5 A Vida

V — A VIDA COMO FABRICAÇÃO DE SI MESMA. TÉCNICA E DESEJOS

1. A existência humana consiste essencialmente num problema, pois, enquanto para os demais entes existir é a simples realização de uma essência, como o touro que já existe sendo touro, para o homem existir é apenas a possibilidade e o esforço de chegar a ser o que é, de modo que a vida é pura tarefa e inexorável afazer, uma autofabricação que põe o homem, na raiz de sua essência, na situação do técnico, sendo a vida antes produção do que contemplação ou teoria, que só vêm depois e porque a produção as exige, e a história do pensamento a série de observações feitas para descobrir a máquina latente no mundo, razão pela qual a técnica plena começou por volta de 1600, com Galileu, Descartes e Huygens, quando o mundo passou a ser entendido como a máquina das máquinas.

2. É um erro fundamental crer que o homem seja apenas um animal casualmente dotado de talento técnico, pois a verdade é o contrário: por ter uma tarefa extranatural, ele não pode, como o animal, dedicar suas energias à satisfação das necessidades elementares, mas precisa poupá-las nessa ordem para entregar-se à improvável faina de realizar seu ser no mundo.

3. O homem começa quando começa a técnica, cuja folga aberta na natureza é o alvéolo onde ele pode alojar seu ser excêntrico, de modo que o sentido e a causa da técnica estão fora dela, no emprego das energias vacantes que ela libera, sendo sua missão inicial franquear ao homem a possibilidade de dedicar-se a ser si mesmo.

4. Os antigos dividiam a vida em duas zonas: o otium, que não era a negação do fazer, mas a ocupação com o propriamente humano, entendido como mando, organização, trato social, ciências e artes, e o nec-otium, o esforço para satisfazer as necessidades elementares que tornavam possível o ócio, nome que assinala bem seu caráter negativo para o homem.

5. Em vez de viver ao acaso e desperdiçar esforço, o homem precisa agir conforme um plano para obter segurança diante das exigências naturais e dominá-las com o máximo de rendimento, e nisso consiste seu fazer técnico, oposto ao fazer despreocupado do animal, como o do passarinho entregue à providência.

6. Todas as atividades humanas que recebem ou merecem o nome de técnicas não passam de especificações e concreções desse caráter geral de autofabricação próprio da vida humana.

7. Nenhuma técnica existiria se a existência não fosse desde o início a necessidade de construir com o material da natureza a pretensão extranatural que é o homem, pois o fato absoluto da técnica só pode dar-se na dramática combinação metafísica em que dois entes heterogêneos, o homem e o mundo, são obrigados a unificar-se, cabendo ao primeiro inserir seu ser extramundano no segundo, problema quase de engenheiro que é a própria existência humana.

8. Ainda assim, a técnica não é o primeiro, pois, embora engenhe e execute a tarefa da vida, não define o programa humano, cuja finalidade lhe é prefixada, de modo que o programa vital é pré-técnico e as próprias necessidades que a técnica procura satisfazer são uma invenção, havendo antes dela uma invenção por excelência, que é o desejo original.

9. Desejar não é tarefa fácil, como mostra a angústia específica do novo-rico, que tem nas mãos os meios de realizar seus desejos mas descobre que não sabe desejar e, incapaz de orientar o próprio apetite, encarrega os outros de desejar por ele, comprando primeiro automóvel, pianola e fonógrafo, pois assim como há o lugar-comum do pensamento repetido maquinalmente, há também um desejo tópico, mera ficção e gesto de desejar.

10. Se isso ocorre até no desejo referente às coisas já presentes no horizonte, muito mais difícil é o desejo propriamente criador, que postula o inexistente, e como todos os desejos relativos a coisas se movem dentro do perfil do homem que se deseja ser, esse é o desejo radical, fonte de todos os demais, de modo que quem não tem claro um si mesmo a realizar só possui pseudodesejos, espectros de apetites sem sinceridade nem vigor.

11. A doença básica do tempo presente talvez seja uma crise dos desejos, já enunciada em 1921 em Espanha invertebrada como extenuação da faculdade de desejar na Europa, o que explica que a fabulosa potencialidade da técnica, equivalente a 2.500 milhões de escravos, dois servidores para cada civilizado, pareça não servir de nada e ameace deter-se ou retroceder, porque o homem atual, dispondo de recursos superabundantes, não sabe o que ser e carece de imaginação para inventar o argumento da própria vida.

12. A razão disso escapa ao presente ensaio, mas cabe perguntar que espécie de homens são os especialistas do programa vital, se o poeta, o filósofo, o fundador de religião, o político ou o descobridor de valores, bastando notar que o técnico os pressupõe, o que explica uma diferença de categoria sempre existente e contra a qual é inútil protestar.

13. Talvez a isso se ligue o fato estranhíssimo de que a técnica seja quase sempre anônima e seus criadores não gozem da fama nominal que acompanha aqueles outros homens, como mostra o motor a explosão, um dos inventos mais formidáveis dos últimos sessenta anos, cujos inventores poucos não técnicos sabem nomear.

14. Daí também a enorme improbabilidade de constituir-se uma tecnocracia, pois por definição o técnico não pode mandar nem dirigir em última instância, sendo seu papel magnífico e venerável, mas irremediavelmente de segundo plano.

15. Convém resumir o que foi exposto.

16. A reforma da natureza, ou técnica, é um movimento entre dois termos, cujo termo a quo é a natureza tal como está e cujo termo ad quem é o programa vital do homem, cuja realização plena se chama bem-estar ou felicidade, fechando-se assim o círculo de todas as considerações anteriores.