaça de violência, que não procede de nenhum sujeito determinado, mas que todo sujeito encontra diante de si como violência atual ou presumível dos demais.
11. É com esse caráter que o social se apresenta primeiro na vida, percebido antes pela vontade que pela inteligência, quando se quer fazer ou deixar de fazer algo e se descobre que não se pode porque se ergue um poder mais forte que domina o querer, manifestado com eufemismos de coações e pressões morais, mas sempre ameaçando com violência física, poder físico e brutal que não é de ninguém, como um poder elementar da natureza, o raio, o vendaval, o terremoto ou a gravidade que impele o astro, o poder social, que funciona na coação que é o uso.
12. À tese de que saudar dando a mão não tem sentido poder-se-ia objetar que o gesto servia para assegurar que não se levavam armas, mas hoje ninguém teme que os conhecidos numa festa levem lanças ou punhais, o que mostra apenas que o gesto teve sentido num passado vago, não que o tenha agora, e revela algo importante e melancólico, que alguns fatos sociais, talvez todos em certa dose, se caracterizam por terem perdido o sentido que tiveram, de modo que seria constitutivo dos usos terem sido ações humanas interindividuais e inteligíveis, com alma, e depois se esvaziarem, mecanizarem e mineralizarem, de vivências convertidas em sobrevivências, petrefatos humanos, sentido pleno da palavra sobrevivência, que já não é vivência vivida, mas despojo, cadáver e fóssil.
13. O objetante imaginário confundia o que de fato acontece ao dar a mão, algo sem sentido, com uma teoria sobre a origem desse fato, elaborada como toda teoria para encontrar-lhe um sentido que tampouco tem para ele quando saúda sem teorizar.
14. Sobre a saudação não há nenhuma teoria corretamente formada, sintoma do estado dos estudos sociológicos, pois não existe livro algum em nenhuma língua dedicado a ela, poucos com um capítulo sobre o tema e nenhum artigo enérgico, salvo um de três páginas, perfeitamente nulo, publicado há setenta anos na Inglaterra com o título On Salutations.
15. Tudo o que há sobre o tema é um capítulo na Sociologia de Spencer, algumas páginas em A finalidade no direito de Ihering, os verbetes da Enciclopédia Britânica e da Enciclopédia Americana de Ciências Sociais e inúmeras generalidades vagas e ineptas nos incontáveis tratados de sociologia.
16. De tudo isso, o único engenhoso e que, com leve variação da prova, poderia valer como verdadeiro é o que Spencer comunica de passagem e que estranhamente nunca foi atendido.
17. Spencer, com métodos e ótica de biólogo, considera o aperto de mãos um resíduo ou rudimento de uma ação cerimonial mais antiga, entendendo por rudimento o fragmento de um órgão ainda não transformado ou atrofiado por inútil, como o terceiro pálpebra humano, que não serve para aquilo a que o órgão serviu ou servirá.
18. Com essa ideia, Spencer põe em série as formas de saudação, cada uma entre as duas mais próximas, passando-se com relativa continuidade de uma a outra, enquanto entre a primeira e a última a diferença é enorme, método das séries quase contínuas, normal nas investigações biológicas desde o positivismo.
19. Assim Spencer deriva o aperto de mãos.
20. A saudação seria um gesto de submissão do inferior ao superior, pois o primitivo vencedor matava o vencido, cujo corpo esperava o canibalismo, mas ao refinar-se passou a escravizá-lo, e o escravo reconhecia sua inferioridade fazendo-se de morto, deitado no chão, imitação do cadáver que seria a saudação primigênia, seguida de sua progressiva incorporação, de quatro, de joelhos, com as mãos juntas entre as do senhor, em sinal de entrega.
21. Esse pôr-se na mão do senhor é o in manu esse dos romanos, o manus dare que significa entregar-se, a manu capto, o mancipium ou escravo, e quem se habitua a ser tomado pela mão é mansuetus, acostumado à mão, domesticado, manso, pois o mando doméstica o homem e o torna manso de fera que era.
22. Depois a saudação deixa de ser gesto do vencido ao vencedor e passa a ser do inferior ao superior, que de pé lhe beija a mão, o beija-mão, mas, com a democratização, o superior, fingida ou sinceramente, resiste a esse sinal de inferioridade e retira a mão que o inferior insiste em levar aos lábios, e dessa luta, como de um filme de Buster Keaton, resulta elegantemente o aperto de mãos, resíduo de toda a história da saudação.
23. A explicação é engenhosa e está muito perto de ser verdadeira, bastando que a série de formas, construída hipoteticamente com exemplos de povos e tempos quaisquer, fosse estudada historicamente, mostrando que cada forma não só é próxima da outra, mas foi efetivamente seu precedente histórico.
24. Não há dúvida de que o aperto de mãos é uma sobrevivência, um rudimento sem o sentido de ação útil, como mostra a saudação na rua, o tirar o chapéu, reduzida diante de conhecidos a tocar a aba com a ponta dos dedos, resíduo que logo também desaparecerá e que dista das complicadas curvas descritas no ar com os enormes chapéus barrocos emplumados em Versalhes de Luís XIV, o que revela uma lei que rege desde então e talvez em toda a história, a da cerimoniosidade minguante.
25. Disso se extrai algo de incalculável transcendência para as ciências humanas.
26. Aperta-se a mão do conhecido para evitar seu aborrecimento, mas não se entende por que justamente esse ato serve a esse fim, e no entanto, ao reconstruir sua história, chega-se a formas antecedentes que tiveram pleno sentido racional para quem as praticava e para quem se transporta imaginariamente a situações muito antigas, e encontrada a forma inteligível, todas as subsequentes até a residual adquirem automaticamente sentido.
27. A superioridade e o senhorio se diziam em latim in manu esse e manus dare, de onde vem mandar, palavra que serve para os efeitos da conversa sem que ninguém, salvo os linguistas, entenda por que se chama assim, sendo preciso fazer o mesmo que com a saudação, reconstruir suas formas linguísticas precedentes até chegar a uma inteligível, manus, a mão enquanto força e poder, pois todo mandar é poder mandar, e essa operação de ressuscitar na palavra morta e desalmada de hoje o sentido vivo e enérgico que teve um dia, pela fonética e pela semântica, chama-se descobrir sua etimologia.
28. Ter etimologia não é exclusivo das palavras, mas de todos os atos humanos, pois em todos intervêm usos, e o ato usual, ação humana convertida em imposição mecânica da coletividade, perdura inercialmente e à deriva, perdendo sentido pela usura de todo uso e variando sua forma até os aspectos ininteligíveis residuais, de modo que as palavras têm etimologia não por serem palavras, mas por serem usos, e o homem é constitutivamente, como membro de uma sociedade, o animal etimológico, sendo a história uma imensa etimologia, o grandioso sistema das etimologias, a única disciplina capaz de descobrir o sentido do que o homem faz e, portanto, do que é.
29. Do modesto estudo da saudação abriu-se assim o mais vasto panorama das humanidades, a história universal como gigantesca etimologia, nome concreto do que mais abstratamente se chama razão histórica, mas a ideia de Spencer deve valer apenas como modelo esquemático, pois simplifica demais ao supor que toda saudação procede de uma homenagem do inferior ao superior, quando a complicada saudação de três quartos de hora do tuaregue no deserto ou o fumar o cachimbo da paz do índio americano não implicam diferença de posição, havendo saudações originariamente igualitárias, e mesmo na saudação atual intervém um componente de efusividade igualitária, embora a mecanização tenha volatilizado toda efusão sincera.
30. A saudação dirige-se também a coisas e objetos simbólicos, a bandeira, a cruz, o cadáver em seu cortejo, e todo saudar inclui uma dimensão de homenagem, uma atenção, cuja falta irrita como desatenção, sendo ao mesmo tempo homenagem e efusão, como mostram as palavras que a acompanham, a saudação dos basutos a seu chefe chamando-o besta selvagem, o salaam aleikum árabe e o shalom hebraico, que passam ao ritual cristão com o ósculo e o pax vobiscum, o salve romano, de onde vem saudar, o khaíre grego, que deseja alegria, os bons-dias, de sentido primitivamente mágico, e a pergunta matinal indiana sobre se houve muitos mosquitos à noite.
31. Esses conteúdos de gesto e palavra, submissão, homenagem, efusão, podem manifestar-se em qualquer momento do trato humano, de modo que o característico da saudação está em algo puramente formal, ser o primeiro que se faz com as pessoas encontradas, antes de tudo o mais, ato inaugural, incoativo, mais prelúdio que fazer efetivo.
32. É sobremaneira enigmático que antes de fazer qualquer coisa com os outros seja preciso antepor essa ação sem significação nem utilidade aparentes, puro ornamento.
33. Para resolver o enigma, em vez de atender à forma geral da saudação, convém observar as leves variações de mais e menos ao saudar, quando se saúda mais formalmente e quando se sente que se pode reduzi-la ao mínimo ou suprimi-la.
34. Deixando de lado os casos de homenagem a pessoas de sumo respeito, saúda-se menos os mais próximos e íntimos, mais indivíduos determinados, e com saudação mais formal e autêntica os mais distantes e menos determinados, que são para nós apenas a abstração de indivíduos, o molde genérico vazio de individualidade determinada.
35. Quando se conhece bem um homem e se pode prever sua conduta mesmo sem usos, sente-se que não é preciso saudá-lo, e a saudação se impõe na medida em que o próximo é menos tal homem e mais um homem qualquer, mais gente, palavra que significa o indivíduo abstrato, esvaziado de sua individualidade única, o qualquer, o indivíduo desindividualizado, um quase indivíduo.
36. Por não se conhecer o quase indivíduo encontrado, nem ele ao outro, e não se poder prever sua conduta, é preciso, antes de fazer algo positivo, declarar mutuamente a resolução de aceitar o sistema de comportamento segundo os usos vigentes naquele lugar, o que oferece pontos firmes de referência e leitos tranquilos para o trato, de modo que dar a mão proclama a mútua vontade de paz e socialidade, socializando-se com o outro, como no cachimbo da paz do índio americano, fundo de todas as saudações.
37. Noutros tempos, quando nenhum repertório firme de usos se estendera por uma área ampla, a imprevisibilidade da conduta alheia, como a do quase indivíduo que o tuaregue encontrava no deserto, incluía possibilidades ilimitadas, até a espoliação e o assassinato, e por isso suas saudações eram muito complicadas.
38. O homem foi uma fera e em potência continua a sê-lo, razão pela qual a aproximação de homem a homem foi sempre uma possível tragédia e até há pouco uma operação perigosa e difícil, que exigiu inventar uma técnica de aproximação, evolutiva ao longo da história, a saudação.
39. Paralelamente, a saudação foi se simplificando, da do tuaregue, que começava a cem metros e durava meia hora com cerimonial complicadíssimo, ao aperto de mãos, última abreviatura e estenografia da cerimônia, o que decifra o enigma, pois a saudação nada significa por si, mas é a declaração de submissão aos usos comuns, ato inaugural da relação com a gente em que se declara aceitar todos os demais usos do grupo, não um uso com conteúdo útil próprio, mas o uso simbolizador de todos, o uso dos usos, a senha da tribo, razão a mais para tomá-lo como exemplo do social, embora reste explicar por que em várias nações se deixou subitamente de dar a mão nos últimos anos em favor do punho ameaçador ou do braço estendido à maneira dos legionários romanos, saudações que não propõem paz, mas provocam ao combate.
40. Antes de defender a doutrina contra esse fato, convém fazer uma suposição imaginária, reduzida a fórmula breve, que esclarece de um golpe muitas coisas.
41. Se todas as pessoas de uma reunião julgassem, cada uma por si, que dar a mão é estúpido ou anti-higiênico, o uso continuaria intacto e cada uma continuaria a praticá-lo sob sua pressão impessoal, brutal e mecânica, e para que isso não ocorresse seria preciso que se comunicassem a opinião uma a uma, até cada uma saber que os demais se opunham, o que equivaleria a constituir um novo uso em substituição ao anterior, no qual quem desse a mão faltaria ao uso vigente, com a única diferença de que o novo pareceria ter mais sentido.
42. Isso mostra, com a pureza descarnada do esquema, um modelo abstrato de como nasce, se desusa e é substituído todo uso, e revela a força estranha do uso, que só existe nos indivíduos e graças a eles, mas paira sobre eles como potência mecânica e impessoal, como realidade física que os manipula como corpos inertes, cuja supressão não está nas mãos da vontade individual e exige muito trabalho, como destruir um morro ou construir uma pirâmide, ganhando indivíduo a indivíduo os demais.
43. A suposição contém duas imprecisões, a primeira das quais é que os usos não se formam numa pequena reunião, onde no máximo se iniciam, mas na grande reunião que é a sociedade, sem que todos precisem pôr-se de acordo, o que jamais ocorreu, nem se trata de acordo, erro do século XVIII, que via a sociedade e seus usos como produto de contrato, nem de maioria, erro majoritário, pois quase sempre é uma minoria, talvez relativamente ampla, que, adotando certo comportamento, consegue com estranho automatismo convertê-lo na terrível e inexorável força social que é um uso.
44. Não é questão de números, pois às vezes um único homem faz avançar mais a constituição de um uso que um milhão, como o conde d'Orsay, dândi de origem francesa instalado em Londres, que por volta de 1840 ou 1850, voltando das corridas em sua égua tordilha, pediu a um operário sob a chuva o casaco com mangas usado pelo povo mais humilde, invenção do sobretudo, que se espalhou na semana seguinte pelas ilhas britânicas e hoje enche o mundo, porque d'Orsay era o homem mais elegante de Londres, e elegante vem de eleger, o que sabe eleger.
45. Não é questão de números, mas de um fenômeno surpreendente, o mais importante da sociologia e, através dela, da história, chamado vigência coletiva.
46. A segunda correção é que, ao substituir-se o uso de dar a mão por outro, os caracteres gerais do uso, ser extraindividual e mecanicamente coativo e persistente, perduravam, com a única diferença de que o novo parecia ter mais sentido que o desusado, que o perdera por completo.
47. Isso não quer dizer que o novo uso tenha muito ou suficiente sentido, pois, como os grupos em que os usos se formam têm muitíssimos indivíduos e é preciso ganhar grande parte deles e que os demais ao menos o conheçam e cumpram, a formação de um uso é lenta.
48. Desde que um indivíduo, pois só os indivíduos criam, tem a ideia criadora de um novo uso até que este se torne vigente, instituição, pois todo uso é instituição, passa forçosamente muito tempo, durante o qual a ideia, que tinha sentido em sua hora inicial, já começa a envelhecer e a tornar-se ininteligível ao fazer-se usual, o que não prejudica o uso, pois o que se faz porque se usa não se faz por parecer razoável, mas mecanicamente, porque se faz e porque não há remédio.
49. O uso demora a instaurar-se e a desaparecer, e por isso todo uso, mesmo o novo, é por essência velho do ponto de vista da cronologia da vida individual.
50. A pessoa, quanto mais pessoa, costuma ser mais rápida em seu fazer, convencendo-se ou decidindo num instante, enquanto a sociedade, feita de usos que tardam a nascer e a morrer, é tardígrada e preguiçosa e avança pela história com lento passo de vaca, e como a história é sobretudo história das sociedades e dos usos, daí seu tempo lento e retardatário, que exige centenas de anos para qualquer avanço substantivo, como no provérbio já antigo para Homero de que os moinhos dos deuses moem devagar, sendo esses moinhos o Destino histórico.
51. O uso é uma forma de vida que o homem muito pessoal sente sempre como arcaica, superada e sem sentido, petrefato humano, conduta ou ideia fossilizada, e por isso o social é sempre mais ou menos pretérito, passado dissecado, múmia, essencial anacronismo.
52. Talvez uma das missões da sociedade seja entesourar, acumular e conservar vida humana extinta, sendo todo o social uma máquina que conserva e fossiliza mecanicamente a vida pessoal, a qual, enquanto humana e pessoal, morre à medida que nasce e se consome em seu exercício com a riqueza e a liberalidade próprias da vida, e para salvá-la é preciso mecanizá-la, desumanizá-la e despersonalizá-la.
53. Pode-se agora voltar à defesa da doutrina da saudação pacífica, abalada pelos empurrões das novas saudações bélicas.
54. Quem ergue o punho ou estende a mão ao vento quer dizer que se alistou num partido, que é partidário e portanto contra as outras partes da sociedade, combatente que não busca paz, mas luta franca, e que a quem não é de seu partido não oferece acordo, mas combate, vitória e tratamento de vencido.
55. Esse fato parece o mais contraditório e devastador para a doutrina, mas a comparação entre o fenômeno coletivo da saudação pacífica e o da saudação bélica revela três diferenças importantíssimas e decisivas.
56. A primeira é que a saudação pacífica, como todo uso, é lenta em instaurar-se e em desaparecer, enquanto as saudações bélicas desalojaram a outra num instante e se impuseram fulminantemente assim que certo partido conquistou o governo.
57. A segunda é que à saudação pacífica ninguém determinado convida, sendo a sugestão da figura envolvente e atmosférica dos demais, e a coação não vem de ninguém determinado, enquanto a saudação bélica é decretada por um homem que até assina a ordem que a impõe, e a coação é executada por indivíduos especialmente designados, às vezes uniformizados, um poder social não difuso, mas preciso e organizado, com órgãos especiais para sua função.
58. A terceira é que na saudação pacífica a coação contra quem falta ao uso é quase sempre frouxa, dirigida menos contra o ato que contra a pessoa, em forma de juízos desfavoráveis com consequências apenas a longo prazo, sem empenho em impedir a repetição, enquanto na bélica quem não saúda com o punho ou a palma é imediatamente violentado e vexado, numa coação dirigida contra o ato e resolvida a não tolerar sua repetição, de modo que esse fato social não é difuso, impreciso, débil nem frouxo, nem em seu inspirador, nem no poder que coage, nem na coação.
59. Convém que os filósofos do direito comparem as principais definições do direito e as tentativas de distingui-lo de outros fenômenos sociais, como costumes, regras convencionais e moral, com essa advertência.
60. Deixando para outra lição a diferença de andamento na instauração dos usos, ritardando no pacífico e prestissimo no bélico, revelam-se duas classes de usos, os débeis e difusos, como os chamados usos e costumes no vestir, no comer e no trato social corrente, e também os usos do dizer e do pensar que constituem o dizer da gente, a própria língua e os lugares-comuns, o que confusamente se chama opinião pública, e os fortes e rígidos.
61. Para que uma ideia pessoal autêntica, evidente quando pensada por um indivíduo, se torne opinião pública, tem de sofrer a dramática operação de converter-se em lugar-comum, perdendo sua evidência, autenticidade e até atualidade, pois todo lugar-comum, como uso, é velho como todos os usos.
62. Exemplos dos usos fortes e rígidos são, além dos econômicos, o Direito e o Estado, dentro do qual aparece a coisa terrível, mas inexorável e indispensável, que é a política.
63. A saudação bélica não é propriamente saudação, pois não promete saúde a quem é saudado, mas uma ordem, um mandamento, uma lei emanada de um direito extremo nascido de um Estado superlativo, sem nada em comum com a saudação pacífica, salvo negativamente, por tê-la proibido, de modo que a teoria fica salva e até confirmada.
64. Sobre o pobre aperto de mãos resta ainda uma última palavra.
65. Por razões radicais, pertencentes à base mais definitiva desse pensamento filosófico, tudo o que é humano, a pessoa, suas ações e obras, tem sempre uma idade, infantil, jovem, madura, caduca ou decadente, que um pouco de perspicácia permite ver como se vê a idade do cavalo pelos dentes, e nesse sentido o aperto de mãos está na decrepitude e na agonia e logo desaparecerá, não pelo golpe das saudações bélicas, mas por estar desusado, e sem conhecer a Inglaterra nem o que ali se passa nos últimos dez anos, pode-se afirmar a priori que ali deve ter começado há dez ou doze anos seu desaparecimento e substituição por algo mais simples, uma leve inclinação de cabeça ou um sorriso inaugural.
66. A razão disso é uma ideia apaixonante, evidente e importante, nunca advertida nem pelos próprios ingleses, a de que na história de quase todo modo de vida ocidental, com raríssimas exceções que confirmam a regra, antes de seu aparecimento pleno e brilhante no continente houve sempre um precursor na Inglaterra, a precedência da Inglaterra em relação ao continente, não só desde que se tornou potência mundial, mas desde o começo da Idade Média.
67. É até vergonhoso lembrar que foram os ingleses que ensinaram os demais europeus a falar bom latim, quando enviaram ao continente, no tempo de Carlos Magno, Alcuíno e alguns outros.
68. Os ingleses não viram isso, mas em algumas raras palavras dos pensadores ingleses que mais profundamente meditaram sobre seu povo se entrevê que vislumbraram algo parecido sem chegar a vê-lo.
69. Os temas são tantos que se atropelam, e quem se dedica a pensar, chegado a certa altura da vida, quase só pode calar, porque as coisas a exprimir se amontoam na garganta e estrangulam o dizer, razão de anos de silêncio, embora nestas lições se tenha seguido direto ao tema, sendo os aparentes episódios avanços substanciais, renunciando ascéticamente a disparar contra os esplêndidos problemas que levantavam voo como faisões de um e outro lado do caminho.
70. O outro homem é sempre perigoso, mesmo quando, no caso do próximo e íntimo, essa periculosidade é mínima e passa despercebida, e a existência do uso da saudação prova a consciência viva de serem os homens risco mútuo, impondo-se ainda hoje, ao aproximar-se do próximo, uma espécie de sondagem, um amortecedor que suavize o choque.
71. A forma da saudação foi se atrofiando na medida exata em que diminuiu o perigo, e se subsiste um resíduo dela é porque persiste um resto deste, de modo que esse uso continua útil, como se veria se por mágica fosse eliminado e fosse preciso começar sem esse contato ornamental o trato positivo com os conhecidos, o que pareceria áspero e impertinente salvo na intimidade contínua, em que não há propriamente encontro, já que nunca dois encontros se dão no mesmo nível de proximidade e se leva uma espécie de termômetro da sociabilidade que a saudação ajuda a ler para acertar nas primeiras palavras, e só os anjos, mutuamente transparentes, não precisariam saudar-se, mas é tão congênito aos homens serem uns para os outros mistério e perigo que esse pequeno drama constante dá sabor à convivência, e se todos se tornassem transparentes sofreriam enorme desilusão, sendo talvez o mais importante, diante da necessidade de instaurar uma nova cultura em lugar das tradições esgotadas como pedreiras exaustas, aprender a ver as negatividades que constituem a condição humana limitada e finita como positividades nas quais se apoiar, reconhecendo, ao contrário dos utopistas, que o homem é perigoso para o homem e aproveitando isso como o pássaro se apoia na resistência do ar para voar, pois a cultura foi sempre aproveitamento de inconvenientes.
72. Pode-se objetar que a saudação atual só se usa com conhecidos e não com os desconhecidos da rua, a quem seria mais útil, ao contrário do deserto ou da selva, onde o anônimo que surge no horizonte recebe o cumprimento mais longo, mas a razão é que na cidade, onde convivem constantemente desconhecidos, não bastava esse uso ornamental e de tênue eficácia, que ficou reduzido aos círculos de menor periculosidade, os grupos de conhecidos, em que quem apresenta duas pessoas garante seu caráter pacífico, sendo preciso para regular o atrito dos desconhecidos na grande cidade um uso mais peremptório, enérgico e preciso, a polícia, que só pode ser tratada a partir de um uso mais amplo, o poder público ou Estado, compreensível apenas pelo sistema de usos intelectuais chamado opinião pública, constituído pelo sistema de usos verbais que é a língua, de modo que os usos se articulam e se apoiam uns nos outros formando uma arquitetura ingente, que é precisamente a Sociedade.